Arena do futuro, no Rio de Janeiro, de Rioprojetos 2016

IMPLANTAÇÃO

A Arena do Futuro está localizada na zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, área peninsular triangular na Lagoa de Jacarepaguá de aproximadamente 120 hectares (1,18 milhão m²). A Arena do Futuro fica no próprio parque com área total construída de 24.214 m², cerca de 2% da área do Parque da Barra.

CAMADAS DE USOS E ATIVIDADES

O espaço externo à arena distribui o fluxo, permitindo a legibilidade total do conjunto. Esse espaço permite a aglomeração de pessoas, estimulando o encontro. No nível térreo, a entrada de público acontece pelos lados Oeste, Sul e Norte do hall. É o nível onde se encontra o campo de jogo, de modo central, e em seu contorno e sob as arquibancadas tem-se a definição da zona back of house: área operacional, esportiva, imprensa, tecnologia, acesso ao público e das famílias olímpicas.

No nível +4,72 m, grande parte é destinada à área denominada de varanda pelos arquitetos, pela possibilidade de os visitantes terem uma área de encontro e, também, vislumbrar a vista do parque e de suas atividades. Mas sua função em um local de grande circulação funciona como um saguão de acessos às arquibancadas e serviços. Neste nível tem-se: área operacional, esportiva, imprensa/mídia e transmissão, tecnologia, acesso ao público e das famílias olímpicas.

A cobertura do nível térreo, assim, configura-se pelo piso da arquibancada inferior de concreto armado pré-fabricado e se dá como vedação inclinada pela arquibancada superior. O fechamento superior é dado pela cobertura de telhas sanduíche metálicas, apoiadas por vigas treliçadas e pilares treliçados metálicos. Em todo o contorno, de modo nuclear, a edificação é coberta por painéis, formando uma fachada ventilada e com iluminação filtrada por sistema em brise de ripamento em barras horizontais de madeira polimérica.

O SISTEMA DE FECHAMENTO – BRISES

O fechamento externo se configura em uma pele que permite o aproveitamento de luz e ventilação indiretos, funcionando como um filtro e como adequação às mudanças térmicas e lumínicas. Aberturas aleatórias funcionam como janelas de contemplação e visualização e contato entre interior e exterior.

O conjunto é composto por uma grelha modular e ortogonal de 3 m de altura por 2,50 m em perfis de alumínio, onde são fixadas as barras/ripas de madeira plástica ou madeira polimérica, um material composto por polímeros e madeira reciclada.

As barras são leves e possuem seção transversal celular/vazada, com total de 5 cm x 7,5 cm, e aba de fixação de 2,5 cm onde a subestrutura metálica é conectada com insertos em alumínio. A seção celular garante a rigidez necessária a cada barra e pesa cerca de 25% de um perfil maciço de madeira, conduzindo a uma estrutura de sustentação mais leve – na arena, foi usada estrutura de alumínio.

Para maior eficiência do conforto térmico e lumínico, e ainda criar uma silhueta variada na extensão e altura do edifício, o afastamento entre barras foi especificado em três distanciamentos: 25 mm, 50 mm e 75 mm, como pode ser notado no degradê que se apresenta no projeto das fachadas.

Em vista frontal e transversal, o detalhamento apresenta os vãos entre longarinas verticais sobre a grelha de alumínio e onde se fixam as barras de madeira polimérica. Nota-se na vista em corte que as abas abertas ficam em contato com as longarinas verticais e presas pelos clips.

SISTEMA CONSTRUTIVO-ESTRUTURAL

Os pisos são constituídos de placas de concreto pré-fabricado. As arquibancadas são de placas dobradas maciças, as lajes dos saguões, em laje alveolar protendidas e complementos em nervuradas em duas direções com preenchimento de isopor; rampas e escadas são de concreto maciço pré-fabricado. A sustentação vertical e os contraventamentos são de estrutura metálica reticulada em aço, com uma variedade de quadro e pórticos metálicos.

A ESTRUTURA METÁLICA

Para a cobertura, o sistema estrutural metálico é dividido em: 18 pilares treliçados que se apoiam no nível térreo e se estendem até a cobertura; sete vigas treliçadas planas com o comprimento da largura da arena e que se apoiam nos pilares treliçados; nove vigas tridimensionais na extensão do comprimento da arena e em vãos modulados entre os pilares treliçados, cada vão é formado por tesouras de duas águas para sustentação das telhas metálicas sanduíches. Cada módulo de telhado em duas águas se direciona em calhas que se encontram sobre as vigas transversais. No encontro das fachadas, as calhas se conformam antes da estrutura reticulada de sustentação dos brises; e, por fim, por quatro vigas tridimensionais que conformam o perímetro da arena e servem de apoio para a estrutura reticulada de sustentação dos brises.

Para as arquibancadas é discretizado em uma estrutura reticulada para arquibancada superior e outra para a inferior. As arquibancadas são estruturadas como pórticos, pilares e viga superior em seção “I” e para permitir a visibilidade – a barra superior inclinada com o menor nível voltado ao campo e o maior para o contorno externo.

No sentido transversal e, portanto, perpendicular à cada viga inclinada, são dispostas vigas horizontais de contraventamento, garantindo maior rigidez e estabilidade ao conjunto no sentido vertical.

As arquibancadas inferiores se apoiam junto ao terreno em pilaretes de concreto e em associação de vigas e pilares metálicos em seção “I” no patamar de transição para as arquibancadas superiores.

Os lances das arquibancadas superiores se apoiam neste conjunto reticulado no patamar e em um pórtico a meia-altura deste e, no nível mais alto, em vigas que se apoiam nas extremidades nos pilares treliçados no contorno e, para maior rigidez, estão dispostos tirantes no vão central de cada tramo.

O sistema estrutural metálico reticulado permite a fixação dos assentos e definição dos níveis da arquibancada. Para ambas as arquibancadas, o sistema estrutural contempla vigas metálicas em seção “I”, dispostas inclinadas, em nível decrescente ao campo e compatível com a melhor visibilidade.

CENÁRIO EM MUTAÇÃO

O projeto do edifício valoriza conceitos como flexibilidade, mutabilidade, sustentabilidade e adaptabilidade, por ser uma instalação temporária em que sua ocupação, operacionalização e manutenção não se justificarão além do evento da Olimpíada.

Um balanço inicial foi projetado e se pôde evidenciar a viabilidade de sua conversão após o evento da olimpíada como um doador de materiais. No estudo de aproveitamento dos componentes, ficou claro que a construção da arena não é nômade de modo literal, uma vez que não seria remontada em outro local, mas seus elementos serão retirados, desmontados e serão reutilizados como materiais, equipamentos e produtos na construção de quatro escolas 1 em locais diferentes: uma na região do Parque Olímpico; a segunda, em um terreno na avenida Salvador Allende; a terceira, perto do Parque Carioca; e a quarta escola será montada em um terreno em São Cristóvão.

Excluindo-se os elementos de fundação, pinturas e acabamentos, e ainda considerando as diferenças evidentes entre a morfologia estrutural e a geometria funcional de uma arena e das edificações de escolas, todo o projeto procurou a maior aderência entre elementos e componentes para o maior atendimento em ambas as funções e usos. A modularização, por exemplo, destaca-se em vários elementos, como as rampas e escadas pré-moldadas, a estrutura do telhado do estádio, fechamentos em placas cimentícias, estrutura metálica com vigas metálicas e telhas da cobertura com tamanho padronizado, brises, forros, janelas, portas. Somente parte da arquibancada irá diretamente para as quatro escolas públicas municipais que abrigarão cerca de 500 alunos cada.

Notam-se nas perspectivas dos projetos para as escolas as aplicações já evidenciadas para os brises, as rampas e os fechamentos em placas cimentícias. Após o atendimento prioritário na construção das quatro escolas, está previsto também o reúso das peças pré-moldadas de concreto em outros equipamentos públicos como ginásios, quadras ou outras instalações esportivas afins.

SASQUIA HIZURO OBATA é engenheira civil pela Faap, com mestrado em engenharia civil pela USP e doutorado em arquitetura e urbanismo pela Universidade Mackenzie. É professora do curso de arquitetura e urbanismo na Faap e na Fatec Tatuapé- Victor Civita. É coordenadora de Projeto de Gestão Aberta para Inovação do Inova Paula Souza; e coordena o curso lato sensu em construções sustentáveis na Faap

POR SASQUIA HIZURO OBATA