Com pedra sabão e muxarabi metálico, Gustavo Penna inaugura Museu de Congonhas em Minas Gerais

“Todo escritor começa barroco e busca não a simplicidade, que é desimportante, mas sim uma contida e modesta complexidade.” Com essa frase de Graciliano Ramos, pode-se explicar muito da procura arquitetônica que Gustavo Penna vem refinando nos 40 anos de atuação de seu escritório. Com linhas contidas, reverência ao passado e ideais contemporâneos, Gustavo Penna propõe um museu em Congonhas, Minas Gerais, para reverenciar outro museu, a céu aberto, idealizado por Aleijadinho: o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. O conjunto com seis capelas, um adro com esculturas em pedra sabão e a igreja no topo do morro Maranhão foi construído em meados do século 17 e hoje é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Mundial.

A história de Gustavo com a preservação e restauro de monumentos é antiga. Ainda jovem, fez estágio no Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, na mesma época em que Lucio Costa trabalhava lá. Sobre isso, ele conta uma anedota: “Eu sempre passava em frente a sua sala e o via sentado, com seu bigode. Uma vez ele me chamou pelo nome – ‘Gustavo, vem cá’. – meu coração quase saiu pela boca. Ele então me mostrou a fazenda do Rio São João, me apontando os detalhes da construção, as pedras, as janelas em ritmo, o torreão, o avarandado.” Hoje essa fazenda, também tombada pelo Iphan, foi completamente restaurada pelos atuais donos, mas, infelizmente, não está aberta à visitação.

O processo de projeto do Museu de Congonhas começou em 2005, em um concurso fechado conduzido pelo Iphan em conjunto com a Unesco Brasil, que pediu aos escritórios participantes o projeto de um local, em um terreno contíguo ao conjunto de Bom Jesus de Matosinhos, onde se pudesse instalar um museu e um centro de pesquisas e referência. A proposta do escritório de Gustavo Penna foi vencedora. Depois, seguiu-se um árduo período de dez anos até que se concluíssem as obras da primeira parte do museu, inaugurado em dezembro de 2015.

A demora se deu por vários fatores, além dos políticos e financeiros. Afinal, não é fácil conciliar tantas demandas, dos órgãos do patrimônio, da governança municipal e estadual e da igreja, que é proprietária do lote onde deverá ser construída a segunda parte do museu. “Esse projeto não é de Deus, é coisa do capeta.” Comentários como esse surgiram de senhoras indignadas em reuniões de apresentação do projeto à comunidade de Congonhas. “A população da cidade foi bastante reativa no começo, precisamos explicar quais eram os benefícios reais para que aos poucos começassem a gostar do projeto”, diz o arquiteto. “O nosso objetivo foi sempre aumentar a apreciação e a compreensão da população e dos turistas a respeito do monumento existente”, explica Gustavo.

No edifício que foi inaugurado temos uma versão reduzida da área de exposição e pesquisa originais, com três andares e 3.500 m² de área construída total. A maior preciosidade exposta são os 342 ex-votos da coleção particular de Márcia de Moura Castro. Os ex-votos são pinturas, recados e esculturas feitos para agradecer ao santo alguma graça alcançada. Colecionados ao longo de anos, oferecem um panorama claro da dimensão do sagrado e da devoção, além de serem testemunhas da produção de artistas e de artesãos de diversas épocas, e uma grande vitrine para a arte popular religiosa.

Foi inaugurado no mesmo edifício o Centro de Referência ao Barroco Brasileiro, uma biblioteca com acervo construído por mais de 40 anos sobre arte barroca e, principalmente, sobre Aleijadinho. O ateliê de Estudos da Pedra ocupou o subsolo da construção, e deve se tornar um local para aprofundar as pesquisas de conservação dos monumentos em pedra sabão. Junto à fachada que dá para a rua há um café, um restaurante e o acesso de automóveis.

Para mimetizar-se com o entorno, o projeto manteve a proporção e o ritmo das construções barrocas e do casario colonial. O quartzito, pedra da região, foi utilizado para arrematar a parte inferior do edifício, e revestiu as arcadas que tocam o chão. A pedra sabão foi utilizada nas bordas, vergas e no coroamento da construção. “Para a pintura branca, utilizamos uma tinta mineral que se parece muito com a cal, harmonizando com as construções existentes”, explica Gustavo. Toda a grande fachada curva, voltada ao poente, recebeu uma pele metálica de chapa perfurada, remetendo aos antigos muxarabis.

Um pequeno anfiteatro ao ar livre descortina a paisagem de morros do entorno e serve como promotor de debates culturais e de shows. Este é o local onde está prevista a reprodução do adro da Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, com a relocação dos 12 profetas de pedra sabão, as obras-primas de Aleijadinho que são, como afirmou Oswald de Andrade, “uma bíblia escrita em pedra, banhada com o ouro das minas”.

A retirada dos profetas originais da escadaria em frente à igreja para acomodá-los dentro do museu é uma discussão que, como o projeto original, não está encerrada. Existem muitos argumentos em variadas direções, mas os órgãos de preservação do patrimônio acreditam que a única maneira de controlar a deterioração das peças originais é em um ambiente fechado. Além disso, sua relocação pode conduzir a um estudo mais aprofundado das peças. A ideia dos arquitetos é construir uma reprodução fiel do adro dentro do museu, em um cilindro completamente encerrado, com recurso de luz e som que poderiam elevar muito a compreensão das obras, tanto por devotos quanto por turistas ou estudantes. Como contrapartida para a cidade, e para não acarretar em nenhum prejuízo para o conjunto de edificações e esculturas de Matosinhos, todos os profetas seriam substituídos por réplicas idênticas em pedra sabão.

A primeira fase do museu foi concluída. “Apesar de contemporâneo, o edifício do museu é gentil e reverente com o entorno, não se destaca ou sobressai, mantém uma relação de respeito criativo”, diz Gustavo. Não se sabe, ainda, se o museu de Congonhas será concluído em sua completude. De qualquer maneira, Minas recebeu mais um marco importante de pesquisa, informação e conhecimento sobre sua história e sua cultura, que se mistura com a história de um dos maiores artistas da América Latina.

OPEN AIR MUSEUM
With contained lines, in honor to the past and contemporary ideas, Gustavo Penna has proposed a museum in Congonhas, Minas Gerais, to honor another open air museum idealized by Aleijadinho: the Sanctuary of Bom Jesus de Matosinhos. The process for the Congonhas Museum project began in 2005, in selective tendering conducted by Iphan in conjunction with Unesco in Brazil, which requested the firms to design a location, on grounds adjoining the Bom Jesus de Matosinhos complex, where a museum and a research and reference center could be installed. The proposal from the Gustavo Penna firm was the winner. Afterwards, 10 years rolled on until the works would be completed on the first part of the museum, inaugurated in December 2015. In the inaugurated building construction, we have a reduced version of the original exhibition and research areas, with three floors and 3,500 m² of construction area. The Brazilian Baroque Reference Center was inaugurated in the same building. The Rock Studies atelier occupied the basement of the construction. Next to the facade facing the street, there is a café, a restaurant and automobile access. To imitate the surroundings, the design maintained the proportion and the rhythm of baroque constructions and of colonial row houses. Quartzite, the regional rock, was used to cap off the lower part of the building construction, and line the arches that touch the ground. Soapstone was used on the borders, lintels and crown of the construction. The large curved facade, facing west, received a perforated steel metal skin, remitting to the old Mashrabiya lattice screens.

POR URSULA TRONCOSO FOTOS LEONARDO FINOTTI