Prefeitura de Olinda, em Pernambuco, adota salário mínimo profissional para arquitetos

Prefeitura de Olinda, em Pernambuco, adota salário mínimo profissional para arquitetos

Por Gabrielle Vaz, do Portal PINIweb

A Prefeitura de Olinda, em Pernambuco, publicou no dia 30 de agosto a Lei Municipal 6.005/2017 que determina aos servidores arquitetos e urbanistas o salário mínimo profissional previsto na Lei Nº 4950-A/66. A medida irá beneficiar cerca de 21 profissionais que atuam em órgãos municipais.

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Rafael Moneo é premiado com Praemium Imperiale de Arquitetura em 2017

Rafael Moneo é premiado com Praemium Imperiale de Arquitetura em 2017

O arquiteto espanhol Rafael Moneo foi anunciado na última terça-feira (12) como vencedor do Praemium Imperiale de Arquitetura de 2017, promovido pela Associação de Artes do Japão. Na ocasião foram anunciados também os premiados nas categorias Pintura, Escultura, Música e Teatro/Cinema: Shirin Neshat, El Anatsui, Youssou N’Dour e Mikhail Baryshnikov, respectivamente.

Moneo se formou em 1961 pela Escola de Arquitetura de Madri, na Espanha, e lecionou na Escola de Arquitetura de Barcelona (1970) e na de Madri (1980). Com mais de 30 obras, grande parte distribuída na capital espanhola, o arquiteto já recebeu nove prêmios de arquitetura, como o renomado Prêmio Pritzker, em 1996, e a Medalha de Ouro do Royal Institute of British Arts (RIBA), em 2003. Atualmente, Moneo leciona na Escola de Design de Harvard, nos Estados Unidos.

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Concurso de ideias para estudantes de arquitetura premiará projetos do Museu da Criatividade

Concurso de ideias para estudantes de arquitetura premiará projetos do Museu da Criatividade

Por Gabrielle Vaz, do Portal PINIweb

O portal Projetar.org acaba de lançar seu Concurso 023, que propõe aos estudantes de arquitetura projetar o Museu da Criatividade na região da Barra Funda, zona Oeste de São Paulo. A competição de ideias prevê a criação de um espaço social e cultural multidisciplinar voltado às artes visuais, design, fotografia, grafite, motion design, arquitetura, publicidade, entre outros.

A edificação será construída no terreno da primeira gráfica do País e deverá ter uma interação direta com a rua e seu entorno.

O júri para este concurso será composto pelo sócio fundador do Portal Projetar.org Caio Smolarek Dias, pelo arquiteto e designer mestre Henrique Stabile, pelo arquiteto mestre especializado em Projetos Marcelo França dos Anjos, pelo sócio fundador do escritório Pascali Semerdjian Sarkis Semerdjian e pelo arquiteto graduado na FH Lippe, na Alemanha, Thorsten Nolte.

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José e Francisco Nasser Hissa: sempre contemporâneos

POR RICARDO PAIVA
Arquiteto e urbanista pela UFC (1997), com mestrado (2005) e doutorado (2011) pela FAU-USP. É professor-adjunto do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo e Design da UFC – PPGAU+D-UFC. Coordena o Laboratório de Crítica em Arquitetura, Urbanismo e Urbanização (LoCAU) do DAU-UFC. É pesquisador do Laboratório de Comércio e Cidade (Labcom) da FAU-USP

BEATRIZ DIÓGENES
Arquiteta e urbanista pela UFC (1978), com mestrado (2005) e doutorado (2012) pela FAU-USP. É professora-adjunta do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo e Design da UFC – PPGAU+D-UFC. É pesquisadora do Laboratório de Crítica em Arquitetura, Urbanismo e Urbanização (LoCAU)


DA FORMAÇÃO ÀS INFLUÊNCIAS
José Nasser Hissa (1944, à esq.) e Francisco Nasser Hissa (1949, à dir.) são cearenses descendentes de sírio-libaneses que migraram para o Ceará na passagem do século XIX para o século XX, juntamente com outras famílias de mesma origem. Em 1951, eles se mudaram com os pais e mais dois irmãos para o Rio de Janeiro, em busca de melhores oportunidades de estudo. José Nasser Hissa, o mais velho, estudou no Colégio São Bento e desde cedo revelou interesse pelo desenho. Ele teve o primeiro contato com a arquitetura por meio de seu colega de classe Márcio Roberto, filho de Maurício Roberto, um dos irmãos MMM Roberto, pioneiros da arquitetura moderna no Brasil.

Depois do retorno da família à Fortaleza, em 1961, José, que havia estudado no Liceu do Ceará, decidiu prestar vestibular para arquitetura na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, onde ingressou em 1964 e concluiu o curso em 1968. Incentivado pelo irmão, Francisco Nasser Hissa, que a princípio almejava cursar engenharia civil, em razão das facilidades com a matemática e a geometria descritiva, acabou por seguir seus passos nos caminhos da arquitetura. Após ter realizado um curso de desenho com o artista suíço radicado no Ceará Jean Pierre Chabloz (1910-1984), para se preparar para a prova de habilidade específica (desenho), Francisco também ingressou na Faculdade Nacional de Arquitetura no Rio de Janeiro, em 1967, e se graduou em 1971, quando a escola passou a se chamar Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o advento da Reforma Universitária introduzida pela Lei de Diretrizes e Bases de 28/11/68.

Conforme o relato dos arquitetos, o processo de formação foi bastante intenso, pois o curso, de origem secular, possuía uma biblioteca rica em referências históricas e contemporâneas, com importantes periódicos e revistas internacionais. Além disso, o edifício que abrigava a escola – projeto de 1957 do arquiteto carioca Jorge Machado Moreira (1904-1992) – era um ambiente adequado e propício para o aprendizado da profissão, constituindo-se em uma referência modelar dos ensinamentos do modernismo arquitetônico.

Embora tenham estudado em uma faculdade na qual havia emergido a essência do debate arquitetônico modernista, fundado na síntese entre modernidade e tradição, e onde se formaram os primeiros arquitetos dessa corrente no Brasil, para eles esses princípios não eram ensinados de forma programática ou teórica, mas estavam imbuídos no pensamento e na cultura arquitetônica do contexto social e histórico de sua inserção e, principalmente, na prática de projeto, dentro e fora da faculdade. A hegemonia do modernismo no ensino e na prática da arquitetura estava, então, plenamente consolidada como um certo consenso, ainda que não se recorresse ao termo “moderno” para designar a linguagem a que eles estavam alinhados, pois se tratava, na verdade, de uma postura arquitetônica contemporânea para a geração dos arquitetos.

O período de formação dos dois arquitetos coincide com as mudanças de rumo no panorama da arquitetura moderna brasileira, que, para Bastos (2003), tem Brasília como marco, seja porque foi o apogeu do período heroico da arquitetura moderna brasileira, identificado com a exaltação dos valores da escola carioca, seja porque foi um ponto de inflexão político, com o golpe militar em 1964. Some-se a isso o surgimento de uma nova expressão formal na arquitetura moderna brasileira, que se desenvolveu a partir do discurso mais teórico e engajado politicamente, liderado por Vilanova Artigas, identificado como a escola paulista brutalista.

Os irmãos arquitetos declararam que se mantiveram à margem dessa discussão política e teórica, ética e estética e que foi muito mais decisivo para a formação deles o envolvimento com as disciplinas técnicas de materiais de construção e estrutura, para eles o “ponto forte”, tendo sido alunos de ilustres professores como Aderson Moreira da Rocha (1911-1996), Adhemar Fonseca (1915-1996) e Adolpho Polillo (1928). Na área específica do projeto de arquitetura, foi de grande relevância o contato com os arquitetos professores Paulo Casé (1931) e Luis Paulo Conde (1934-2015).

Esses professores, envolvidos com o ensino da arquitetura, sobretudo nas disciplinas práticas de projeto, trabalhavam também como arquitetos, em seus escritórios particulares. As influências que os estudantes recebiam eram, inclusive, provenientes dessa atividade compartilhada com os professores também por meio de estágios. José e Francisco construíram suas trajetórias profissionais de acordo com esse perfil, aliando a prática projetual à atividade didática.

No período da faculdade, ambos trabalharam no Sesi do Rio de Janeiro e desempenharam atividades na área de comunicação visual. José também fez perspectivas de arquitetura para o escritório do Edison Musa (1934) e estagiou com o arquiteto Luiz Eduardo Índio da Costa (1938). Francisco cumpriu estágio no escritório do Hélio Modesto (1921-1980), urbanista responsável pelo plano diretor de Fortaleza de 1963.

O repertório de referências arquitetônicas e urbanas dos irmãos foi potencializado pelo ambiente cultural e cosmopolita do Rio de Janeiro, que, mesmo com a transferência da capital federal para Brasília, mantinha evidentemente grande tradição e efervescência cultural no campo das artes em geral, no cenário nacional.

DO RIO A FORTALEZA
A perspectiva de trabalho que se apresentava em Fortaleza era bastante ambígua, pois, ao mesmo tempo que se abriam oportunidades relacionadas ao ensino da arquitetura (com a criação da escola, em 1965) e ao mercado de trabalho, também se apresentavam, desde a chegada dos primeiros arquitetos, os desafios de uma cidade que começava a se modernizar.

José Hissa voltou para Fortaleza em 1969 e logo ingressou, como professor da Escola de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC), depois de prestar concurso. A princípio ele se dedicou ao ensino das disciplinas de representação, sobretudo de comunicação visual. José é considerado como integrante da segunda geração de arquitetos de formação moderna atuantes no Ceará. A primeira geração é identificada como de pioneiros migrantes, que se formaram no Rio de Janeiro e em Recife e que introduziram os princípios da arquitetura moderna na cidade; alguns deles estiveram envolvidos com a fundação da escola. Para Segawa (2002) esses “arquitetos peregrinos, nômades e migrantes” cumpriram um papel fundamental na afirmação da arquitetura moderna brasileira a partir da década de 1960. A segunda geração, da qual José faz parte, se caracteriza por arquitetos mais jovens, quase todos cearenses, que se juntaram aos pioneiros e foram incorporados como professores da escola.

Francisco Hissa, conhecido entre os arquitetos como Chico, embora sendo mais jovem e só tenha ingressado na UFC em 1987, também pode ser considerado da segunda geração. Aliás, foi como professor de projeto que a carreira docente de ambos ficou marcada, pois compartilhavam suas experiências práticas com várias gerações de arquitetos.

Os irmãos afirmaram que a intenção de lecionar na universidade se deu pelo interesse em conciliar a teoria com a atividade prática, já exercida por ambos. José se aposentou em 1998 e Chico ainda continua no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, sendo responsável há anos pelo fechamento da sequência de Projeto Arquitetônico, sempre com temas e programas de alta complexidade funcional e urbana.

Com relação à atividade profissional, antes de abrir o escritório de arquitetura com o irmão, José Hissa esteve à frente de uma empresa de publicidade, a BIT – Programação Visual e Propaganda Ltda., juntamente com o cineasta Eusélio Oliveira e o publicitário Augusto Pontes. A BIT prestava serviços de produção de peças de propaganda, vídeos e marcas, e foi responsável pelas conhecidas marcas da Receita Federal e do IAB nacional – Instituto de Arquitetos do Brasil, concebida por ele, José Hissa e pelo arquiteto Ricardo Bezerra, em 1972.

Com o retorno de Chico a Fortaleza, começaram as atividades de escritório de projetos de arquitetura no início da década de 1970. Nesse período, a cidade contava com poucos arquitetos e todos militavam para que a profissão tivesse reconhecimento de empresários, construtores e da clientela em geral, uma vez que grande parte dos projetos, até a década de 1960, era elaborada por práticos, desenhistas e engenheiros.

VISTA INTERNA DO SHOPPING CENTER UM (1975)

A estrutura e a organização do escritório Nasser Hissa Arquitetos Associados, marcadas desde a sua origem por uma gestão profissional e empresarial, possibilitaram receber encomendas de projetos de porte para a clientela pública e privada. No início da década de 1980, o escritório já possuía uma equipe significativa de arquitetos e absorvia grande parte das demandas do mercado imobiliário, que se fortaleceu após a liberação da verticalização fora do centro urbano, prevista no Código de Obras de 1979. Desde então, houve grande efervescência na construção de edifícios residenciais multifamiliares, e os arquitetos Nasser Hissa foram protagonistas neste processo e responsáveis, em grande parte, pelo novo “desenho” que a capital cearense adquiriu.

Em entrevista a José Wolf na revista aU no 20, várias passagens confirmam essa consciência dos arquitetos em relação ao papel que cumpriram na mudança da relação dos profissionais com o mercado, ao afirmarem que “somos uma espécie de veículo de levar o mercado para um caminho mais adequado” (p. 61), ou ainda que “somos nós, de forma ampla, arquitetos mais empresários, que estamos fazendo o desenho da cidade” (p. 62).

Vale destacar a formação complementar que tiveram os muitos arquitetos – mais de 150, conforme depoimento de Francisco Hissa – que passaram pelo escritório desde a sua criação até os dias atuais. Esses profissionais são unânimes em afirmar o enorme aprendizado e experiência que obtiveram no que se refere à prática de projeto e às técnicas de desenho.

É reconhecida a forma pioneira de representação gráfica utilizada por eles e a importância dada à técnica. No início, os desenhos eram confeccionados a lápis – uma novidade à época -, segundo modelo já utilizado nos projetos do arquiteto carioca Paulo Casé, e era dada grande ênfase ao detalhamento arquitetônico. Essa prática tornou-se padrão por muito tempo entre os escritórios locais. O desenho a lápis foi, posteriormente, substituído pelo uso do computador, sendo o primeiro escritório da cidade a empregar a informática na representação dos projetos, método rapidamente assimilado e utilizado com eficiência pelos estagiários e arquitetos.

QUANDO A ARQUITETURA MORDERNA ERA CONTEMPORÂNEA
A arquitetura moderna em Fortaleza revelou sua expressão mais marcante na década de 1970 e no início da década de 1980, quando a cidade conheceu um processo mais intenso de modernização, em razão das práticas econômicas, políticas e culturais suscitadas pela implementação de planos governamentais na esfera estadual e pela criação de um aparato institucional alinhado à política nacional de desenvolvimento pelo viés da industrialização, preconizada desde a década de 1960 pela Sudene, com repercussões incontestáveis no processo de urbanização e modernização das estruturas urbanas e edilícias da capital cearense.

A contribuição dos irmãos Nasser Hissa à arquitetura moderna em Fortaleza pode ser compreendida dentro desse contexto. Entre os projetos do escritório, o Center Um, primeiro shopping de Fortaleza, foi inaugurado em 1974 e constitui um marco no processo de redistribuição das funções urbanas na cidade. Esse equipamento foi responsável, igualmente ao que ocorreu em outras cidades brasileiras, por induzir o surgimento de uma nova área de centralidade na cidade – quando era sintomática a decadência do centro principal, com a perda da sua vocação econômica, política e simbólica (PAIVA, 2005). O shopping, construído no eixo leste de expansão de Fortaleza desde o centro, contribuiu para o processo de consolidação da centralidade formada no bairro da Aldeota, com impactos significativos na dinâmica urbana, imobiliária, de fluxos e de verticalização de Fortaleza (DIÓGENES, 2005).

O edifício ocupa uma quadra inteira e os três pavimentos (subsolo, térreo e pavimento superior) se distribuem em um terreno com um declive de mais ou menos um pavimento. O partido se desenvolve em torno da criação de um pátio interno aberto, o que constitui uma particularidade, uma vez que é recorrente nessa tipologia soluções mais herméticas e isoladas em relação ao entorno (Figura 1).

A solução estrutural é bastante regular e modulada, que, alinhada aos princípios modernos, repercute claramente na forma do edifício, traduzida na clara definição dos elementos de suporte e de vedação. Destaque para o uso da laje-cogumelo do subsolo, uma inovação estrutural na década de 1970.

Outro projeto de destaque é o edifício da Teleceará – Centrais de Comutação e Escritórios (1982), cuja implantação se insere na estrutura fundiária tradicional do centro de Fortaleza e apresenta uma solução formal alinhada às exigências funcionais demandadas pela tecnologia empregada pela concessionária à época.

A solução final resultou em um volume prismático austero e com grande força plástica, revelando matriz notadamente modernista. Recentemente, o edifício (Figura 2) passou por transformações apenas no seu espaço interno, em razão das significativas mudanças na tecnologia da telefonia, mantendo-se de forma digna na paisagem, face da longevidade da solução formal adotada.

Os arquitetos contribuíram sobremaneira para a consolidação da tipologia do edifício multifamiliar em Fortaleza. Ainda na década de 1970, quando era proibida a construção em altura nos bairros residenciais, eles projetaram prédios de apartamento com soluções bastante adequadas às especificidades locais ambientais e às formas de morar, ao mesmo tempo que estavam de acordo com a legislação¹, que autorizava a construção de edifícios com pilotis e mais três pavimentos. Destacamse, entre outros, os prédios Água Marinha (1974), Guarani (1976) (Figura 3), Village Costa Brava (década 1970) e Berma (1979).

É comum nessas obras o uso de elementos de concreto aparente na fachada, marcando a estrutura e as varandas, além de revestimentos como cerâmica e cobogós e esquadrias de madeira tipo veneziana2, conciliando aspectos da arquitetura moderna com as condições locais, no que se refere a materiais e clima.

Com a mudança da legislação em 1979, quando foi liberada a construção de edificações em altura nos bairros, os irmãos Nasser Hissa passaram a projetar diversos edifícios verticais na cidade, tornando-se pioneiros nesse nicho de mercado e valorização imobiliária. O Edifício Veneza 1 (1980) é um exemplar emblemático na produção dos arquitetos. Localizado em um terreno de esquina no bairro do Meireles, possui um implantação que valoriza a integração entre o espaço público e o privado, dispensando o uso de muros e grades, e resolve esses limites com o recurso de desníveis. A exploração dessa interface entre a rua e o pilotis do prédio é reforçada pela introdução de uma loja no nível do térreo, voltada para o passeio, criando uma diversificação no programa.

As referências ao modernismo aparecem não apenas na utilização do concreto aparente, mas, sobretudo, no fato de que a forma se revela como expressão da estrutura e da solução funcional, ao mesmo tempo que há uma preocupação com as proporções, as escalas, os ritmos e os materiais que moldam as fachadas (Figura 4)

Em ótimo estado de conservação, o edifício recentemente cedeu aos imperativos simbólicos que permeiam a cultura da violência urbana e implantou um gradil nos limites do lote, comprometendo a solução original. De toda forma, o seu exemplo demonstra as possibilidades de um desenho diferenciado para a integração entre os domínios públicos e privado.

É importante admitir que os princípios da arquitetura moderna não se revelam na obra dos arquitetos de forma acentuada e intencional, como discurso ou manifesto. Pelo contrário. São incorporados para atender e solucionar problemas pragmáticos, funcionais, estruturais e construtivos. O concreto aparente em algumas obras foi utilizado para buscar aderência ao que estava em voga nos anos 1970 e início dos 1980, já que se tratava de uma tendência predominante no âmbito da arquitetura moderna brasileira.

VISTA DA TELECEARÁ – CENTRAIS DE COMUTAÇÃO E ESCRITÓRIOS (1982)
EDIFÍCIO GUARANI (1976)
EDIFÍCIO LIDO (1985)

DA ARQUITETURA MODERNA À CONTEMPORÂNEA
Ao longo dos anos 1980, a arquitetura em Fortaleza experimentou um processo de transição, em que coexistem persistências do modernismo arquitetônico e se insinuam, sobretudo a partir da segunda metade da década, as primeiras influências e atitudes pósmodernas. É evidente que esses limites não são nítidos, mas pode-se afirmar que a publicação do Panorama da Arquitetura Cearense, em 1982, constitui um marco que define “um recorte”, uma periodização da arquitetura moderna em Fortaleza (PAIVA e DIÓGENES, 2014). A publicação editada pela Revista Projeto, em dois volumes, traz um apanhado de obras de diversos arquitetos cearenses, inclusive dos irmãos Nasser Hissa, nas quais é patente a centelha moderna.

A partir da década de 1990, o escritório começa a absorver mais efetivamente as influências das tendências pós-modernas internacionais, que são adaptadas às práticas correntes. Essa época coincide com uma intensa atividade do escritório

EDIFÍCIO VENEZA IV (1988)

em razão das demandas crescentes do mercado imobiliário, incrementado pela verticalização, além da concepção de um número significativo de novas tipologias. Desde então, é perceptível no conjunto da obra dos arquitetos o abandono do uso do concreto aparente em detrimento da utilização de revestimentos cerâmicos, apropriados por meio de cores e grafismos como elementos plásticos. Tal atitude indica uma maior liberdade formal e o recurso de soluções diversificadas, postura mais alinhada, assim, à linguagem pós-moderna, que é incorporada sem excessos à atividade projetual dos arquitetos.

Desde a década de 1990, o Escritório Nasser Hissa se consolida como o maior e mais importante de Fortaleza, acolhendo as mudanças do mercado da construção civil local e adaptando-se às transformações tecnológicas e de linguagem do heterogêneo panorama da arquitetura contemporânea. Assim como na época em que o modernismo era hegemônico, atualmente os arquitetos mantêm princípios que estão materializados na sua vasta experiência prática de projeto, para além de rótulos e preconceitos.

CONDOMÍNIO MUCURIPE PLAZA (2002)

Dentre as tipologias concebidas pelos arquitetos, os edifícios residenciais multifamiliares são, até hoje, a marca principal do escritório, respondendo pelo maior número de projetos elaborados. Grande parte dos edifícios projetados foi erguida no Meireles e na Av. Beira-Mar – área residencial mais nobre da cidade – e marca, pela altura3, pela imponência e pelas formas, o desenho da orla fortalezense. Entre esses, destacam-se o Edifício Lido (1985), na Praia de Iracema, um dos primeiros edifícios altos da faixa litorânea (Figura 5), com 18 pavimentos e apartamentos de 280 m², e o Edifício Veneza IV (1988), torre única em terreno de esquina, com grande pano de vidro e um jogo de varandas inclinadas projetadas para o mar (Figura 6). Em 2002, foi erguido o Condomínio Mucuripe Plaza, situado na enseada do Mucuripe, com duas torres residenciais gêmeas (apartamentos de 320 m²), marcadas pelas curvas da varanda em balanço, solução recorrente e adequada ao clima local (Figura 7), só para citar os exemplos mais emblemáticos.

EDIFÍCIO VENEZA 1 (1980)

Os arquitetos conceberam edifícios que abrigam importantes sedes empresariais na cidade, como a do Grupo Edson Queiroz (1984) (Figura 8), no bairro Dionísio Torres, que constou de projeto de reforma e ampliação dos antigos estúdios da TV Verdes Mares; o Centro Empresarial Clóvis Rolim (1984), resultado de concurso privado, um dos últimos edifícios comerciais altos construídos na zona central de Fortaleza, que apresenta proposta mais formalista, diferenciada em relação às torres comerciais modernas da vizinhança, com escalonamentos dos pavimentos, terraços ajardinados nos pisos mais altos e a disposição irregular das salas (Figura 9).

SEDE DO GRUPO EDSON QUEIROZ (1984)

Pode-se destacar ainda a sede administrativa da Ypióca4 (2000), no bairro da Messejana. A edificação tem desenho arrojado, com formas ousadas e se sobressai5 em meio às edificações do entorno, sobretudo pelos volumes diferenciados, concebidos na proposta: o cilindro – de forma inspirada nos tonéis de madeira utilizados para a fermentação de aguardentes – e o prisma triangular, marcado pela alternância de cheios e vazios (Figura 10).

SEDE ADMINISTRATIVA DA YPIÓCA (2000)
CENTRO EMPRESARIAL CLÓVIS ROLIM (1984)

Atendendo ainda às solicitações do empresariado local e do mercado imobiliário, o escritório projetou importantes torres empresariais, como o Complexo Empresarial São Mateus (2004), agregando no programa salas comerciais e consultórios a um hospital existente, reforçando o caráter híbrido do conjunto (Figura 11). As duas torres gêmeas expressam austeridade por meio da simplificação da forma e dos materiais de revestimento empregados. Incorporando as demandas por edifícios sustentáveis e obedecendo às certificações que os qualificam, os arquitetos propuseram o LC Corporate (2013), uma torre de curvilínea (Figura 12) que permite a formação de uma generosa área pública no lote, ao nível da rua, e proporciona visuais do interior das salas para o mar.

Com o incremento do turismo por parte do governo do estado do Ceará, a implementação de políticas públicas e a associação da atividade com o mercado imobiliário, o escritório

COMPLEXO EMPRESARIAL SÃO MATEUS (2004)

passou a projetar diversas tipologias arquitetônicas relacionadas ao turismo, como hotéis, resorts e empreendimentos turístico-imobiliários, sobretudo na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Nesse cenário, se destacam o Hotel Gran Marquise (1986), que se vale nitidamente de artifícios estéticos pós-modernos para valorizar a fachada voltada para a Avenida Beira-Mar, e o Hotel Luzeiros Fortaleza (1996), com um homônimo em São Luiz (2004), também localizado na orla e onde se verifica uma maior adequação ao lugar, visível no uso de varandas nos quartos (Figura 13).

Ainda em relação ao desenvolvimento do turismo, o escritório passa a abrigar uma clientela internacional de investidores de redes de hotéis e resorts, na sua maioria portugueses e espanhóis, atraídos pelas oportunidades de negócios e incentivos fiscais e financeiros do estado, embora essa demanda tenha arrefecido após a crise de 2008. Nesse contexto, o Hotel Dom Pedro Laguna, no Complexo Aquiraz Riviera, localizado no litoral leste da RMF, e o Hotel Vila Galé, no Complexo Cumbuco Golf Village, localizado na Costa do Sol Poente, são os mais emblemáticos. Malgrado as contradições inerentes a esses “enclaves fortificados”, o projeto faz referências à cultura arquitetônica local por meio da utilização de materiais tradicionais, como a coberta com madeiramento e telha cerâmica, além de

LC CORPORATE (2013)

soluções adequadas ao clima (Figura 14).

No processo de modernização e construção da imagem turística de Fortaleza, os irmãos Nasser Hissa participaram de dois concursos públicos de arquitetura, o de Revitalização do Centro de Fortaleza (1999), quando ficaram em segundo lugar, e o do Ícone de Fortaleza6, no mesmo ano, Vquando foram vencedores. Nas duas propostas evidencia-se a criação de espaços públicos significativos, em que as formas arquitetônicas têm um protagonismo evidente.

No fim da década de 1990, o escritório se envolveu com a produção de vários planos diretores de cidades do Ceará, com destaque para o plano diretor de Maracanaú, município de vocação industrial da RMF, que demonstra um portfólio variado no campo da arquitetura e do urbanismo.

DO LEGADO À ARQUITETURA E À CIDADE

HOTEL LUZEIROS FORTALEZA (1996)

O trabalho dos irmãos José e Francisco Nasser Hissa pode ser considerado uma referência importante para o desenvolvimento da arquitetura cearense7, ao contribuir de forma relevante para a difusão e consolidação do modernismo arquitetônico em nosso meio. Uma maior consciência por parte dos arquitetos para o emprego de princípios modernos em seus projetos até início da década de 1980 só foi possível, segundo eles, com o início do debate em torno do pós-modernismo. Desde então, passaram a incorporar novas influências aos seus projetos, sem necessariamente abandonar o compromisso com aspectos técnicos e os seus desdobramentos no projeto de arquitetura.

Ao longo da década de 1980, o escritório testemunhou dois importante processos de transição. O primeiro, no que diz respeito à continuidade e às rupturas do modernismo frente às influências pós-modernas, e o segundo, em relação à incorporação do desenho assistido por computador, método que o tornou pioneiro em Fortaleza, quiçá no Brasil, uma vez que foi o primeiro a comprar uma licença do Autocad em todo o país, abandonando sistematicamente o desenho a mão. Some-se a isso as transformações ocorridas na cidade no que se refere ao processo de verticalização, que incrementou sobremaneira a quantidade de projetos desenvolvidos. A atividade dos arquitetos se mantém intensa e sua produção é bastante significativa. Suas contribuições relacionadas à arquitetura contemporânea são igualmente de grande relevância para reflexão da arquitetura produzida no Ceará.

HOTEL VILA GALÉ
PROJETO PARA O CONCURSO DE REVITALIZAÇÃO DO CENTRO DE FORTALEZA (1999) EM PARCERIA COM O ARQUITETO ROBERTO MARTINS CASTELO

A herança deixada pelos arquitetos transcende à sua obra, pois influenciou de maneira decisiva a escolha da profissão da família: duas filhas de José Hissa (Ticiana e Márcia), uma filha de Chico (Marina) e um sobrinho (Paulo) também abraçaram a carreira e compõem a equipe do escritório Nasser Hissa.

É importante salientar, por outro lado, o legado como professores de várias gerações de arquitetos formados no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC e a importância de sua produção no contexto da cidade, pela atividade prática do escritório, pelo volume de projetos realizados e pelas inovações introduzidas no conjunto da obra. A atuação dos irmãos Nasser Hissa propiciou, incontestavelmente, uma nova feição ao desenho da cidade formal.

PROJETO PARA CONCURSO DO ÍCONE DE FORTALEZA (1999)

BIBLIOGRAFIA

BASTOS, Maria Alice Junqueira. Pós-Brasília: Rumos da Arquitetura Brasileira. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2003.
DIÓGENES, Beatriz H.N. A centralidade da Aldeota como expressão da dinâmica intra-urbana de Fortaleza. Dissertação (Mestrado). FAUUSP, São Paulo, 2005.
HISSA, F.; HISSA, J. Nasser Hissa Arquitetos Associados – 40 Anos. Fortaleza, J.J. Carol, 2016.
PAIVA, Ricardo Alexandre; DIÓGENES, B. H. (Org.). Pequeno Guia da Arquitetura Moderna de Fortaleza (1960-1982) Momotur – 5o Seminário
DOCOMOMO Norte/Nordeste. 1a ed. Fortaleza: Departamento de Arquitetura e Urbanismo – UFC/Expressão Gráfica, 2014. v. 1. 118p.
PAIVA, Ricardo Alexandre. Entre o Mar e o Sertão: Paisagem e Memória no Centro de Fortaleza. Dissertação de Mestrado. FAUUSP. São Paulo, 2005.
PONCE DE LEON, Delberg; NEVES, Nelson Serra e; LIMA NETO, Otacílio (Orgs). Panorama da Arquitetura Cearense – Cadernos Brasileiros de Arquitetura. Vol. 1 e 2. São Paulo: Projeto Editores Associados Ltda., 1982.
REVISTA AU (Arquitetura e Urbanismo). A nível da realidade. v. 20, p. 60-4, Out/Nov 1988.
SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil 1900-1990. São Paulo. Edusp, 2002.
VILLAÇA, Flávio. Espaço Intra-Urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel, 1998.

Agradecimentos

Aos arquitetos José Nasser Hissa e Francisco Nasser Hissa, pelas entrevistas concedidas aos autores em outubro de 2015, e às arquitetas Márcia Gadelha Cavalcante e Marina Cavalcante Hissa, pelas imagens cedidas.