Rua Arquitetos projeta Sede do Campo Olímpico de Golfe no Rio de Janeiro

À sombra da polêmica ambiental que envolveu a escolha do sítio, jornais e revistas não perceberam a notável arquitetura que ali surgia. Comparada à imensidão da planície que a envolve, é comedida a dimensão da sede do campo de golfe das Olimpíadas do Rio de Janeiro. É a escala correta para uma edificação que se permite ser atravessada pela paisagem exuberante: não somente o vento a corta livremente, mas o olhar permanece desimpedido para admirar o gramado entremeado por pequenas dunas e circundado pelo manguezal que o separa da lagoa de Marapendi. O que vemos é uma espécie de miragem da Barra da Tijuca idealizada por Lucio Costa: a planície natural a perder de vista – é verdade que em um estado menos selvagem do que o imaginado pelo mestre – e um aglomerado de edifícios altos brotando ao longe nessa baixada.

A horizontalidade do edifício faz eco à paisagem. Um eixo linear nos encaminha da rua à sede social do Golfe Olímpico: um conjunto de baixos blocos com laje plana de concreto em meio aos quais se vê aflorar estruturas tensionadas que, lado a lado, abrem-se para cima.

A dupla Pedro Évora e Pedro Rivera, do escritório carioca Rua Arquitetos, foi selecionada em um concurso nacional realizado pelo IAB em 2012, com esta proposta que parte de uma praça de articulação dos diversos espaços necessários ao programa. Ou seja, o núcleo do edifício é um vazio, um quadrilátero com três lados delimitados por blocos térreos e o outro lado francamente aberto ao campo de golfe. O elemento que nos faz identificar o perímetro da praça é o piso de madeira de reflorestamento, que se destaca do gramado. Observando a totalidade, a sede do golfe eleva-se cerca de 70 cm acima do solo. O deck de madeira da praça irradia por entre e ao redor dos blocos, fazendo com que os espaços de circulação não se assemelhem a corredores, mas a varandas.

Revendo e comparando as propostas apresentadas no concurso há quase quatro anos, o Rua Arquitetos obteve uma construção compacta. A compacidade aqui não resultou de um adensamento, mas do partido projetual do quadrângulo de confluência das partes edificadas, somado à virtude de compreender os interstícios como espaços ao ar livre, ou varandas – nada mais lógico, visto que a prática do golfe já é feita em campo aberto.

Por definição, praças são locais de convergência de pessoas. Para permitir que este núcleo da sede do Golfe Olímpico funcione como tal, essencial é a sombra. A praça criada é um ambiente aberto como todo o campo que o circunda, mas é especial ali ao proteger do inclemente sol do Rio ou das abruptas chuvas tropicais de verão. De fato, a solução arquitetônica tem algo do conhecimento tácito carioca, da inteligência da praia, do olhar para a função e o formato do guarda-sol: 14 pilares metálicos que se subdividem em um conjunto de perfis estruturais igualmente de metal, os quais dão forma a 14 pirâmides quadrangulares invertidas, idênticas e sob uma modulação de 10 m por 10 m.

Os leves planos dessa cobertura são membranas tensionadas – cabe lembrar que seu uso é tributário à expertise iniciada e desenvolvida pelo atual prêmio Pritzker, Frei Otto. Com uma técnica de preciso desenho e execução, o arquiteto alemão asseverou o potencial plástico desse tipo estrutural, o qual no projeto do Rua Arquitetos nos estimula a fazer associações com árvores e suas copas, pétalas de gigantes flores, guarda-sóis ou guarda-chuvas ao avesso. Por mais pueris, tais analogias incitam a compreender o motivo da forma: além de prover sombra, essa cobertura é uma sucessão de receptáculos da água da chuva, que passa pelos pilares metálicos ocos até um reservatório no subsolo para cerca de 500 m3 de água, a qual reaflora nos espelhos d’água que circundam a sede social do golfe.

A relação entre as estruturas da praça e dos blocos a sua volta é de visível contraposição e complementariedade. A cobertura metálica mais alta e leve relaciona-se com o peso dos pilares e das lajes de concreto mais baixas. A plasticidade do abrigo do núcleo convive com as formas mais austeras que o circundam. Enquanto o “teto” da praça remete a referências naturais ou a objetos mundanos (mas populares), os blocos contam com elementos que se notabilizaram no melhor da arquitetura brasileira moderna.

Perfis verticais de madeira estão no intermédio do brise soleil com o muxarabi. Dando origem a planos de fachada permeáveis, as delgadas e longas ripas de madeira são aparafusadas nas lajes do piso e do teto, tendo três tirantes metálicos cortando intermediariamente e dando estabilidade a essa estrutura. Com relação à materialidade, para além do concreto aparente dos pilares redondos e das lajes, são notáveis alguns pisos, bancadas e divisórias dos vestiários que lembram o granilite fulgê, tão presente em residências nacionais construídas entre as décadas de 1940 e 1960. Porém, essas placas cimentícias têm como agregado pedras grandes, dando uma estética singular a esses ambientes internos onde golfistas profissionais e amadores irão se arrumar para o jogo.

O programa é organizado de acordo com o ritual do jogador antes e depois da prática do golfe. Do estacionamento de veículos após o portão de entrada, a pessoa caminha para o eixo linear que se inicia na calçada da rua, conduzindo o pedestre até a praça. À direita, o visitante observa por entre os perfis de madeira a loja para onde se encaminhará. Além de comercializar equipamentos para a prática do golfe, a loja operará como uma espécie de check-in do complexo esportivo: visto que o local será público – uma concessão de 20 anos -, não haverá sócios, assim qualquer um pode agendar na loja o período em que estará em campo, a contratação ou não de um caddie (o acompanhante do jogador que carrega a bolsa com os tacos e demais materiais) e um carrinho elétrico para o deslocamento pelo gramado. Com o passe de jogo em mãos, as pessoas poderão ir aos já mencionados vestiários adjacentes e aos lockers (aposentos com armários para a guarda de pertences pessoais).

Retornando à praça, nela está o restaurante e o bar com mesas para os jogadores confraternizarem antes ou depois da partida, ou para os familiares e amigos aguardarem tendo franca vista para o campo de jogo. No lado oposto do quadrilátero, está um ambiente amplo e envidraçado destinado a eventos. Este salão para cerimônias fica na extremidade do longo bloco edificado paralelamente ao eixo de acesso. Sob a mesma laje plana contínua, estão salas administrativas. Entre elas, há um trecho distinto onde o plano de cobertura em concreto é perfurado modularmente em quadrados, e a plataforma do piso de madeira é recortada: pisamos na grama. Esse espaço opera como um pórtico de acesso e saída do campo, visto que ali é o trecho em que não há desnível entre o gramado e o edifício; é o caminho em que a sede social se une à área de campo. A dimensão do espaço não é grande, mas a cobertura, pela qual o sol passa para desenhar geometricamente a luz no solo, confere uma certa cerimônia: afinal, ao atravessar este ambiente, entra-se no jogo.

Como em todos os equipamentos olímpicos, os locais têm duas configurações: uma para o evento e outra para o chamado legado. Durante a Olimpíada, o edifício será destinado exclusivamente a atletas, suas equipes e familiares, além dos funcionários da organização do evento. Imprensa e público ficarão em instalações provisórias.

O que existe e não será atrapalhado pela estrutura do grande evento global é a presença da planície natural – o campo de jogo – em cada ângulo do interior da sede de golfe da Barra da Tijuca. A edificação não interrompe a paisagem, mas também não se mistura a ela. Essa boa arquitetura é a criação de um ambiente singular, um lugar, em meio ao gramado, às dunas e ao mangue. Cada decisão projetual – a praça, os espaços intersticiais, os blocos, as estruturas sejam de metal e película tênsil ou de concreto e madeira – origina-se de dois atos: destacar-se do solo e proteger-se do sol.