Concurso de ideias para estudantes premia projeto de abrigo individual portátil

Concurso de ideias para estudantes premia projeto de abrigo individual portátil

O portal Projetar.org lançou seu 24º concurso de ideias para estudantes de arquitetura e urbanismo, que desta vez busca o projeto de um abrigo individual portátil destinado à desabrigados. As inscrições vão até o dia 19 de fevereiro.

“O atual processo de urbanização das cidades está ligado com a incapacidade mundial em resolver um problema crônico tratado como invisível: o aumento da população sem teto, ou desabrigada. Tendo em vista a dificuldade de sanar o déficit habitacional e a gravidade da situação em que encontram os desabrigados, é necessário e relevante pensar em soluções emergenciais que ao menos diminuam seu sofrimento e melhorem sua condição básica de existência”, diz a competição.

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Entidades de arquitetura e urbanismo defendem lei específica para licitação de obras públicas

Entidades de arquitetura e urbanismo defendem lei específica para licitação de obras públicas

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) discutiram durante a II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo, na última semana, a demanda por uma lei específica para licitação de obras públicas.

Recentemente, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei 6.814/2017 que autoriza a licitação de obras públicas sem o projeto completo, por meio da contratação integrada, onde a empreiteira vencedora será responsável pela elaboração do projeto em obras acima de R$ 20 milhões, como escolas de médio porte ou pequenos hospitais.

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Afuá: Uma cidade amazônica inteiramente construída sobre as águas, onde só a bicicleta tem vez

Afuá: Uma cidade amazônica inteiramente construída sobre as águas, onde só a bicicleta tem vez

1. Praça principal da cidade, à beira do rio Afuá. Em pelo menos três pontos da cidade foram construídas praças que servem de encontro e de palco para eventos maiores, com bares, lanchonetes, cafés, playgrounds e jardins

Em um cenário de muito calor, rios, marés e Floresta Amazônica, surge Afuá. A chamada “Veneza Marajoara” ou “Amsterdã dos Trópicos” nada tem de europeia. Um olhar mais atento revela uma realidade exótica, instigante e que pode nos ensinar lições e lançar desafios que a Europa nunca teria sido capaz.

Marajó fica no Estado do Pará e é a maior ilha flúvio-marítima do mundo, na Foz do Amazonas. A noroeste da ilha, em uma área próxima ao Amapá, localiza-se Afuá. A maneira mais comum de chegar à cidade é por barco, a partir de Macapá – trecho que numa voadeira leva aproximadamente duas horas. Entrecortada por rios, é uma área alagada, com vegetação exuberante e forte influência de marés devido ao volume dos rios amazônicos e ao encontro com o Atlântico.

Afuá é inteiramente construída sobre o rio, entre braços de água labirínticos onde o Amazonas leva outros nomes. Afuá acontece como se as casas ribeirinhas amazônicas – que são de madeira sobre palafitas, vistas em qualquer parte da região – não quisessem mais ficar isoladas e se agrupassem para formar um tipo novo de cidade.

A CIDADE E A ÁGUA
Na área mais antiga de Afuá, onde estão o porto, a igreja e o hospital, há poucas ruas de concreto. Ali ficam construções de alvenaria, como o prédio mais alto da cidade, um hotel de três andares. O restante é de madeira, elevado do solo que é puro lodo – com mato e plantas que não param de crescer no clima ultrafértil amazônico. A cidade, inclusive, abraça a farta vegetação, incluindo árvores típicas da Amazônia.

A conexão com a água é crucial: Afuá pousa em cima de estruturas a aproximadamente 1,5 m do terreno, permitindo o alagamento do seu subsolo. Ruas e espaços públicos acompanham este desnível. Isso permite que a cidade lide não só com as mudanças nas marés, que acontecem diariamente, mas também com as estações de chuvas e cheias. Áreas mais internas, onde há pequenos córregos ou igarapés, são contornadas pelas estruturas de madeira, mostrando que apesar da ocupação pouco ordenada, há regras que são mantidas, sendo a principal delas a convivência com a água.

2. Ruas típicas de Afuá, com piso de madeira. A natureza faz parte da cidade e da vida dos moradores, e automóveis são proibidos. Algumas casas de Afuá possuem pontes que ligam cada unidade às vias de circulação públicas. Numa época de seca, cada casa parece ter seu próprio jardim

Outra regra de Afuá é a proibição de carros e de motos, por lei municipal. Como o nível térreo é construído e apoiado em estruturas de madeira sobre a várzea, somente a circulação de bicicletas é viável. Afuá tem uma escala própria. A ausência de automóveis confere outros sons e odores à cidade, fazendo dela uma experiência sensorial nova, que casa de um jeito especial com o calor e a umidade amazônicos. Com aproximadamente 40 mil habitantes e 15 mil bikes, a cidade é, de fato, uma gigante ciclovia de madeira, sem separações entre ciclistas e pedestres.

A onipresença da bicicleta fez com que os moradores passassem também a adequar este objeto às necessidades urbanas. Há muita customização criativa, com bikes transformadas em veículos que só existem ali: vendedores e carregadores possuem uma base acoplada na frente da bicicleta, numa espécie de triciclo com lugar para expor os produtos ou transportar mercadorias; os bicitáxis são duas bikes unidas com mais dois lugares para passageiros, e cobertura para o sol. Várias bicicletas acoplam sistema de som e ora estão anunciando, ora levando pessoas para a agitação de sábado à noite. Ambulâncias e bombeiros assemelham-se aos táxis, mas com detalhes diferentes.

ESPAÇOS PÚBLICOS E SEMIPÚBLICOS
No inverno amazônico, época das chuvas, a cidade fica alagada e muitas soluções vistas na época da seca irão fazer sentido. Como as casas estão geralmente a uma pequena distância da rua de madeira, e como não há calçadas, há uma espécie de “ponte” ligando a rua com cada casa, que podem conter portões (pouco úteis na seca, mas que dão uma graça pitoresca).

O espaço público de Afuá é a rua: tudo acontece nas vias de madeira que se interligam para formar a cidade, circundando árvores e riachos. Elas são estreitas, têm sempre movimento, gente passando a pé ou de bicicleta, vendedores ou crianças brincando. Em pelo menos três pontos de Afuá foram construídas praças que servem de encontro e de palco para eventos maiores. Nestas praças há bares, lanchonetes, cafés, playgrounds e jardins. Em uma delas há uma quadra de esportes coberta, pública, e um palco – também há sessão de cinema ao ar livre.

Há, ainda, outra tipologia de espaço público: pequenas estruturas com pérgolas, vegetação e bancos, que parecem uma espécie de mirante ou terraço, e servem como pequenas praças. As próprias casas complementam o espaço público – quase todas têm varandas, o que faz delas extensão das ruas, espaços de transição que ajudam a fortalecer a vida da cidade. A pista de pouso do aeroporto de Afuá, pouco usada para este fim, é tomada por crianças no final da tarde, hora em que o sol abranda e é possível empinar pipas ou jogar bola na pista cercada por terrenos baldios.

3. Estruturas com pergolados formam mini-praças existentes por toda a cidade

CIDADE SUSTENTÁVEL OU FAVELA?
Afuá parece ser um cenário idílico numa época em que se reflete sobre soluções sustentáveis e o futuro do planeta. No entanto, a cidade não foi planejada levando em conta ideais sustentáveis. A solução vernacular, embora impecável em muitos aspectos, não oferece respostas a muitos problemas atuais.

Um deles é a produção de lixo. Teoricamente, estando isolada, menos recursos industrializados chegariam a Afuá. Mas há barcos diários partindo dali para Macapá e não é visível a falta de nada, nem de nenhuma tecnologia. A partir do nível térreo, circulável, é visível o acúmulo de resíduos na parte alagável.

Há uma questão mais grave: a proximidade da água facilita contaminações e isso torna necessária a atenção com o lixo eletrônico, hospitalar e outros tóxicos. O tratamento adequado não é simples neste contexto. Em Afuá, crianças jogam bola ao lado do lixão a céu aberto, numa área ainda dentro da cidade e bem próxima à margem de um braço de rio maior. Lixo é um desafio.

Preocupações também graves são as relacionadas ao saneamento básico e à água para consumo. A rede de esgoto é ainda inexistente e sua estrutura física não possibilita a construção de fossas. Esses resíduos, portanto, são lançados diretamente na várzea, que é invadida pelos rios. Existe um tratamento para a água distribuída, o qual nem sempre parece ser suficiente. As pessoas mais carentes não fazem parte da rede de distribuição, acabando por consumir água diretamente dos rios, um risco grande.

Outra questão é a forma como se dá o crescimento da cidade. Mais urgente do que a discussão sobre um plano de expansão para Afuá em terras de mata intocada, é o planejamento e a fiscalização sobre a extração das madeiras que constroem a cidade.

4. A proximidade coma água faz parte do cotidiano dos moradores de Afuá. O que é uma vantagem traz, também, alguns problemas: a falta de um plano de gerenciamento do lixo acaba contaminando o rio

FUTUROS POSSÍVEIS
Dependendo das políticas locais, em um futuro não muito distante Afuá pode ser símbolo de um fracasso. Como outras cidades amazônicas, se não houver mais atividades rentáveis, se esgotarem-se seus recursos (açaí, camarões, madeiras e palmitos) ou se as mudanças climáticas afetarem demais seu território, Afuá pode se tornar uma cidade fantasma. Aconteceu, por exemplo, com Velho Airão, cidade no rio Negro próxima a Manaus, que faliu junto com a economia do látex.

Algumas medidas urgentes, somadas à educação e ao impulso de um turismo sustentável, poderiam tornar a cidade um exemplo a ser seguido na Amazônia, já que os desafios que enfrenta são comuns num território que é imenso. Afuá poderia ser a tentativa brasileira que deu certo de cidade adaptada à natureza local – uma natureza bastante singular, amazônica, dominante e que dita outras regras. Ensinaria assim, de um jeito simples e inesperado, como construir um planeta mais sustentável. Mas talvez antes disso Afuá desapareça na foz do Amazonas e, na pior das hipóteses, não sobre nada para contar esta história.

POR: ANDREA BANDONI FOTOS: ANDREA BANDONI E FRANCISCO VELOSO