Quinta Monroy 12 anos depois: uma análise da habitação social de Alejandro Aravena

1 – Doze anos depois da entrega das casas, a maioria dos habitantes originais ainda permanece no bairro, ampliando a habitação social que receberam, como pretendia o projeto de Aravena – Quinta Monroy foi a primeira aplicação prática do sistema defendido pelo arquiteto, de construir metade da casa para que o morador a termine

Começa fevereiro, o verão avança e dona Praxedes Campos se prepara para percorrer, novamente, os 2,3 mil km que separam sua casa em Iquique da vila de Santa Bárbara, onde nasceu e acaba de passar suas férias. A parada de quatro dias em Santiago ajudou a diminuir a viagem, ver o médico que trata de suas lesões depois que foi atropelada – a recuperação vai bem – e também para fazer uma visita e cumprimentar pessoalmente “seu arquiteto”, que acabava de ser anunciado vencedor do Prêmio Pritzker 2016.

“Não é qualquer um que vive em uma casa desenhada por um Prêmio Nobel”, afirma com orgulho Praxedes, fazendo sua a confusão semeada pela imprensa local ao apresentar o prêmio recebido por Alejandro Aravena como o Nobel da arquitetura – talvez para comunicar a importância do reconhecimento a um público que provavelmente nunca ouviu falar da Fundação Hyatt nem de sua relação global com os arquitetos. Convencida da relevância que teve o projeto de Quinta Monroy na decisão do júri do Pritzker, Praxedes também se sente premiada. Ela é parte da comunidade de pouco mais do que 111 famílias que, em 2002, ocupava o espaço do antigo rancho (quinta, em espanhol) Monroy, no centro de Iquique, e que se organizou para evitar o desalojamento e assegurar o acesso a uma casa definitiva no mesmo espaço que ocuparam, em alguns casos, por cerca de 30 anos. Nesse processo, Praxedes teve um papel importante como líder natural de um grupo heterogêneo, e não necessariamente coeso, de vizinhos em busca de uma casa melhor. Foi uma das interlocutoras mais participativas nas reuniões com a equipe de arquitetos encabeçada por Aravena.

O resultado do trabalho conjunto é o projeto, inaugurado em 2004, que substituiu o denso labirinto de residências não planejadas que iam se acumulando desde a década de 1970 nos 5 mil m² do terreno do rancho Monroy.

1888/2004
No contexto da habitação social no Chile, as circunstâncias que dão origem ao projeto do Elemental para a Quinta Monroy tendem a situá-lo em uma posição excepcional e não necessariamente replicável. Em primeiro lugar, boa parte do interesse em seu resultado tem a ver com a permanência de um grupo de vizinhos assentados informalmente em um local notavelmente central, algo não usual para um país marcado por uma dura e equivocada política de erradicações, implementada pela ditadura de Pinochet para liberar terrenos para a especulação imobiliária.

Em segundo lugar, o projeto se inscreve em uma série de programas impulsionada pelo Estado que, a partir do início do século 21 e em áreas diversas, tinham como objetivo resolver o déficit de habitações, estimular o fortalecimento de comunidades em seus bairros e descentralizar as iniciativas de desenho e de construção da moradia social. A esses fatores se soma a chegada de uma geração de arquitetos que tem como ambição recuperar os vínculos da disciplina com o âmbito social e com as políticas públicas. Esses novos profissionais retomaram com energia os pensamentos de Paul Barker e John Habraken, entre outros, na busca por respostas imaginativas e não necessariamente convencionais aos complexos problemas de uma realidade social e urbana tão estimulante quanto desigual – e compartilhada pela maioria dos países da América Latina.

No entanto, e apesar de sua singularidade, não é possível entender o projeto do Elemental na Quinta Monroy sem considerar a rica cultura da moradia popular no Chile. Desde o estabelecimento do primeiro regulamento municipal para a construção de cortiços em 1888 até a implantação do programa nacional de subsídio habitacional, no final da década de 1970, as políticas de habitação social no Chile se caracterizaram pela dependência da ação de agentes privados. São poucos os momentos em que o Estado assumiu um papel ativo e protagonista. Nesse sentido, a exceção mais notável aconteceu entre 1953 e 1973, durante o funcionamento da Corporação da Moradia, que assumiu a necessária modernização do país e a redução do déficit habitacional com a construção de moradias a partir de diversos modelos.

Divulgação: Elemental
2 – O lote era um antigo rancho pertencente ao senhor Monroy, que alugava espaços para as pessoas construírem suas casas. Em menos de 15 anos a Quinta Monroy se transformou em um assentamento densamente habitado, até que, no começo dos anos 2000, recebeu o projeto de habitação e os moradores puderam continuar morando na área central da cidade
Cristobal Palma
3 – O conjunto foi entregue em 2004 com apenas metade de cada moradia construída. O pátio interno foi pensado para ser um espaço comum, de encontro entre moradores e de diversão para as crianças
Michael Quezada
4 – Os pátios se transformaram em estacionamento para os carros dos moradores – uma necessidade que não havia no início do projeto, mas que hoje em dia faz parte do dia a dia dos habitantes que usam o automóvel para trabalhar e ir à praia aos fins de semana

A implantação do modelo neoliberal durante a ditadura de Pinochet instalou a ideia da moradia como um bem de consumo e radicalizou a figura de um aparato estatal com atribuições limitadas no desenvolvimento urbano. Historicamente, a maioria das experiências locais confiou, com intensidades diferentes, na capacidade da própria comunidade para resolver o acesso dos mais pobres à moradia: desde os pioneiros industriais do início do século 20 que construíam casas para seus operários, amparados por estímulos fiscais, até os moradores que com suas mãos constroem sua casa própria em terrenos fornecidos com créditos preferenciais pela Operación Sitio a partir de 1965.

É nesta última experiência que a Quinta Monroy encontra um primeiro e fundamental antecedente. A Operación Sitio, idealizada no governo de Eduardo Frei Montalva como um plano de emergência para enfrentar as pressões sociais após o catastrófico inverno de 1965, sustentava-se na convicção de que, diante de um cenário de escassez extrema e da necessidade de massificar o acesso à habitação, era razoável substituir a entrega de casas pela de terrenos equipados e urbanizados a baixo custo, para deixar a construção nas mãos dos próprios habitantes.

Esta lógica apostava na redistribuição dos recursos disponíveis, para que chegassem a mais beneficiários, desestimulava a eficácia de moradias de respostas padronizadas e confiava na capacidade de cada família de dar solução a suas necessidades específicas, transferindo a elas uma parte importante das ações.

Ainda que o projeto do Elemental ofereça à família mais do que um terreno, ele compartilha a mudança de prioridades frente a situações extremas, ao substituir a moradia terminada como objetivo principal pela entrega de uma estrutura básica em um terreno bem localizado, capaz de engatilhar no tempo um círculo virtuoso de integração na cidade. A moradia social é, segundo esse olhar, um domicílio urbano e a porta de entrada da família a uma rede de oportunidades e de serviços que excede os limites da propriedade privada.

Outros vínculos situam a Quinta Monroy na trama histórica da moradia social no Chile. A configuração associativa entre unidades que o projeto do Elemental propõe tampouco é novidade: tem um parente direto na tipologia da “casa de altos”, forma de copropriedade adotada em cidades chilenas na primeira metade do século 20, normalmente uma construção unitária com dois acessos independentes para o piso superior e para o térreo (que podia ser uma moradia ou um comércio). Ao mesmo tempo, o projeto também se assemelha com as múltiplas versões de moradias progressivas – de fato, é parte do programa Vivienda Dinámica Sin Deuda, impulsionado pelo governo de Ricardo Lagos.

Mas se distancia de seus predecessores em pelo menos duas áreas de diferente alcance: por um lado, e a partir do projeto de arquitetura, instala a concepção da casa unifamiliar como componente de um edifício de maior escala e dimensão coletiva, que permite uma série de economias construtivas e de gestão; por outro, a partir do lado político, implementa mecanismos de desenho participativo que, provavelmente tributários da experiência de Eduardo Castillo Velasco na Villa La Reina (1965), dão ao destinatário do projeto direitos e deveres. Estas distinções dão conta do cruzamento entre uma vertente especulativa e estritamente disciplinar com um olhar mais pragmático, próprio de um “do tank”, como se apresenta Elemental.

Prestes a concluir 12 anos de sua entrega, as projeções sobre a ação dos habitantes na estrutura entregue se cumpriram cabalmente, e hoje a situação construída das moradias em Quinta Monroy se difere muito da imagem original. Tal como aconteceu no projeto dos Quartiers Modernes Fruges, desenhado por Le Corbusier para os operários de Pessac, a estrutura de plantas livres e coberturas-terraço provou ser um terreno fértil para sucessivas atuações dos habitantes. Nas moradias de Iquique, estas modificações aumentaram a superfície habitável dos 36 m² iniciais para a superfície máxima de 72 m² que permite a estrutura, e terminaram por definir a atual fisionomia do conjunto. A arquitetura do projeto assegurava certo controle sobre as volumetrias resultantes, ao entender as intervenções dos habitantes como recheios dentro de uma matriz já consolidada.

2015 (I)
Verenice Gallardo, 80 anos, chegou a Iquique da cidade de Osorno na década de 1980: o Norte do Chile parecia oferecer um melhor destino para ela e seus filhos. Tentou, sem resultados, alugar um espaço para morar com sua família, mas a baixa idade de seus filhos fazia dela uma candidata pouco atrativa no mercado de alugueis econômicos. Depois de algumas semanas, chegou aos terrenos do antigo rancho Monroy, um pequeno espaço agrícola que havia sido explorado pela cooperativa General Blanche, formada por um grupo de croatas que se exilaram depois do golpe militar de 1973. A partir desse momento, a propriedade ficou sob responsabilidade de seu administrador, a quem Verenice lembra como Sr. Monroy, “um bom homem que alugava espaços e vendia pequenas casas”. Sem considerar seus meios escassos e a família que carregava, o Sr. Monroy a aceitou como inquilina dentro do rancho, onde ele mesmo morou em condições iguais a de seus inquilinos até sua morte. Na busca de uma maneira de sobreviver, Monroy implementou um negócio imobiliário no limite da legalidade, e abriu o terreno a famílias necessitadas que, em troca de um pequeno aluguel mensal, podiam ocupar uma parcela dentro do rancho e construir ali suas casas, na medida de suas possibilidades e à margem de qualquer regulamentação urbana e dos serviços básicos de luz, água e esgoto.

O rancho se transformou no domicílio de uma comunidade diversa e vulnerável, que começou a multiplicar construções, buscou água potável e, pouco a pouco, formou redes de apoio que permitiram distribuir luz elétrica. Dos antigos cultivos não sobrou nada: em pouco menos de 15 anos, a Quinta Monroy se transformou em um assentamento densamente habitado por trabalhadores e suas famílias, construído com materiais tão leves quanto os que permitem o clima quente e seco da região. Nesse contexto, Verenice foi por 11 anos a presidenta do Comitê de Moradores Nueva Esperanza, e responsável por muitos avanços que fizeram possível com que, no final de década de 1990, o grupo comandado por Praxedes Campos iniciasse as ações legais para fazer valer seus direitos e serem reconhecidos como proprietários legítimos do lugar que fundaram e formaram. Logo veio o programa Chile Bairro, as conversas com o Ministério da Habitação e a entrada do Elemental no projeto.

Divulgação: Elemental
5 – O lote no centro da quadra foi dividido em quatro pátios, com as casas ao seu redor, mais duas linhas de casas de frente à rua. A superfície habitável entregue tinha 36 m², onde toda a infraestrutura estava incluída. Cada unidade poderia ter um máximo de 72 m² com as ampliações
Divulgação: Elemental
5 – O lote no centro da quadra foi dividido em quatro pátios, com as casas ao seu redor, mais duas linhas de casas de frente à rua. A superfície habitável entregue tinha 36 m², onde toda a infraestrutura estava incluída. Cada unidade poderia ter um máximo de 72 m² com as ampliações

A memória de Verenice, hoje avó de dois meninos que dividem o teto com ela em uma das casas desenhadas pelo Elemental, é generosa com essa etapa inicial da comunidade de Quinta Monroy. Aprecia os vínculos que o processo gerou entre os vizinhos, ao mesmo tempo em que lembra com orgulho das dificuldades e da forma com que conseguiram consolidar sua permanência no terreno. É ainda mais positiva sobre o processo de projeto desenvolvido em conjunto com os arquitetos. E se afasta das críticas que circulam em alguns meios especializados sobre a pertinência do projeto e sua capacidade de oferecer um espaço digno de moradia. Na verdade, não as entende. “Somos todos trabalhadores. Nos organizamos, fomos construindo pouco a pouco. Comparado à forma com que vivíamos antes, estávamos recebendo um palácio”, lembra Verenice sobre o término da construção e a mudança para as novas casas em 2004.

A necessidade de intervir na construção e de a terminar com seus próprios meios não pareceu a ela uma desvantagem, se isso lhes permitia continuar no mesmo bairro. Hoje não está em seus planos vender sua casa nem mudar-se. Reconhece que ter escolhido seus vizinhos, em seu caso, foi algo favorável – a correspondência entre redes sociais e a ocupação espacial do conjunto era um dos mecanismos de participação implementados pelo Elemental -, mas reconhece que essa forma de organização foi desvantajosa para outra parte da comunidade. “Há pátios em que alguns grupos tiveram mais dificuldade para se organizar”, afirma.

2015 (II)
Ao revisar retrospectivamente sua experiência como arquiteto coordenador no terreno no Elemental, Tomás Cortese confirma o que, em 2002, era para ele uma intuição: o ponto-chave do êxito do projeto foi o estabelecimento de mecanismos com os quais os moradores participaram do processo de desenho. À distância também lhe permite ver algumas dimensões mais críticas desses processos de participação e, como Verenice, hoje também acredita que ter estimulado uma diversidade maior na confirmação dos grupos que ocupam cada um dos quatro pátios teria ajudado a distribuir de maneira mais equitativa forças e lideranças. Hoje o desenvolvimento das comunidades nos pátios é desigual, e em parte responde aos níveis de homogeneidade entre seus ocupantes, agrupados espontaneamente por afinidades culturais.

Atualmente dedicado a dirigir uma fundação que promove a inovação social, Cortese esteve a cargo do trabalho no terreno com a comunidade por cerca de dois anos, incluindo o tempo que durou a construção. Implementou e, em alguns momentos, desenhou oficinas com as famílias, orientadas a levantar dados para a definição da arquitetura do projeto e a familiarizar os moradores com as circunstâncias da construção e com as características técnicas das novas moradias, sobre as quais teriam logo que intervir.

O estabelecimento de uma relação de confiança com os arquitetos foi uma consequência desse trabalho, e essa confiança permitiu passar com êxito pelo desalojamento do terreno no início das obras, e a relocação de uma parte importante da comunidade em um acampamento temporário no deserto, onde moraram durante o último ano de trabalho. Visitas periódicas ao canteiro de obras para verificar os avanços e o estabelecimento de um protocolo para vincular as unidades a diferentes famílias segundo sua conformação fizeram parte das atividades participativas.

Michael Quezada
6 – Nas linhas de casas que faceiam a rua os moradores instalaram portões, replicando decisões adotadas em outras partes da cidade
Michael Quezada
7 – Os moradores de cada pátio foram selecionados de acordo com as redes sociais já formadas – mas os arquitetos reconhecem que estimular a diversidade na conformação dos grupos ajudaria a distribuir forças e lideranças

Ainda que se tratasse, em sua maioria, de um grupo produtivamente ativo, com crianças frequentando escolas, a realidade cotidiana dos moradores de Quinta Monroy antes de 2004 tinha situações extremas em termos de qualidade de vida. A habilitação social tinha a ver com isso: segundo Cortese, tratava-se de preparar as pessoas para entrar em um sistema onde teriam, talvez pela primeira vez, um endereço postal depois de morarem em um espaço em que provavelmente “não se pagavam impostos e muitas vezes tampouco se pagavam contas, sem claridade sobre a propriedade do solo. A Quinta Monroy original era impressionante como realidade construída. Através dos anos e com seu crescimento, muitas casas terminaram se unindo, resultando em estrutura de túneis”.

Dentro das regras dos programas de moradia vigentes, foram gerados espaços para definir, em conjunto com os moradores, o problema que teria de ser resolvido. “Esse é um passo muito importante que o projeto dá dentro das práticas habituais, e consistente com as propostas que Alejandro Aravena vinha fazendo no âmbito acadêmico. A formulação da pergunta correta era a chave, de maneira a não perder tempo ao resolver bem o problema errado.” Dessa forma, estabeleceu-se o sistema de agrupamento que combina casas de um e de dois pavimentos e que resultam em um bloco de três níveis, onde todas as unidades têm acesso direto da rua. Essa configuração provou oferecer uma distribuição ótima dentro do terreno, afastando-se da figura do bloco de habitação coletiva rejeitada pelos moradores. Eram casas unifamiliares empilhadas em uma estrutura unitária e contínua, que permitia compartilhar redes e diminuir os perímetros construídos.

Mas essa estrutura, literalmente solidária e construída dentro de margens bem ajustadas, coloca hoje um dos pontos críticos para a evolução do projeto: unidades que funcionam com relativa autonomia em seu uso, mas que estruturalmente mantêm compromissos importantes, onde a modificação de uma unidade afeta todo o edifício.

A necessidade de monitoramento constante sobre as intervenções de cada morador, que deveriam se realizar ajustadas a um protocolo estabelecido por calculistas e arquitetos para resguardar a integridade estrutural do conjunto, sugerem a conveniência de haver comitês de administração, associados a alguma instituição capaz de fazer fiscalizações.

Naturalmente, em um contexto social como o da Quinta Monroy, as crescentes necessidades dos moradores e um esquema que favorece a individualidade de cada moradia sobre os âmbitos comuns impulsionaram, em alguns casos, ampliações que excedem a capacidade estrutural do projeto, e cujo controle depende, hoje, dos próprios vizinhos.

2015 (III)
Terminam as férias e as visitas aos amigos. Praxedes Campos volta à sua casa na rua Galvarino, em Iquique, no mesmo bairro em que chegou na década de 1990, no terreno da antiga quinta Monroy. Ali perto está a praia de Cavancha, um novo complexo de cinemas e centros comerciais. Muitos de seus vizinhos são parte das 93 famílias que decidiram fazer parte da consolidação daquela ocupação – outros tantos mudaram-se para outras cidades e alugaram as casas, principalmente para imigrantes peruanos, bolivianos e colombianos. Os filhos dos pioneiros cresceram, alguns tiveram filhos e muitos permaneceram com seus pais.

Depois de 12 anos, ainda há unidades que não começaram as obras de ampliação. Mas é minoria: a maioria das casas transborda os espaços previstos pelo projeto. Onde, sim, há um tema pendente e generalizado é a habilitação do espaço comum dos pátios, originalmente pensados como lugar de encontro e de brincadeiras, mas que foram invadidos pela recente necessidade de estacionar automóveis: ao melhorar as condições de vida, também mudam as demandas e aparecem variáveis não previstas que, como os estacionamentos, definem agora os espaços abertos do conjunto. A escassez de água nessa parte do país tampouco facilita a manutenção de árvores ou plantas em hipotéticos jardins.

Michael Quezada
8 – Na vista aérea de um dos pátios é possível ver as maneiras com que os moradores se apropriaram do espaço, muitas vezes crescendo sua unidade mais do que o projeto original permitia – o que reforça a necessidade de haver associações de moradores que assegurem o crescimento das unidades dentro de um protocolo
Michael Quezada
9 – Verenice Gallardo chegou a Iquique nos anos de 1980 e o Sr. Monroy lhe alugou um espaço na quinta para construir sua casa. Hoje mora com os netos em uma das casas da Quinta Monroy

“Cada um vive a sua maneira”, diz Praxedes sobre a dificuldade de implementar acordos para abordar os espaços de vida em comum. O individualismo se instalou na cultura chilena contemporânea e tem sido um fator determinante nas dificuldades que tem enfrentado em conjunto com a implementação de ações coletivas. A essa perda de interesse pelo âmbito público soma- se a estrutura de largas jornadas de trabalho que os habitantes da Quinta enfrentam, e que reservam seus momentos de tempo livre para o descanso ou para melhorias em seu espaço privado. Como acontece com a maioria dos trabalhadores chilenos, há pouco espaço para intervir no que é comum.

Michael Quezada
10 – Praxedes Campos organizou um grupo de moradores no final dos anos de 1990 que iniciou as ações legais para que todos fossem reconhecidos como proprietários do terreno onde muitos moravam há mais de 30 anos

“Desde as cinco da manhã já estão trabalhando na feira, ou vão à mineração às quatro da manhã. Também há carregadores da zona franca, pedreiros, e todos têm sua boa casa, comida, contas pagas, é comum que tenham automóveis. São pessoas que levantam muito cedo para trabalhar e que chegam muito tarde. Sábado e domingo vão à praia, levam suas caminhonetes carregadas com coisas e passam o fim de semana passeando.” É uma comunidade de trabalhadores que usa sua casa mais como um dormitório.

Praxedes é uma comprometida defensora do projeto. Para ela, é uma batalha vencida contra a adversidade. Está orgulhosa da qualidade sísmica da estrutura, que resistiu com êxito aos terremotos de 2005 e de 2014, sem deixar “nenhum vidro quebrado”. Uma parte da comunidade ainda a considera sua dirigente, apesar de que, a rigor, não se conseguiu formar uma associação nem um líder formal. E é ela a encarregada de receber os arquitetos que, desde a inauguração e vindos de todas as partes do mundo, aparecem toda semana pela Quinta Monroy para conhecer mais sobre a evolução do projeto que foi capaz de trazer de volta a moradia social ao debate arquitetônico chileno.

IMAGENS
1 OnArchitecture (onarchitecture.com) 2/5 divulgação Elemental 3 Cristobal Palma 4/6/7/8/9/10 Michael Quezada

PATRICIO MARDONES HICHE é professor na Universidade Católica do Chile e na Universidade Andrés Bello, e é arquiteto-associado de Cecilia Puga. É editor independente – em 2016, deve lançar um projeto digital sobre vanguardas arquitetônicas do pós-guerra na Europa