Carlos Teixeira projeta casa com piscina suspensa em Moeda, MG

Um dos meus ensaios favoritos de teoria da arquitetura foi escrito em 1921 pelo poeta francês Paul Valéry. Eupalinos ou o arquiteto tem uma deliciosa tradução em português, de 1999, com prefácio do saudoso Joaquim Guedes. No texto de Valéry, Sócrates e Fedro se encontram após a morte, e o aristocrata Fedro pergunta ao mestre Sócrates o que ele gostaria de ter sido se não fosse filósofo. Sócrates responde que a única outra profissão a que teria se dedicado seria a de arquiteto, e começa a enaltecer as obras de Eupalinos de Megara, construtor que viveu no século 6 a.C.. Enquanto celebra Eupalinos, Sócrates explica que o arquiteto tem uma rara oportunidade de equilibrar o pensamento e a ação. Enquanto um filósofo é treinado a pensar, desconstruindo o conhecimento, o construtor é treinado a fazer. Aquele que apenas faz nunca tem tempo para pensar. E aquele que apenas pensa nunca tem tempo para fazer algo. O arquiteto é aquele que consegue alternar doses igualmente intensas do fazer e do pensar, o que segundo o Sócrates de Paul Valéry seria a mais nobre das profissões.

Dentre todos os arquitetos brasileiros desse início de século 21, Carlos Teixeira é o que melhor incorpora o desafio colocado por Valéry. Teixeira seria nosso Eupalinos do cerrado. Em 25 anos de atividade profissional, tem no currículo uma série de instalações premiadas e construídas nos melhores museus do mundo, quatro livros, dezenas de textos provocativos e obras sempre surpreendentes com densas experiências de espacialidade e materialidade.

Entre as instalações premiadas recentemente estão a Spiral booth no Victoria and Albert Museum de Londres (2009) e O outro o mesmo na 29a Bienal de São Paulo (2010). Entre os edifícios premiados estão a Casa Vila Del Rey (2000) e os multifamiliares Montevideo (2011, AU 205) e VDA (2010, AU 258).

O projeto da Casa do Cerrado certamente se encaixa nessa sequência premiada. Localizada no município de Moeda, a casa se situa no alto de uma colina onde o material ferrífero do quadrilátero de mesmo nome está tão aflorado que só crescem ali gramíneas e arbustos retorcidos, um ecossistema típico dos morros carecas de Minas Gerais.

A piscina que domina a espacialidade de toda a casa é apoiada sobre esbeltos pilares e paredes de concreto, permitindo que a casa exista embaixo dela. Colocada 6 m acima do terreno natural, a piscina é acessada por uma generosa escada que ocupa todo o quadrante sudeste da casa. O tema da ascensão como architectural promenade já havia sido tratado antes na Spiral booth montada no Victoria and Albert Museum. Tudo convida a subir, a casa inteira existe nessa dicotomia entre o abrigo protegido abaixo e o desejo de ascensão ao cume da casa e do morro.

Encaixados na escada, logo abaixo da piscina, estão dois quartos que perfazem a parte íntima do projeto. Um pavimento abaixo está a área social (grande parte dela com pé-direito duplo) e um terceiro e maior quarto. Nas faces Norte e Oeste, os extensos painéis de vidro são protegidos por venezianas pivotantes que, quando abertas, permitem que a residência se integre totalmente com a paisagem intocada que a rodeia. A Casa do Cerrado é de uma simplicidade gritante. Um vazio gerado pela piscina elevada, protegido do sol e do vento pelas peles múltiplas da veneziana e do vidro, abriga as áreas comuns.

A generosidade das transparências, escadas e entradas convida o visitante a subir ao terraço-piscina. No percurso, os materiais vão se encaixando: concreto aparente, cimento queimado dos pisos, vidro, alumínio dos caixilhos, madeira dos decks e, de novo, a madeira das venezianas que os protege.

O concreto predomina e nele estão as marcas da mão de obra pouco qualificada que é a regra no Brasil. Mas como em projetos anteriores, Carlos Teixeira não esconde as imperfeições das formas, pelo contrário, as celebra. Contraposto às irregularidades do concreto aparente estão outros materiais cuja precisão e delicadeza lembram os encaixes do xará Carlo Scarpa no Castel Vechio de Verona. O encontro do concreto com o alumínio e com a madeira vai ditando as hierarquias e as prioridades do caminho. Dali se percebe a paisagem inteira do cerrado que dá nome ao edifício. Ali se percebe o vento, inclemente, que sopra forte no alto do morro. Vento que assobia quando bate nas venezianas e faz tremer os vidros. Vento que é o vazio em movimento. Vazio que tanto inspira o pensar e o fazer de Carlos Teixeira.

EUPALINUS ON THE SAVANNA
The Savanna House (Casa do Cerrado), located in the city of Moeda, is situated at the top of a hill where the ferriferous four-side material from the same name is so abounding that only grass and twisted bushes grow there, which is a typical ecosystem of the bald hillsides in Minas Gerais. The swimming pool that dominates the spatiality of the entire house is stretched out upon slender concrete pillars and walls, allowing the house to exist underneath. Set 6 m above the natural grounds, the pool is accessed by a generous staircase that spans the entire southeast quadrant of the house. Set into the staircase, just below the pool, are two bedrooms that make up the private area of the design. One floor below is the social area (mostly under a double-high ceiling) and a third and larger bedroom. On the Northern and Western faces, the extensive glass panels are protected by pivoting shutters that, when open, allow the residence to become totally integratedwith the untouched surrounding scenery. The Savanna House is screaming simplicity. An empty space generated by the raised pool, protected from the sun and the wind by the multiple shutters and the glass. There one notices the inclement wind, which blows strongly at the top of the hillside. Wind, which is emptiness in movement. Wind which so inspires the thoughts and actions of Carlos Teixeira

POR FERNANDO LUIZ LARA FOTOS GABRIEL CASTRO