Arquitetos Associados projetam a galeria de fotos de Claudia Andujar em Inhotim

Aquele que talvez seja o texto de arquitetura mais citado das últimas décadas, o ensaio sobre o regionalismo crítico, de Kenneth Frampton, começa com uma citação de Paul Ricouer onde denuncia o desaparecimento de culturas tradicionais ameaçadas pela globalização ocidental.

Seria fácil aplicar a citação de Ricouer ao caso dos ianomamis, uma civilização ameaçada por todos os lados. Mas a realidade é bem mais complexa, assim como a própria definição etnocêntrica de regional. Como ideologia e sotaque, é sempre mais fácil ver regionalismo nos outros. Eu diria que a colisão entre a cultura ianomami e a cultura hegemônica brasileira é como um choque entre uma carreta e um fusca. Aos poucos, vamos percebendo a importante contribuição dos indígenas para os desafios brasileiros contemporâneos, ainda que aparentemente sejam visíveis apenas como arranhões no para-choque da carreta.

Uma dessas contribuições é a obra de Claudia Andujar. Nascida na Suíça, Claudia emigrou para os Estados Unidos fugindo dos nazistas e chegou ao Brasil nos anos de 1950. Trabalhando como fotógrafa da revista Realidade, conheceu os ianomamis em 1971 e dedicou o resto da vida aos indígenas da fronteira norte da Amazônia. A galeria que recebe sua obra em Inhotim celebra sua trajetória e coloca a causa ianomami no centro daquela que é hoje a mais importante coleção de arte contemporânea do hemisfério sul.

Mas não é apenas pela fotografia que os ianomamis impactaram o pensamento contemporâneo. A mais original contribuição brasileira à disciplina da antropologia é a teoria do perspectivismo ameríndio sintetizada por Eduardo Viveiros de Castro e Tania Stolze Lima no seu trabalho com os ianomamis. Por sobreviverem quase totalmente isolados até muito recentemente, os ianomamis nos oferecem uma rara janela para entendermos nosso continente antes da chegada dos europeus, africanos e seus descendentes. O perspectivismo ameríndio, aprendido com os ianomamis, mas aplicável a todos os povos originais das Américas, baseia-se em uma relação homem-natureza completamente diferente da forte separação que impera na cultura ocidental. Para eles, uma pedra é apenas uma pedra até que seja manipulada pelos seres humanos, ganhando humanidade no processo. Todos os objetos de formas de vida existentes têm então uma humanidade latente, ativada pelo contato conosco. Uma lição fundamental em tempos de extrema degradação ambiental e urgência climática.

Interessante notar que em Inhotim as galerias desenhadas pelos Arquitetos Associados estão fazendo exatamente isso: costurando uma relação possível entre a arte e a paisagem circundante onde antes havia somente ruptura. Nas primeiras galerias, não existe transição entre os espaços expositivos internos e o exuberante jardim externo. Começando pelo Centro Educativo Burle Marx, projeto de Alexandre Brasil e Paula Zasnicoff, em 2009 (AU 187), passando pela Cosmococa e a Galeria Miguel Rio Branco, ambos projetados pelos cinco associados em 2010 (AU 201), percebe-se uma forte intenção de trabalhar relações entre o dentro e o fora, entre a arte e a natureza, tanto no discurso dos arquitetos quanto no desenho efetivamente.

Localizada no alto de uma colina adjacente à galeria Miguel Rio Branco, chega-se à galeria Claudia Andujar por uma trilha no meio da mata, sem que o edifício se anuncie. Esse esconder-se foi parte do processo de criação desde o início, segundo os arquitetos. Preocupados em não transformar o promontório em um marco excessivamente visível em Inhotim, a estratégia foi dispor a obra de Claudia Andujar em quatro salas organizadas no mesmo pavimento, fazendo a relação com a mata circundante por frestas, molduras e janelas na composição. As quatro salas seguem o projeto curatorial que, em Inhotim, sempre vem junto com o projeto arquitetônico.

Se na galeria Miguel Rio Branco a relação entre os espaços fechados e a paisagem se dá de forma vertical, com um pavimento intermediário entre os dois espaços de exposição, na galeria Claudia Andujar, esta relação se dá de forma horizontal. A natureza se revela no pátio que articula a circulação entre as galerias, nas frestas sempre estreitas e verticais entre duas paredes, ou em janelas – este elemento tão banal usado aqui pela primeira vez numa galeria de Inhotim.

A organização em planta lembra a Cosmococa, salas fechadas dispostas em torno de um espaço de ligação interiorizado. Mas ao contrário do edifício que abriga a obra de Helio Oiticica e Neville de Almeida, a Galeria Claudia Andujar tem seus espaços internos descobertos. Chega-se por uma rampa adjacente à primeira galeria, fechada de ambos os lados pelas paredes de tijolo com textura de faixas verticais em alto relevo que foi utilizada em todas as superfícies externas. Nesta rampa de acesso, só a luz conecta o visitante com a mata que ficou para trás, sua presença agora abstraída pela pérgula de madeira e pelo ritmo de luz e sombra das paredes. Ao final da rampa, o visitante é forçado a dar uma volta de 180 graus em um pequeno hall de entrada, ainda ligado ao mundo apenas pela pérgula, já que uma outra parede esconde o pátio maior que está bem ali ao lado.

Dentro das galerias, uma gradação de cinza nas paredes (projeto museográfico de Fernando Maculan e Máximo Soalheiro) vai do mais claro na primeira sala ao mais escuro na última, se bem que o percurso não é assim tão marcado e o visitante pode percorrê-las em diferentes sequências. Mas um eixo longitudinal se apresenta assim que o visitante sai da primeira sala, e por ser esse eixo o acesso principal das outras três salas, ele acaba organizando toda a experiência e revelando os dois pátios: o maior e não acessível que deveria ser um resquício de mata (infelizmente cortado pelos responsáveis pela obra) e o menor que se materializa como um deck de madeira ligando o visitante à rampa de saída.

A madeira, inclusive, é parte integrante de uma estratégia muito bem-sucedida dos Arquitetos Associados. No contato direto com os operários de Inhotim (o instituto tem sua própria equipe construtora), os arquitetos foram aprendendo a tirar o máximo proveito das qualidades e a superar suas deficiências. A madeira usada nas pérgolas, deck, portas e bancos era parte de um gigantesco lote de dormentes comprados por Inhotim e desprezado até então por vários dos arquitetos, paisagistas e artistas que regularmente criam e dirigem obras no conjunto. Os Associados resolveram aproveitar a madeira, de espécies e cores diferentes, na obra da Galeria Claudia Andujar. Assim como o tijolo, cuja textura em alto relevo remete à sombra da mata circundante e por analogia ao território dos ianomamis, o contraste dos tons de madeira no piso e nas grandes portas também remete à variedade da floresta.

Outro elemento importante, comum a várias galerias de Inhotim, é o uso da parede dupla para permitir acesso e flexibilidade de montagem – fat wall, no jargão curatorial. Em algumas paredes, o espaço é acessível e em outras é apenas suficiente para as tubulações de elétrica, hidráulica e de ar-condicionado. No caso da galeria Claudia Andujar, as águas pluviais também descem por dentro destas paredes duplas e as gárgulas foram posicionadas ao nível do piso, no nível da base de pedra que apoia todo o conjunto.

O tijolo é a alma do edifício, como bem notaram os ianomamis presentes na inauguração, que deram à galeria o nome de Maxita Yano, ou casa de barro. O barro, aqui transformado pelo processo de cozimento industrial e assentado pelas mãos cuidadosas dos operários de Inhotim, ganha humanidade suficiente para ser o mediador entre a arte de Claudia Andujar e a natureza do parque. E, como o musgo que pouco a pouco vai cobrir os tijolos e mudar a face da galeria, o perspectivismo ameríndio vai pacientemente nos ensinando a construir outra relação com o espaço que habitamos.

MAXITA YANO, OR MUD HOUSE
Claudia Andujar, on working as a photographer for Realidade, magazine, came to meet the yanomami in 1971 and has dedicated the rest of her life to theseindigenous people in the north of the Amazon. The gallery receiving her work at Inhotim celebrates her journey. Located atop a hill, one comes to the Claudia Andujar gallery by trail in the middle of the forest, without any announcement of the edification. Anxious about not transforming the promontory into an excessively visible landmark at Inhotim, the strategy was to display Claudia Andujar’s work in four salons laid out on the same floor, making the relation with the surrounding forest by chinks, moldings and windows in the composition. The four salons follow the curatorial design, which, at Inhotim, comes along with an architectonic design. Nature is revealed on the patio that articulates the circulation between the galleries, in the ever narrow, vertical chinks between two walls, or in windows. One arrives by ramp adjacent to the first gallery, closed on both sides by brick walls with streaks of vertical high-relief texture that was used on all the external surfaces. On this access ramp, only the light connects the visitor with the forest left behind, for now its presence is abstracted by the wooden pergola and by the cadence of light and shadows on the walls. The wood used in the pergolas, deck, doors and benches was part of a gigantic lot of railway ties bought by Inhotim and scorned until then by a variety of the architects, landscapers and artists who regularly create and direct the works at the complex. Meanwhile the brick, in high-relief texture, remits to the shade of the surrounding forest and, by analogy,to the territory of the yanomami. The brick is the soul of the edification, as well noticed by the yanomami present at the inauguration, who have given the name Maxita Yano, or mud house to the gallery.