Em detalhe: Casa pré-fabricada no Uruguai, de Mapa Arquitetos

Mapa Arquitetos . Maldonado, Uruguai . 2014/2015

O CONCEITO PROJETUAL COMO PROPÓSITO E PRODUTO
O objetivo do projeto era buscar uma forma eficiente para a implantação em local ermo, com os menores impactos e um conceito mínimo na forma construtiva: um abrigo e refúgio. Busca-se a paisagem mais natural, sem a criação de jardins, com o mínimo de planos artificiais – somente o necessário como piso e abrigo.

As razões levaram a um produto com forma de instalação, esforços e atividades construtivas reduzidas no local, um produto de assente no terreno, uma obra “quase pronta”. Assim, também, contém uma produção prévia de qualidade, atendendo como uma construção que impacta o mínimo com canteiro de obras e atividades in loco.

A obra pode ser modificada, ampliada, reformada, mas, por ser industrializada (pré-fabricada), há a possibilidade de, após período de uso ou mesmo após certo intervalo de ciclo de vida, subtrair a construção do local e fornecer a reversibilidade plena da ocupação.

O SISTEMA CONSTRUTIVO
A obra do refúgio possui área total construída de 115 m² e é constituída por uma estrutura de embasamento e uma superestrutura. A estrutura de embasamento é a fundação de alvenaria de pedra, moldada in loco. No embasamento e no que conforma o nível do subsolo entre os muros de pedras, há uma área correspondente a 15 m²: a adega, um depósito e uma área de serviços.

A superestrutura é feita de blocos modulares pré-fabricados de steel deck, que constitui o abrigo: um pavimento único com cobertura. Adotou-se a divisão da superestrutura em quatro blocos paralelos, como setores distintos de implantação no local e montagem.

DETALHAMENTO DOS MÓDULOS: SETOR A
Como destaque construtivo do módulo setor A, nota-se a divisória entre banho e o dormitório – emplacamento de maior espessura de um lado definido para o quarto em madeira, e na face oposta e molhável, emplacamento resistente à água e revestimento, assim como piso na área molhável e parte seca com materiais distintos. Bandeiras fazem o fechamento entre forro e vedação vertical e/ou aberturas.

DETALHAMENTO DOS MÓDULOS: SETOR B
O módulo Setor B é mais aberto em termos de ambiente com um emplacamento único para o forro e piso. Para as janelas e portas de vidro, a especificação foi de alumínio anodizado cor preta, por ser um material leve, durável e que exige pouca manutenção, por sua superfície tratada.

DETALHAMENTO DOS MÓDULOS: SETOR C
Esse módulo se diferencia pelo trabalho embutido de mobiliário e caracterização de uma obra personalizada, ou seja, um módulo que já sai de fábrica com os móveis planejados e adaptados.

DETALHAMENTO DOS MÓDULOS: SETOR D
Nota-se nesse módulo a chapa de guarnição externa, que faz o acabamento dos módulos da obra, em perfil de aço dobrado.

VEDAÇÃO EXTERNA DO DORMITÓRIO COM A ABERTURA DA JANELA
Nota-se neste corte a estrutura de steel frame, com seu interior preenchido com poliuretano projetado. Como fechamento externo, encontram- se as chapas onduladas de aço galvanizado. Tanto no forro quanto no piso, vê-se a composição do emplacamento e madeira – com mestras fixadas ao steel frame e sobre estas, peças corridas de revestimento configurando faixas de assoalho e forro.

O STEELFRAME
O sistema construtivo adotado para a obra é o steel frame, tipologias seca e industrializada. Diz-se seca por não ter (ou ter em quantidades muitos reduzidas) materiais úmidos e na forma líquida na implantação e montagem da obra no local, sendo um sistema de encaixes e ligações.

No sistema típico de steel frame, os perfis leves de aço são feitos de chapas de espessura de 0,95 mm.

ELEVAÇÃO VERTICAL DAS PAREDES
Assim como o piso, as paredes são nervuras verticais uniformemente espaçadas e, para enrijecimento e contraventamento, são unidas perpendicularmente aos seus planos por perfis, onde conta com uma união em pino e com contrachapa retangular de reforço nessa união.

Nesse projeto, no entanto, foram especificados perfis de 2,5 mm de espessura, para dar mais rigidez ao conjunto e garantir que cada volume suportasse os esforços do transporte com menor deformação. Os módulos são pré-fabricados em uma sequência coordenada e de forma integrada para que se tenha um conjunto construtivo completo: piso, cobertura, vedações, instalações de uso e operação.

COBERTURA
Em duas águas, é definida por três terças e vigas de sustentação do telhado. As terças são reticuladas em quadros ortogonais que recebem perfis espaçados uniformemente e ortogonais aos seus alinhamentos para sustentação do emplacamento de cobertura. Nota-se que perfis em chapa dobrada são conformados em calhas.

PISO
O piso é reticulado de perfis leves em seção “C”, de alma com vazios uniformemente espaçados e ovalados, formando uma grade em uma direção que é a estrutura de suporte do chão em steel frame. A forma de nervura em uma direção dentro de um quadro é a condição que garante a rigidez e a estabilidade do piso para todas as situações de transporte, deslocamentos e cargas em uso e operações. As ligações são leves com pinos e regularmente espaçadas tanto na formação dos perfis quanto nas uniões entre peças. Para as uniões da estrutura do piso, vê-se inserto de chapa de estabilização contra a flambagem localizada – como se enquadrando o ponto anexo à ligação da travessa à viga de apoio.

SUSTENTAÇÃO VERTICAL
É dada pelos pilares que, para a adequada transferência das cargas horizontais e verticais, foram projetados com dois tipos de seções: seção aberta com três perfis e seção fechada com quatro perfis – essa condição permite também a inserção de instalações e encaixes diversos como de emplacamentos e equipamentos. As ligações entre pilares e vigas tanto na cobertura quanto no piso são dadas por um sistema de acoplamento e confinamento em quadro como pode-se notar a formação de perfil “C” formando um alinhamento como um trilho/ bandeja na face inferior da viga de cobertura e na face superior da viga de piso. Essa condição forma o encaixe por sobreposição e confina os pilares com as vigas.

ABERTURA DA JANELA DO DORMITÓRIO
A estrutura de steel frame é vedada por dois painéis, um interno e um externo de madeira compensada (painel terciado de 12 mm). Pelo lado externo, o painel compensado recebe uma membrana isolante. Para afastamento entre chapa ondulada externa e o painel compensado, nota-se um perfil de apoio e de espaçamento entre essas duas superfícies, que se apoia sobre chapa dobrada que se configura em canal de esgotamento de águas.

O mesmo espaçador é utilizado na face inferior da abertura, que permite também o apoio das duas superfícies. Merece especial atenção um pequeno detalhe do recorte, proporcionado na face inferior da placa de madeira como pingadeira e evitando os escorrimentos das águas para a parede.

BANHEIRO
Para a divisória vertical entre a área molhável e seca, banheiro e quarto, os emplacamentos são diferentes e espessos. Para as áreas molháveis foram especificadas placas cimentícias sobre as elevações de steel frame. Pela face externa, há aplicação de placa de compensado de madeira e fechamento com chapa ondulada em aço galvanizado. No piso e teto, segue-se a conformação de um assoalho de madeira.

PAINÉIS MÓVEIS
A captação das águas pluviais do telhado é feita por chapa galvanizada que se apoia em viga vazada em duplo “C” e conforma a calha. Uma chapa inclinada faz o esgotamento das águas do topo para a calha. Para as fachadas e no sentido de controlar a entrada de iluminação e privacidade, as aberturas possuem cortinas em painéis sarrafeados deslizantes sobre trilhos, que funcionam como brises. Cada fachada foi modulada e previamente projetada segundo os vãos e condições de aberturas. Os trilhos são fixados na estrutura de steel frame e foram instalados no local.

SASQUIA HIZURO OBATA é engenheira civil pela Faap, com mestrado em engenharia civil pela USP e doutorado em arquitetura e urbanismo pela Universidade Mackenzie. É professora do curso de arquitetura e urbanismo na Faap e na Fatec Tatuapé-Victor Civita. É pesquisadora do programa de pós-doutorado em Sustentabilidade em Sistemas de Produção no LaProma/Unip-SP