Editorial: vida urbana

A cidade que se descortina no vão livre de um edifício revela o quanto a contribuição da arquitetura para qualificar os espaços urbanos pode ir além do perímetro do projeto. Tal inspiração serviu de mote ao Edifício 1232, residencial do escritório curitibano Arquea e que ilustra a capa desta edição. Com o térreo pontuado apenas por uma escada de acesso aos pavimentos superiores, o olhar de quem passa pela calçada atravessa todo o lote, criando um interessante diálogo com a cidade.

A obra confirma o quanto o trabalho do arquiteto se norteia pela ideia de que a vida acontece no tempo e no espaço e de que, se o tempo corre alheio a nós, o mesmo não ocorre com os espaços. Cabe a esses profissionais a função primordial de planejar o que ocorre entre uma construção e outra – mais precisamente, nos lugares onde parte significativa da vida se dá, por onde as pessoas andam, passeiam, chegam ao trabalho, buscam os filhos na escola, compram pão. A partir deste pensamento integrado, que coloca as questões urbanas no cerne da atividade arquitetônica, diluem-se os limites entre espaço público e privado, entre cidade e prédio, proporcionando uma combinação que enriquece a experiência do convívio e o fascínio que a paisagem pode exercer.

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Os profissionais que assinaram os projetos publicados na edição

Os profissionais que assinaram os projetos publicados na edição

Como um quebra-cabeça

Paula Otto (direita) 1 havia acabado de se graduar pela UFRGS quando começou a trabalhar com o casal de arquitetos Eduardo (centro) e Elen Maurmann (esquerda) em 2010. Eles se impressionaram com o trabalho final da recém-formada e decidiram convidá-la para se juntar a eles e criar o Arquitetura Nacional, com base em Porto Alegre. “A ideia é que todo mundo se envolva um pouquinho em tudo”, diz Paula. O grupo cresceu e hoje conta com dez pessoas além de Otto, cachorro mascote do escritório. O objetivo do Arquitetura Nacional é fazer uma arquitetura contemporânea e atemporal a partir do encaixe de elementos. Tentam evitar modismos e buscam olhar para o passado como inspiração. Também tiram proveito do contemporâneo: recorrem a softwares para passar mais tempo projetando do que produzindo gráficos. Apesar de a equipe gostar de projetar casas e interiores, está hoje focada em prédios residenciais e comerciais que se diferenciem ao máximo uns dos outros.

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Edifício de quatro andares projetado pelo Arquea em lote estreito de Curitiba combina vidro, elementos vazados e térreo livre

Edifício de quatro andares projetado pelo Arquea em lote estreito de Curitiba combina vidro, elementos vazados e térreo livre

Em um lote irregular de 7,5 m de frente que afunila até chegar a 4 m, o escritório Arquea, em Curitiba, conseguiu inserir um edifício de dois pavimentos e térreo livre em um total de 370 m2 de área construída. Para fugir da pequena largura, o arquiteto Fernando Caldeira de Lacerda, do Arquea, implantou a construção junto à rua, respeitando 5 m de recuo frontal, e liberou os fundos para criação de área verde e estacionamento. O potencial construtivo do terreno somado ao seu tamanho propiciou a criação de quatro apartamentos de um dormitório, sendo dois deles voltados para a rua e dois para o jardim, divididos em blocos unidos por passarelas de circulação. A construção foi resolvida com o uso de um sistema pré-fabricado de lajes painel, mais esbeltas. Elas funcionam de modo similar ao de uma laje maciça e permitem a ausência de vigas nas bordas frontal e posterior, o que torna a fachada visualmente mais leve. A estrutura resultou em um térreo livre e contínuo: o olhar de quem passa pela rua alcança o fundo do lote, criando uma relação de continuidade entre espaço público e privado.

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