Com projeto de Vazio S/A antigo sótão de teatro se transforma em local de encontro, em Belo Horizonte

Em uma série de dar orgulho ao Eupalinos de Paul Valéry, Carlos Teixeira projetou plataformas dentro da subestrutura de edifícios medíocres em áreas de topografia acidentada, as famosas palafitas de concreto do bairro Buritis em Belo Horizonte. Denominadas Amnésias topográficas, as instalações de 2001 e 2004 foram suporte para peças de teatro que chamavam a atenção para esses vazios urbanos. Vazios que foram o cerne do primeiro livro do arquiteto em 1999 e que se desdobram nos Espaços colaterais, o segundo livro de 2008 – depois ainda viriam o Condomínio absoluto (2009) e Entre (2010).

Os livros e as experimentações em torno dos vazios urbanos são os precursores dessa instalação no sótão do Cine Brasil Vallourec. Inaugurado em 1932 na praça Sete de Setembro, a principal de Belo Horizonte, o edifício sóbrio de linhas decò foi restaurado pela siderúrgica Vallourec-Manesmann e reinaugurado em 2013. Situado em uma esquina de 45 graus tão típica do projeto original de Aarão Reis para Belo Horizonte, o edifício dispõe o grande teatro de 1 mil lugares aproveitando o ângulo agudo, com a tela/palco na esquina. Enquanto a entrada do público se dá por um luxuoso hall por detrás da tela, o acesso aos pavimentos superiores – incluindo o novo terraço/salão de festas de 900 m² – se faz pelo fundo do edifício, no que seria a base do triângulo.

O novo pavimento do terraço/ salão de festas foi situado acima do antigo telhado cerâmico que cobria a plateia do teatro, então apoiado por tesouras de concreto armado. Em mais uma idiossincrasia dos órgãos de patrimônio, o telhado cerâmico foi suprimido na reforma, mas restaram as tesouras, perdidas debaixo do novo pavimento que carrega o salão de festas e que, por sua vez, apoia-se em treliças metálicas pintadas de branco, como que para marcar sua presença em detrimento do cinza do concreto octagenário. O resultado: o espaço do antigo sótão ficou visível, mas abandonado, entre um salão de festas acima e duas galerias apertadas nas laterais.

As galerias ficam exatamente acima da lateral do teatro onde estão os balcões e camarotes. Antigamente, esses espaços funcionavam como escritório e escondiam o telhado cerâmico que cobria o vão principal do teatro. Desde que a Vallourec Mannesman restaurou o edifício, as galerias estão sendo utilizadas para exposições de arte como parte da programação do complexo cultural, sem muito sucesso justamente pela exiguidade do espaço e pela dificuldade do acesso.

Sempre atento aos vazios, Carlos Teixeira inseriu embaixo das tesouras de concreto uma série de plataformas de compensado que permitem a ocupação desse espaço antes inacessível, e que funcionam como uma continuação das galerias. Como mostra o desenho de planta da intervenção, a área antes desperdiçada embaixo das tesouras é mais que o dobro das duas galerias somadas.

Recuperadas para o uso (ainda que eventual), a nova área nos convida a entender as proporções do edifício original e seu telhado escalonado, enquanto as tesouras de concreto e os cabos de aço nos dão uma aula viva da ousadia estrutural do início dos anos de 1930. Uma tela de filó recupera o limite do que um dia foi o telhado e esconde, ainda que muito levemente, as grandes vigas metálicas brancas que hoje cruzam o espaço. Uma intervenção singela, retomando o tema das Amnésias topográficas, que chama atenção mais uma vez para nossos vazios desperdiçados.

THE VISIBILITY OF EMPTY SPACES
The experimentations around empty urban spaces conducted by Carlos Teixeira are the precursors of this installation in the loft of the Vallourec Brazil Cinema. Inaugurated in 1932, the sober deco lined building was restored by the Vallourec-Manesmann steel mill and reinaugurated in 2013. The remodeling added a floor to the building to house a terrace/party room, situated above the former ceramic roof that covered the theater audience, upheld then by reinforced concrete roofing beams. The ceramic roof was suppressed on remodeling, but the roofing beams remain, which are lost under the new floor slab upholding the party room. The result: the space of the old loft is visible, but abandoned, between a party room above and two tight galleries on the sides – utilized today for art shows, without much success precisely due to the scarcity of space and to difficult access. Ever alert to empty spaces, Carlos Teixeira inserted a series of offset platforms below the concrete roofing beams, which afford occupation of the formerly inaccessible loft, and that serves as a continuation of the gallery. The area below the roofing beams is more than twice the size of the two galleries put together. Restored for use (although occasional), the area invites us to understand the proportions of the original building and its staggered roof, while the concrete roofing beams and the steel cables give us a live class on structural daring from the early 1930s.

POR FERNANDO LUIZ LARA FOTOS GABRIEL CASTRO