Superlimão Studio transforma galpão em loja pronta-entrega da Fernando Jaeger, em São Paulo

À primeira vista, as duas premissas de projeto que deveriam orientar o desenho da nova loja para pronta entrega de móveis da Fernando Jaeger, no bairro de Moema, em São Paulo, pareciam apontar em direções contrárias.

Uma das determinações do cliente era de que o novo espaço fizesse referência à primeira loja para pronta entrega da marca, fruto da bem-sucedida reforma de uma casa térrea no bairro da Pompeia, na mesma cidade, assinada pelo SuperLimão Studio (AU 236). Por isso, Jaeger convidou os mesmos arquitetos e apresentou-lhes o imóvel que desejava alugar para a próxima empreitada: um galpão de estrutura metálica simples, sem maior valor arquitetônico, ainda em construção. “Um espaço muito mais frio, muito mais cru do que a casa do projeto anterior”, resume Thiago Rodrigues, sócio do escritório.

Intervir em uma estrutura fria e impessoal, atendendo aos requisitos de um programa comercial em particular e, ao mesmo tempo, resgatar elementos de um projeto anterior, baseado em uma casa mais antiga, cheia de personalidade, foram os desafios aos quais a equipe do SuperLimão precisava responder. Os arquitetos perceberam que o link entre os projetos estaria, paradoxalmente, em atender às suas diferenças: “o partido do outro projeto foi justamente valorizar a arquitetura existente,” lembra Thiago. Restava, assim, dialogar com a espacialidade do novo imóvel sem maiores preconceitos para, então, elencar soluções da primeira loja que fizessem sentido na segunda.

Ao contrário da casa na Pompeia, toda entrecortada por paredes internas, o novo galpão oferecia um amplo espaço desimpedido, ideal para a exibição das dezenas de peças de mobiliário que podem ser imediatamente levadas pelos clientes. Os arquitetos decidiram preservar e realçar essa qualidade espacial ao locar todos os itens programáticos fixos (elevador, toalete e balcão de vendas) de um só lado do edifício, alinhados a interferências já consolidadas como rampa de acesso ao estacionamento no subsolo e conjunto de escadas.

A entrada da loja – uma marquise em chapa de ferro igual à utilizada na primeira pronta entrega – foi estrategicamente lançada no lado livre de intervenções, de maneira a conduzir o olhar do visitante por todo o showroom até uma pequena área a céu aberto aos fundos. O primeiro ambiente, com pé-direito duplo, faz as vezes de vitrine e estoque ao mesmo tempo, com uma grande estante de madeira que recebe algumas das peças disponíveis para venda. A planta livre da edificação permite que os móveis possam ser constantemente rearranjados como em uma galeria, de acordo com o material em estoque. O subsolo abriga, além do estacionamento, um pequeno jardim que garante a taxa de permeabilidade do terreno e uma área de expedição para embalar os móveis vendidos.

O galpão foi entregue aos arquitetos, basicamente, apenas com a estrutura metálica, a cobertura de telhas metálicas e as lajes de concreto; a partir daí, todas as decisões foram tomadas pela nova equipe de projeto. A mais marcante delas, provavelmente, foi a intervenção feita sobre a fachada principal.

A frente da loja é voltada para norte, o que faz com que receba grande incidência de radiação solar direta. Para controlar a entrada de luz nos ambientes internos, os arquitetos desenharam um conjunto de chapas metálicas – umas com recortes, outras lisas – inspiradas na Cadeira-Deliciosa, então recém-lançada por Jaeger. As chapas, cortadas a laser, retratam o padrão orgânico presente nas folhas da planta Monstera deliciosa (costela-de-adão), e foram dispostas na fachada após cuidadoso estudo de composição, levando em conta questões de escala, cor, ritmo e relação entre cheios e vazios. As placas lisas foram suavemente dobradas para conferir certo movimento ao conjunto.

Por dentro da loja, as intervenções foram discretas. A estrutura metálica existente foi pintada de cinza-escuro, enquanto as paredes receberam um tom de cinza mais claro. O piso nada mais é do que a própria laje de concreto, lixada até deixar aparente a brita utilizada como agregado no canteiro de obras. Os novos volumes construídos (caixas de elevador e sanitários) e o telhado metálico foram revestidos com compensado de pínus, também utilizado na reforma da Pompeia. Para os arquitetos, esse material teve a função de aquecer os ambientes. Os detalhes de guarda-corpo, escada e corrimão também seguiram os desenhos já desenvolvidos para a primeira loja, com pequenas alterações: uma delas foi a utilização de uma tela metálica como vedação, escolhida para fazer eco ao caráter industrial do espaço. Grades metálicas aparecem também como piso no recuo posterior do térreo e no pavimento superior, na área sobre a rampa de acesso à garagem – a ideia foi aproveitar vazios externos à edificação para criar áreas de estar e de exposição de móveis para ambientes abertos.

Sobre o pano de fundo sóbrio e neutro da arquitetura, entram os coloridos móveis de Fernando Jaeger, completando e dando sentido aos espaços. Como verdadeiras protagonistas, as peças de design ditaram a iluminação da loja: eletrocalhas penduradas na estrutura servem de suporte para projetores cônicos que lançam iluminação cênica sobre o espaço. De maneira análoga àquela utilizada na primeira loja, fitas de led embutidas nas mesmas calhas complementam a estratégia, banhando os planos de cobertura de suave luz que confere leveza aos ambientes.

A dupla de projetos Pompeia-Moema demonstra que o enfrentamento a questões arquitetônicas em edifícios com estruturas já consolidadas não pode se furtar à compreensão da espacialidade própria de cada um. Nesse sentido, as reformas se fazem de dentro para fora: da essência do espaço até seus desdobramentos materiais. Neste caso, os arquitetos tiveram que se despir de qualquer fórmula pré-concebida sobre como fazer os edifícios dialogarem, confiar em seu processo de trabalho e lançar mão de muito bom senso na hora de escolher que soluções importar de um projeto ao outro. O resultado são edifícios não exatamente parecidos, mas que exalam uma inefável convergência em espírito. Uma justa tradução arquitetônica aos próprios móveis que abrigam.

SELF IDENTITY
One of the client’s determinations was for the new space to make reference to the first store for ready-delivery of the brand, fruit of a very successful remodeling of a single-story house in the borough of Pompeia , in the same city, signed by SuperLimão Studio (AU 236). This is why Fernando Jaeger invited the same architects and introduced them to the real estate for the next job: a simple metal-structure shed, without great architectonic value, still under construction. The architects perceived that the link between the designs would be in attending to their differences: “the takeoff of the other design was precisely to value the existing architecture,” recalls Thiago Rodrigues, a partner at the firm. Unlike the Pompeia house, intercut by interior walls, the new shed would offer ample, unbridled space, ideal for the exhibition of furniture pieces. The architects decided to preserve and enhance this spatial quality on locating the set programmatic items (elevator, toilet and sales counter) on only one side of the building. The store entrance – a iron-plate marquise just like the one used in the first ready-delivery store – was strategically posted on the side from of interventions, insomuch as to lead the visitor’s eye about the entire showroom to a small open-air area in the back. On the main facade, to control the entrance of light , the architects designed a complex of steel plating – some with cut outs, others solid – inspired in the Split-Leaf Philodendron Chair, recently launched then by Jaeger. The laser-cut plating, portray the organic standard present in the leaves of the Split-Leaf Philodendron (Adam’s Rib Plant), and were laid out after cautious study of the composition, on keeping matters of scale, color, rhythm and relation between protrusions and recesses in mind.

POR: MARIANA SIQUEIRA FOTOS: MAÍRA ACAYABA