Washington Fajardo fala sobre a presença brasileira na Bienal de Veneza, a necessidade de renovar os centros urbanos e as mudanças no Rio de Janeiro

A exposição brasileira na Bienal de Veneza está nas mãos de Washington Fajardo, escolhido curador do pavilhão do Brasil para este ano de 2016. Para mostrar uma produção brasileira que responda à proposta feita por Alejandro Aravena, diretor desta bienal, Fajardo quer falar da construção coletiva, em que uma comunidade ou um ativista busca soluções por meio da arquitetura – e aí entra o arquiteto. “O incômodo maior é mostrar que existe um esforço da sociedade em projetar e construir a esfera pública”, nos conta na entrevista, comparando esse esforço com a falta de relevância que o poder público tem colocado na disciplina. “Nesse sentido é uma mostra política, com projetos feitos com muito esforço e tempo, e todos acreditam na arquitetura.”

Formado em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Washington Fajardo é assessor especial do prefeito do Rio, Eduardo Paes, para assuntos relacionados a urbanismo, e preside o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. O arquiteto, que atua desde 2009 na administração municipal, também já foi subsecretário de Patrimônio Cultural, Intervenção Urbana, Arquitetura e Design, e é autor da concepção arquitetônica das Arenas Cariocas, programa da prefeitura que leva cultura e entretenimento para regiões periféricas da cidade. Toda essa experiência o faz pensar na posição do arquiteto dentro do poder público. “Se a gente olha para nossos heróis que todos sempre lembram e elogiam, boa parte era servidor público. É importante que a gente lembre que existe um design preliminar de concepção dentro da esfera pública, ou parece que aquele edifício é apenas o resultado da genialidade de um projetista. Veja a Arena do Futuro: a concepção da solução de um edifício nômade que vai virar outras coisas é uma concepção pública”, pontua.

Durante toda a entrevista, Fajardo nos lembra do papel do arquiteto na construção das cidades, e na busca por novas oportunidades que se delineiam – como a urgência de encontrar soluções para os centros urbanos ou a produção de espaços para demandas da sociedade.

Alejandro Aravena (Pritzker 2016 e diretor desta Bienal de Veneza, da qual você foi eleito curador do pavilhão brasileiro) nos disse (AU 259) que “há uma distância entre os problemas de que se ocupam os arquitetos, que em geral são problemas que só importam a outros arquitetos, e a sociedade que já não sabe o que pedir à arquitetura”. Como você vê esse distanciamento entre arquiteto e sociedade ao trabalhar com o patrimônio histórico no Rio?
Esse distanciamento é um legado invertido da modernidade. Porque na modernidade, à medida que o objeto arquitetônico ganha autonomia em relação ao território, o arquiteto deixa de tocar o chão. O ápice desse fenômeno é a chamada starchitecture, a arquitetura do espetáculo. É algo que no meu trabalho eu critico muito e procuro sempre chamar a atenção: o modo de pensar moderno extrapola a atuação dos arquitetos, o campo da arquitetura, e impacta em todos os outros setores.

De que maneira?
Todo mundo quer arquiteto e arquitetura, mas ninguém quer ter projeto, ter planejamento e lidar com o tempo de fazer as coisas. Veja os debates em São Paulo sobre a possibilidade de uma grande metrópole fazer o resgate da escala humana, veja a ojeriza à ciclovia. Ou no Rio de Janeiro com o questionamento de tirar a Perimetral, e urbanistas contrários a isso. O modo de pensar moderno está arraigado na sociedade contemporânea e virou, por causa de Brasília, um capital político. Os discursos políticos ainda estão impregnados de modernidade, da ideia da grande obra transformadora e solução de todos os problemas. A infraestrutura é, sim, necessária, mas há gente que deposita todas as esperanças nas grandes soluções salvadoras da pátria, nesse sebastianismo de que a obra resolve, ou da grande solução econômica como foi o pré-sal. Por outro lado, a cidade granular oferece respostas para os desafios da sociedade. Composta de pequenos edifícios, de calçadas e de praças que já temos, possui uma trama econômica de pequenas e médias empresas que empregam, dão vida à cidade e sentido ao espaço público. Essa cidade oferece a possibilidade de criar lugares e de ser ocupada, dá solução à moradia. São os centros urbanos brasileiros. O Rio de Janeiro hoje está em uma posição vantajosa porque oferece uma nova monumentalidade para o centro histórico e, ao mesmo tempo, oferece nova infraestrutura. No entanto, é preciso que os arquitetos tenham interesse pelo papel e pela incumbência de cuidar da cidade que existe. O mercado imobiliário não sabe recuperar edifícios, isso não desperta seu interesse. É preciso fazer com que as pessoas tenham mais interesse pelos centros urbanos e, consequentemente, que comecem a pensar “por que não estou vivendo aqui?”. Para isso, precisamos de políticas públicas urbanas mais sofisticadas e sistêmicas. Por exemplo, como destravar os imóveis históricos com problemas de documentação, os imóveis que ficam abandonados… Esse é um campo profissional que chamo de agenciamento urbano: cuidar da cidade que existe. É olhar para a cidade tradicional, para o design histórico e pensar: como a história produziu um conhecimento de design sobre si própria e oferece soluções para a gente hoje?

Quais são as soluções que vocês têm buscado para o Centro do Rio?
Sempre me incomodou o fato de só restaurar o edifício que será um espaço cultural, um teatro, um museu. E o comércio? E o sobrado com moradia? A gente precisa olhar para a cidade granular e cuidar dessa cidade de milhares de edifícios comuns. No Rio, conseguimos duas inovações: uma foi fazer com que a operação urbana consorciada do Porto Maravilha destinasse, por lei, 3% dos recursos para a recuperação de patrimônio material e imaterial. Com isso, fizemos uma vinculação direta entre o desenvolvimento novo e o resgate histórico. Recuperamos áreas e patrimônios, e fomentamos o resgate de tradições locais, de patrimônio imaterial. A outra inovação foi criar o Pro-Apac, onde destinamos recursos públicos para a restauração de imóveis privados. É uma ação de fomento direto: nós fazemos uma seleção de projetos e apoiamos a recuperação desses bens. São 33 imóveis já aprovados, sobrados do século 19, edifícios de tipologia comum que temos no Centro e que têm dificuldade de serem recuperados. A prefeitura paga uma parte da restauração diretamente. Não é empréstimo nem financiamento, é recurso destinado, fundo perdido com faixas de valor de até 400 mil reais. Não acredito nas grandes soluções únicas, mas em uma miríade de soluções. As outras são o IPTU progressivo, a utilização compulsória de imóveis nos centros históricos. Hoje um imóvel em qualquer cidade brasileira na região central pode ficar vazio por décadas. É uma área saborosa de atuação profissional, complexa, desafiadora, que oferece um retorno para a sociedade. Entretanto, por causa dessa nossa fase heroica do modernismo, sinto que muitas vezes os colegas estão em busca do pote de ouro da arquitetura. Do ponto de vista de empreendedorismo, não veem a possibilidade que existe de reabilitar imóveis.

De que forma os arquitetos poderiam assumir essas questões?
Com a tendência dos coletivos, do coworking, do trabalho conjunto, eu penso: e se os arquitetos se reunissem e começassem a recuperar imóveis? É claro que são necessários apoios dentro dos governos, mas existe um campo de trabalho rico. Ficar só aguardando o grande projeto salvador da pátria, essa solução única para sua prática profissional, é como acreditar no Dom Sebastião que não vai chegar. O trabalho do arquiteto é de maratonista, não é de corredor de 100 m rasos. Os arquitetos deveriam se deparar com desafios mais complexos, talvez mais duros, mas que são interessantes e instigadores.

Como você vê essa questão na hora de montar a participação brasileira na Bienal de Veneza?
Estou interessado em três vertentes: a articulação do tempo da arquitetura que surge lentamente ou de uma arquitetura que é conquistada; dos centros urbanos; e da força do bem cultural como um campo capaz de unir a sociedade e de produzir um amálgama amoroso. Quero falar a partir desses três vieses sobre pessoas e ativistas dedicados ao campo da cultura e que reconhecem na arquitetura uma contribuição. Em muitos casos, esses ativistas são também arquitetos, em outros, não. Mas sempre existe uma confluência de esforços de proximidades, um certo irmanamento com o objetivo de produzir arquitetura. Também me chama atenção a presença, nos centros históricos, da resistência das manifestações vinculadas à cultura negra. Entendo que essa luta se dá na esfera privada, como ter acesso às instituições, ao trabalho, à educação. O que seria isso no espaço público? A partir disso, vejo alguns recortes e cruzamentos que aparecem como pontos luminosos… A Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia, que é um patrimônio de arquitetura onírica, com o senhor Joaquim Gabriel dos Santos que tem um sonho e passa a vida inteira construindo essa casa. A gente sabe de vários exemplos de arquiteturas oníricas no mundo. São Paulo tem o Gaudí de Paraisópolis… Isso é uma alegoria dessa necessidade de arquitetura. A gente tem uma necessidade de abrigo que é quase espiritual, uma necessidade mítica de arquitetura. O trabalho da Lina, a casa do Jardim dos Cristais, no centro histórico de Salvador… Estou citando alguns desses pontos luminosos, mas a mostra não vai ser histórica. Quero mostrar arquitetos que estão percebendo outras oportunidades.

Os projetos já foram selecionados?
Sim, mas vamos mostrá-los não pela perspectiva dos arquitetos. Quero mostrar o Jardim Edite junto com o MMBB, H+F e junto com a Bete França. Da mesma maneira, ao falar da Casa do Jongo, não é só o Rua Arquitetos, mas a Dione Boy, que é ativista cultural. O trabalho da Escola Mangue é com O Norte e o grupo da comunidade que lutou por aquele espaço. O projeto da casa na Vila Matilde, do Terra e Tuma Arquitetos, é o projeto, mas é também a Dona Dalva, que foi recorrer aos arquitetos. Do mesmo modo que é o Mauro Quintanilha aqui na favela do Vidigal, junto com o Pedro Henrique e a Caroline de Cristo, da +D Stúdio ao fazer o parque Sitiê. São essas articulações. O caso da Vila das Flores, em Porto Alegre, com o Goma Oficina.

E se os arquitetos se reunissem e começassem a recuperar imóveis? É claro que são necessários apoios dentro dos governos, mas existe um campo de trabalho rico. Ficar só aguardando o grande projeto salvador da pátria, é como acreditar no Dom Sebastião que não vai chegar

Teremos participações de todo o Brasil?
Há uma concentração no Rio, mas quero mostrar esse outro tipo de construção coletiva, que é lenta. No caso do Jongo, o edifício foi feito em um ano e meio, dois anos. Mas quanto tempo levou o trabalho da Dione em resgatar a memória do Jongo e reunir aquela comunidade? É um trabalho de 20 anos. A gente precisa falar sobre tempo, desconstruir esse raciocínio de que, por causa das nossas urgências, a gente precisa fazer tudo para ontem. Na verdade, temos que estabelecer planos e planejamentos e assumir compromissos com resultados, com metas. O incômodo maior é mostrar que existe um esforço da sociedade em projetar e construir a esfera pública. Entretanto, do ponto de vista público, existe um trabalho de destituição da relevância do planejamento e do projeto, além de licitações não consideradas como relevantes. Nesse sentido é uma mostra política, para mostrar que tudo isso foi feito com muito esforço e tempo, e todos os projetos acreditam na arquitetura.

Houve críticas ao Museu do Amanhã, que levantam a questão de apostar em um projeto de arquitetura assinado por um starchitect para recuperar uma área urbana, como um ultrapassado fenômeno Bilbao. Como você vê a escolha do Rio de apostar no Museu do Amanhã assinado pelo Calatrava para recuperar aquela área? 
Estive na primeira visita do Calatrava ao sítio. A Perimetral ainda estava lá, e ele entendeu a historicidade daquele entorno, o Mosteiro São Bento, a Ilha das Cobras, o porto, a praça Mauá como um espaço desequilibrado em relação à avenida Rio Branco. O Rio tinha perdido sua relação com a Baía de Guanabara. A gente só podia desfrutá-la caminhando no Cais Pharoux, onde fica hoje o restaurante Albamar, que são pouco mais de 200 m. Por outro lado, na Perimetral, você passava no seu carro com ar-condicionado, insulfilme, ouvindo uma bossa nova e apreciando a paisagem. Que raios de relação é essa com a Baía? A gente está falando de um museu dedicado a falar sobre essas relações e esse desconforto. É um edifício que surge, do ponto de vista museológico, para provocar uma reflexão individual e para que a gente olhe para a Baía de Guanabara e para os nossos hábitos e entender a construção individual de uma nova organização coletiva. Acho fantástico que isso seja espetacular. Não à toa são 100 mil visitantes em 17 dias.

Seria uma forma de chamar as pessoas? Seria necessário algo forte?
Assim que a praça Mauá abriu, o Museu do Amanhã ainda não estava aberto, e havia jovens da região pulando na Baía de Guanabara. Houve algumas reações de que isso seria uma desordem no espaço público. Se você olhar imagens do Augusto Malta, você vê cariocas no início do século 20 fazendo desafios de saltos ornamentais. Acho que esse projeto é um reencontro com a Baía, com esse ambiente, com o centro e com a história desse lugar. É, sim, uma nova monumentalidade. Isso é positivo porque tem uma dimensão pública, porque é uma praça, são museus… O ponto é que não basta somente isso. Você precisa ter a atuação da escala do cotidiano também. Tem que cuidar do centro, as calçadas precisam estar boas, confortáveis, tem que estar ordenado e bem iluminado, a gente tem que fazer com que esses edifícios abandonados passem a ter gente, a gente precisa de mais moradia no centro. É, sim, espetacular e global. É um edifício que se propõe a um diálogo nessa escala planetária porque é aí que está o desafio da mudança climática. Ele é coerente, e é óbvio que se apoia nessas outras experiências, o chamado fenômeno Bilbao. Entretanto, o que ele oferece nesse diálogo global é um assunto de desconforto. O que é o impacto da humanidade no planeta?

Você acha que o Rio está mais para Barcelona ou mais para Atenas, quando a gente pensa no legado e no aproveitamento de um evento para mudar a cidade urbanisticamente?
Está mais para Rio. Por tudo isso que eu falei sobre o centro. Vejo nesse centro novo o principal parque olímpico da cidade, que tinha até 1965 mais de 400 km de malhas de bonde, e a gente está resgatando essa mobilidade coerente com a morfologia do Centro. Temos 28 km de VLT para começar. Do ponto de vista de infraestrutura, é uma outra cidade. A melhoria no sistema de combate às enchentes, com o Centro de Operações, que monitora isso. A preocupação com a mudança de uso dos espaços olímpicos. Acho que as próximas Olimpíadas serão cada vez mais dessa maneira, com edifícios que são desmontáveis e depois usados para outras coisas. Esses resultados são uma nova cidade, entretanto é a mesma cidade. Os próximos desafios são de qualidade, de design sistêmico dessas soluções. Como faz para ampliar o VLT? Como a experiência do usuário pode ser cada vez melhor e mais confortável no transporte público? O que precisa para que surja mais moradia na região central? Já há uma série de ações sendo encaminhadas, a cidade está trabalhando para aprovar a legislação de IPTU progressivo. As próximas soluções serão mais complexas. E, consequentemente, temos de redesenhar a máquina pública. A gente não vai resolver a cidade que existe apenas com uma secretaria de planejamento urbano. É preciso ter outros tipos de organizações. Agências locais, onde você possa ter contribuição de arquitetos contratados para um projeto específico. É interessante ver esses modelos sendo bem-sucedidos em Melbourne, em Medellín, em que o núcleo duro é público, mas na ponta existem organizações mescladas, onde há servidores e profissionais contratados para um trabalho específico. Isso traz inovação para a máquina pública. Esses são os próximos desafios da cidade: redesenhar algumas das suas estruturas da administração, projetar a governança.