Arena do Futuro receberá jogos de handebol na Olimpíada e se transformará em quatro escolas públicas após os jogos, com projeto de Lopes Santos & Ferreira Gomes Arquitetos, Oficina de Arquitetos e Paulo Casé Planejamento

A Olimpíada dura cerca de 15 dias. Holofotes do mundo inteiro são lançados na cidade sede. Um mês depois, há certa sobrevida dessa animação com a Paraolimpíada. E logo acaba a festa. O palco desse mise-en-scène global precisa ser absorvido pelo cotidiano.

Se a cidade não incorporá-los, os equipamentos olímpicos se tornarão ruínas (vide Atenas). Quando a edificação perde a sua vitalidade, inevitavelmente geram-se resíduos: a obsolescência ou será da arquitetura como um todo, ou virá da desarticulação das partes convertidas em restos jogados ao relento, em um vagaroso processo de decomposição em algum canto do mundo. A segunda alternativa ao fracasso da arquitetura olímpica é fazê-la desaparecer; o que, a princípio, depende do nada pacífico (nem isento de custos) ato de demolir. Como dotar uma estrutura olímpica de uma razão de existência após a cerimônia de encerramento?

A estratégia para a Arena do Futuro, no Rio de Janeiro, é de programar totalmente o seu ciclo de vida. Monta-se um ginásio que abrigará as competições de handebol e golbol dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016. Findo os dois eventos, desmonta- -se o edifício. Nos meses seguintes, remonta-se, transfigurando-o em quatro escolas públicas municipais. Nobre e necessário destino para a tão questionável demanda estrutural do comitê olímpico: afinal, a aparente festa de todos os povos escancarou-se como o negócio e o lucro de alguns poucos, e um altíssimo custo para as populações locais. A sobriedade da estrutura da arena carioca retrata uma consciência crítica dessa conjuntura, opondo-se ao espetáculo formal gratuito tão latente nos ginásios e estádios das Olimpíadas da década passada.

A edificação está no final da ondulante alameda de pedestres do Parque Olímpico na Barra da Tijuca, também próxima à praça circular que encerra esse percurso principal e à margem da lagoa de Jacarepaguá. O ginásio de handebol está enfileirado com outros quatro palcos esportivos (o velódromo e um edifício alongado que abriga três quadras), dando origem a uma implantação em linha que organiza os fluxos de pessoas durante os dias do evento: do lado oeste está a área de uso do público, e do lado leste está o que a organização intitula como back of house, isto é, as áreas de chegada de atletas, organizadores e comitivas oficiais, trânsito das equipes de mídia, estacionamento para a infraestrutura operacional das partidas e equipamentos para as transmissões.

Externamente, a imagem é de um edifício composto por duas camadas contrastantes. No nível do rés do chão, podem-se ver as entranhas do edifício, a estrutura, as circulações, as paredes internas, o fundo das arquibancadas; quase tudo em tons cinza do concreto, do painel cimentício e do metal. Contudo, o que confere a forma prismática regular à Arena é a sua pele: uma miríade de delgados perfis – constituídos de pó de madeira amalgamados por um material polimérico, resultando numa cor terrosa – com espaçamento variável entre si, de acordo com a necessidade específica em cada trecho para filtrar os raios solares, de expelir o calor interno e de ventilação. Se os quatro planos desse invólucro originam um bloco retangular, a parte inferior de seu perímetro contém um desenho ziguezagueante. Por vezes, a membrana de finos brises se aproxima do solo, por outras, ela assume um contorno com linhas diagonais, ressaltando os acessos ao público e estabelecendo um diálogo gráfico com a paisagem que circunscreve a Barra, em especial com as silhuetas das montanhas do Parque da Pedra Branca e da Floresta da Tijuca.

A estrutura do edifício principia-se com 18 pilares de treliça metálica, os quais se ancoram em bases de concreto que partem das fundações e afloram do solo. A soma das cargas estruturais da cobertura, da pele – acrescida a todo seu arcabouço metálico de sustentação – e do perímetro superior das arquibancadas é transferida a esses 18 grandes pilares.

Passando a projeção do pardo invólucro no chão do Parque (isto é, adentrando de fato o edifício), espectadores e funcionários são encaminhados a uma das seis escadas metálicas, duas rampas ou sete elevadores para um andar a 4,72 m de altura. Este nível intermediário é chamado pelos autores de varanda, não fortuitamente uma nomenclatura que nos remete às casas grandes do período colonial no Brasil, com esse espaço coberto, porém externo às paredes da residência, com seu piso destacado do solo e agradável para o usufruto ao ar livre do clima tropical, tendo a vantagem de estar protegido das intempéries.

Também se pode presumir uma outra influência: o estádio do Maracanã, no que diz respeito à lógica de circulação com monumentais rampas dando acesso a dois anéis elevados que circundam as arquibancadas. Ambas as associações são válidas para compreender as virtudes dessa varanda da Arena do Futuro: um espaço de passagem cujo dimensionamento também o qualifica como local de estar, de encontros e de conversas, em virtude de sua cota elevada que permite uma vista franca do Parque Olímpico, da lagoa, isto é, da exótica paisagem em que a cidade e a natureza estão em uma nada plácida fricção.

A partir dessa grande varanda, 16 corredores dão acesso à arquibancada octogonal com quase 12 mil assentos, dos quais 216 desses espaços são destinados a pessoas com deficiência física. O interior do ginásio propriamente dito tem aproximadamente 85 m por 110 m, com cerca de 20 m de altura livre, e com todos os olhos do público convergindo, ao centro, para a quadra de 40 m por 20 m.

No térreo, o campo de jogo e as fileiras de cadeiras nas suas bordas são envolvidas por dezenas de espaços para a organização e funcionamento dos jogos: vestiários de atletas e árbitros, salas de reuniões, de controle de doping, de conferências para imprensa.

Há um cuidadoso estudo de caracterização do nível de ruído, adequando cada ambiente de acordo com as normas de conforto acústico. O investimento técnico também é visível nas instalações de ar-condicionado, de iluminação e de elétrica para transmissões. A noção de conforto ambiental em uma arena olímpica como esta é expandida: leva-se em consideração desde os 14 jogadores na partida de handebol, a dúzia de milhares de espectadores in loco até os incontáveis milhões que assistem pela televisão ou internet.

Sentado em uma das cadeiras da arquibancada, olha-se para cima e verifica-se que o vão de 85 m é vencido por uma sequência de vigas treliçadas de metal com mais de 5 m de altura. Estes elementos estruturais dividem a cobertura em oito módulos lineares de cerca de 15 m de largura, observáveis tanto do interior do ginásio quanto em uma vista aérea superior.

Segundo Gustavo Martins, do Oficina de Arquitetos, escritório responsável pelo projeto ao lado de Lopes Santos & Ferreira Gomes Arquitetos e de Paulo Casé Planejamento (que juntos formaram o Rioprojetos 2016), essas vigas também revelam a modulação da escola: o tamanho de cada um dos quatro futuros centros educacionais resultará de dois dos oito módulos da cobertura da Arena do Futuro.

Ou seja, dentro do ginásio podemos mensurar os futuros colégios. Serão reaproveitados as vigas e os pilares metálicos, os perfis e a estrutura das peles, os painéis cimentícios, as rampas, as escadas. A imagem das futuras escolas transparece a presença da atual Arena do Futuro. E vice-versa.

Este projeto coloca em questionamento o paradigma, banalmente reproduzido, de construção de estruturas temporárias para eventos no Brasil. Esquecem-se os recorrentes modelos de tendas e galpões provisórios. Não há nenhum resquício de pavilhões de andaimes e coberturas tensionadas (por vezes, acrescido de algum revestimento pseudoelegante para encobrir a falta de raciocínio projetual) que, salvo raríssimas exceções (como o Pavilhão Humanidade de 2012 (AU 221) da também carioca Carla Juaçaba), não merecem qualquer adjetivação melhor do que tosco.

Os arquitetos deste ginásio para handebol demonstram uma maneira mais responsável de projetar o que terá uma existência breve. A Arena do Futuro é uma construção efêmera com uma tectônica permanente. Cada material, cada peça, cada parte são pensados para dois projetos: um dura por menos de um ano, o outro se conserva para o usufruto de gerações de estudantes. Tanto como o programa funcional de sua segunda vida, a arquitetura da Arena-Escola é, em si, didática.

Há de se ressaltar que o potencial dessa ideia de arquitetura somente se realizará quando as etapas de projetos estiverem concluídas: sua montagem, sua desmontagem e sua remontagem. Isto é, ainda há duas fases por vir. Cabe à sociedade civil cobrar do poder público carioca a realização completa do ciclo.

ASSEMBLE, DISASSEMBLE AND REASSEMBLE
The Olympics last about 15 days. One month afterwards, there is certain survival from this entertainment with the Paraolympic Games. And the party soon ends. How do you endow a reason for an Olympic structure to exist after the closing ceremony? The strategy for the Future Arena (Arena do Futuro), in Rio de Janeiro, is to totally program its life cycle. You assemble a gymnasium that will host the handball and goalball competitions of the 2016 Olympic Games and Paraolympic Games. On finishing the two events, the building is to be disassembled. In the following months, it is to be reassembled and transfigured into four public municipal schools. The building structure is at the end of the undulating Olympic Park pedestrian promenade in Barra da Tijuca. Externally, the image is that of a building composed by two contrasting layers. On the ground floor level, one may see the entrances to the building, the structure, the circulations, the interior walls, the back of the bleachers. However, what confers the regular prismatic shape to the Arena is its skin: a myriad ofdelegated profiles – constituted of wood dust amalgamated by a polymeric material- with variable spacing in between, in consonance with the specific need in each section for filteringsolar rays, for expelling indoor heat and for ventilation. Inside the gymnasium, we can measure the future schools. The steel beams and the pillars, the profiles and the structure of the skins, the cement panels, the ramps, the stairways will be reused. The image of the future schools shines through the presence of the current Future Arena and vice-versa.

POR FRANCESCO PERROTTA-BOSCH FOTOS RAFAEL SALIM