Editorial: supermoderno é agora

GUSTAVO CURCIO

Em meio à busca incessante por projetos cada vez mais sustentáveis e digitais, parece não existir um discurso coerente de forma e linguagem no Brasil. Tente responder à seguinte pergunta: quais são as principais características da arquitetura brasileira contemporânea? Difícil encontrar uma resposta imediata.

Há pelo menos três décadas estamos em busca de uma nova identidade. Enquanto muitas escolas de arquitetura continuam defendendo ideias corbusianas de 1930, o mundo ultrapassou o modernismo, o pós-modernismo e a hipermodernidade. Mas o próprio conceito do hipermoderno exposto há doze anos por Gilles Lipovetsky (1944-) parece estar superado. Vivemos a cultura do excesso, do sempre mais, e esse aspecto da supermodernidade, termo usado pelo próprio filósofo para definir os dias de hoje, verifica-se de maneira clara na arquitetura. No entanto, o fator Brasil, de entraves de acesso à tecnologia e mão de obra de formação empírica nos impõe, mais uma vez, a um fenômeno peculiar, todo nosso.

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Não é de hoje que o Instituto Brincante promove o conhecimento e a assimilação da riqueza cultural brasileira: lá se vão quase 25 anos desde que o casal de artistas Antonio Nóbrega e Rosane Almeida ocupou, com seu teatro-escola, um antigo galpão industrial no coração da Vila Madalena. O risco de ter que deixar a região – tradicionalmente ligada a manifestações artísticas e culturais – veio em 2014, quando o proprietário do imóvel alugado solicitou sua desocupação: o terreno seria vendido a uma construtora. Depois de pleitear na justiça o direito pela permanência e, ainda, levantar um importante debate sobre os edifícios que pouco a pouco tomam nossas cidades, o instituto se viu obrigado a abandonar o endereço.

Começou, então, um novo capítulo nessa história: o da reinvenção. Com o objetivo de arrecadar recursos para a criação de um novo espaço a poucos metros do anterior, foi lançada a campanha #FicaBrincante. Parte da verba veio do Instituto Alana, grande apoiador da causa; outra, do público, captada por meio do site de financiamento coletivo Catarse. O projeto foi assinado e doado pelo escritório Bernardes Arquitetura, que também mobilizou novos parceiros: boa parte das empresas, profissionais e fornecedores envolvidos na obra também não cobrou nada ou apenas o preço de custo.

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