Arquitetura de Frank Lloyd Wright no sul do Chile

Arquitetura de Frank Lloyd Wright no sul do Chile

A entrada acanhada da construção encravada na encosta esconde o verdadeiro tesouro do Hotel Antumalal: a vista panorâmica para o Lago Villarica. De cara, as referências à arquitetura moderna de Frank Lloyd Wright se mostram evidentes, com as cores primárias pronunciadas, caixilharia generosa e mobiliário moderno 100% em harmonia com as linhas paralelas do edifício. Com capacidade de receber até 50 hóspedes, vanguardista no conceito de hotel boutique, Antumalal significa, em mapudungun (idioma da população local, os mapuches), “onde se aconchega o sol”.

A história do icônico edifício, que recentemente recebeu projeto de retrofit em uma de suas células – a antiga casa de chá deu lugar a um chalé com quatro quartos, sala de estar, cozinha americana e um belvedere a partir da generosa varanda -, começou em 1939, com a chegada do casal de imigrantes tchecos Guillermo e Catalina Pollak à cidade de Pucón. Responsáveis pelo Hotel Playa, pequeno bed and breakfast no centro da cidade, os Pollak logo assumiram maiores responsabilidades: partiram para a base do vulcão Villarica, que domina a paisagem local, sendo um dos mais ativos do Hemisfério Sul, e passaram a gerenciar a estação de esqui ali estabelecida por imigrantes alemães. “A paixão pela montanha e pelos esportes de inverno levaram meus pais até Pucón”, conta Rony Pollak, filha do casal que chegou à América do Sul pelo Paraguai e responsável pelo hotel hoje em dia. Em 1949, uma grande erupção do Villarica destruiu o refúgio do casal. Na mesma época, Guillermo comprou a propriedade onde foi construído o Antumalal. O terreno, então subvalorizado pela topografia acidentada, que impossibilitava a criação de animais e a agricultura, foi a base perfeita para a construção arrojada ainda na década de 1940.

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Habitação social na área central da cidade de São Paulo

Habitação social na área central da cidade de São Paulo

Desde o fim dos anos 1980, o poder público, a sociedade civil e os movimentos de moradia têm se dedicado a estudar e propor novas ideias para as áreas centrais da cidade, na tentativa de reverter o processo de deterioração de um patrimônio construído através de décadas e até de séculos da construção do território urbano.

No Brasil, a adoção do modelo modernista de produzir cidades resultou na implantação de moradias localizadas em bairros distantes da área central e da oferta de empregos. No dia a dia da cidade, o fluxo casa/trabalho/casa obrigou à construção de avenidas expressas, viadutos, passagens em nível, ou seja, toda uma infraestrutura que facilitasse o transporte dos trabalhadores com a rapidez demandada pelas tarefas diárias.

Com o passar dos anos, analisando os resultados do modelo modernista, foi possível observar que a opção adotada não contribuiu para um crescimento adequado das cidades. Ao contrário, elas se espraiaram pelo território, demandando altos investimentos para a implantação da infraestrutura necessária nos novos bairros e para a expansão infindável da rede de transportes públicos. Com isso, deixou no rastro dessa expansão um centro histórico abandonado pelo poder público, à mercê do processo de deterioração e deixando para trás toda uma rede de infraestrutura subutilizada.

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Intervenções de Giancarlo De Carlo em Urbino, na Itália

GIANCARLO DE CARLO NA INAUGURAÇÃO DA FACULDADE DE ECONOMIA , URBINO (2000)

MÔNICA MASCARENHAS GRANER
Arquiteta, desenvolve projetos na área de arquitetura e urbanismo, com mestrado em Projeto de Arquitetura pela FAU-USP. Pesquisadora de espaços universitários contemporâneos e da obra de Giancarlo De Carlo, é membro da Fondazione Ca’Romanino

Este artigo apresenta o caráter multidisciplinar da obra de Giancarlo De Carlo, um dos arquitetos italianos mais importantes do século XX. Seu dinâmico percurso profissional, suas viagens, seus projetos e suas reflexões o colocam como figura particular do Movimento Moderno e da arquitetura contemporânea. O texto evidencia seu engajamento em defesa da cidade, considerada por ele o instrumento educativo mais importante no processo evolutivo da sociedade contemporânea. Tal perspectiva conduziu sua trajetória projetual, tornando a cidade histórica de Urbino, no centro-oeste da Itália, o seu mais importante e duradouro laboratório, no qual materializou hipóteses e as verificou por meio dos cenários de transformação da realidade. Um percurso por seus projetos mais significativos – Università degli Studi di Urbino, o Plano Regulador de Urbino e a residência Lívio Sichirollo (hoje, Fondazione Ca’Romanino) – comprova a essência e a atualidade de suas reflexões como contribuição para a arquitetura contemporânea.


INTRODUÇÃO

MAPA DA ITÁLIA E LOCALIZAÇÃO DE URBINO

A filosofia do arquiteto Giancarlo De Carlo (Gênova, 1919 – Milão, 2005) é expressa ao longo de uma trajetória de 50 anos de trabalho consistente como arquiteto, urbanista, engenheiro, pesquisador, professor, militante e escritor, extraindo o melhor de seus interlocutores, clientes, alunos e colaboradores. Seu legado – projetos, livros, publicações e, sobretudo, as intervenções construídas e habitadas – transformou a realidade dos locais onde interveio, da paisagem e do patrimônio sociocultural que herdou. Suas intervenções foram implantadas sobre estratos de uma preexistência meticulosamente analisada. Para ele, a história é o elemento fundamental do processo de concepção do projeto e, por consequência, todo projeto é uma renovação, mesmo quando não há modificação ou reconstrução. Nenhum lugar é vazio de significação, daí a importância de uma profunda “leitura do lugar”, inclusive de seu contexto social, que permitirá, a posteriori, a sedimentação de novas impressões. Nesse sentido, compreende-se seu engajamento na defesa da cidade, no resgate da vida urbana pela recuperação de edifícios e dos tecidos urbanos históricos.

BOCCA DI MAGRA E TEAM X
De Carlo projetou-se internacionalmente por sua atuação no Team X, grupo que refutou os dogmas modernistas ditados pela Carta de Atenas. Porém, pertencia antes a outro grupo, formado por amigos intelectuais e ativistas da resistência italiana – Elio Vittorini, Vittorio Sereni e Ítalo Calvino, entre outros -, que se encontravam, nas férias de verão, na costa da Ligúria, num povoado de pescadores chamado Bocca di Magra, que deu nome ao grupo. Aquela paisagem rústica, junto ao mar e ao rio, inspirava-os a um debate recorrente sobre a situação da Itália naquele período: o destino das cidades na reconstrução da Europa, as relações entre cidade e campo, entre as cidades antigas e os novos arranjos urbanos, as cidades europeias e as cidades americanas. Vittorini, jornalista e escritor, contava suas viagens pelas cidades do mundo, feitas no ano precedente, e o tema sobre as cidades nutria a todos. Como resultado, Vittorini escreveu um romance, publicado postumamente, chamado Le Cittá del Mondo, no qual todos os personagens são viajantes contínuos. Ítalo Calvino escreveu suas fábulas em Le Cittá Invisibili. Para De Carlo essas duas obras foram, na sua pesquisa sobre as cidades e o território, seus livros de referência¹.

As verdadeiras cidades que ele idealizava eram como aquelas descritas por seus amigos romancistas e estavam muito distantes do modelo proposto nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciams). Em meados de 1950, ao colaborar com a revista Casabella Continuità, o diretor Ernest Rogers, o indica para integrar o grupo italiano nos Ciams. Sua postura crítica diante do International Style o aproxima dos arquitetos Aldo van Eick, Alison e Peter Smithson, Ralph Erskine, Shadrach Woods, Georges Candilis, Jaap Bakema, que formariam o grupo Team X e colocariam fim aos Ciams, no último encontro ocorrido em Otterlo, na Holanda, em 1959. Na visão de De Carlo, os Ciams foram, em grande parte, responsáveis pela ideologia que permitiu que o núcleo tradicional da cidade fosse violentado, sob o disfarce do processo de renovação urbana como um eufemismo para o deslocamento dos pobres. Em 1963, o Team X já havia ultrapassado o estágio de fértil intercâmbio e colaboração e só continuaria a existir como movimento daquilo que pretendera alcançar por uma crítica construtiva aos Ciams. Restava pouco a realizar, excetuando os projetos de Woods, com sua cidade em miniatura, para o concurso de Frankfurt-Römenberg e o projeto de De Carlo para a universidade em Urbino².

URBINO E DE CARLO
Uma das mais importantes cidades do Renascimento italiano, Urbino desperta vários interesses: cidade natal de Rafaello e Bramante, situada entre as colinas na região de Marche, a cidade ainda conserva as pesadas muralhas que a defenderam de invasores por séculos, exibindo palácios, obras medievais e renascentistas. Sua tradição histórica como cidade universitária remete à fundação da Università di Urbino, em 1506, que se desvinculou da Igreja no século XVIII e ingressou na modernidade pelas mãos do erudito Carlo Bo, reitor da universidade a partir de 1947, período no qual a cidade e seus edifícios históricos encontravam-se em total estado de abandono. Giancarlo De Carlo visitou Urbino pela primeira vez em 1951, a convite de Carlo Bo, que confiou a ele a recuperação da Sede Centrale dell´Università, no cento histórico, dando início à sua maior e mais longa experiência projetual e construtiva: as intervenções em Urbino visando à sua requalificação.

Pode-se afirmar que o conceito de De Carlo sobre as cidades e o reúso do espaço arquitetônico aprimorou-se com a experiência urbinense. Sua pesquisa levou-o ao encontro das construções de Francesco di Giorgio Martini (1439-1501), arquiteto responsável pelas obras arquitetônicas e urbanísticas da cidade, civis e militares, pertencente à corte do Duque de Montefeltro, um mecenas do século XV que fez da Urbino medieval uma importante cidade renascentista.

Ao explorar a cidade histórica, Giancarlo De Carlo desenvolveu certa obstinação pelos percursos que a cidade oferecia com suas ruas, vielas, escadas, rampas que interligavam os palácios, monastérios, casas e praças, possibilitando sistematizar o estudo mais “humano” do espaço, mapeando os ângulos favoráveis, os tipos de piso, as declividades das vias, a dinâmica cotidiana da cidade, sua arquitetura espontânea, conversando com a população, e, sobretudo, expondo as propostas à crítica pública, praticando a arquitetura participativa. Seu modus operandi faz uma relação com a história dos grandes arquitetos, como Francesco di Giorgio Martini, e outra, menos culta, que se refere ao relacionamento entre o ser humano e o lugar onde ele vive³.

Em consequência de uma parceria bem-sucedida entre prefeito, reitor e arquiteto, a atuação de De Carlo foi além da universidade, abrangendo toda a cidade, ao propor o Plano Regulador Geral (PRG), editado em 1966 com muita repercussão na Itália, por definir uma metodologia precisa de recuperação de cidade histórica em face das mudanças sociais, físicas e econômicas da atualidade.

Na proposta de De Carlo, a universidade foi considerada como núcleo da vida social estreitamente ligado à vida da coletividade sem limitações de tempo e de espaço, estendida à inteira existência do cidadão e a todo ambiente da cidade, integrada ao tecido urbano, tornando-se um elemento essencial no processo evolutivo da sociedade.

O PRG partiu de um acordo entre a universidade e a prefeitura, permitindo que as faculdades ocupassem gradualmente os decadentes edifícios históricos, recuperando-os. Previa, ainda, uma nova área de expansão, fora do centro histórico, para implantar as residências estudantis. Porém o PRG só se converteu em instrumento regulador formal, com validade legislativa, aprovado pelo ministério italiano, em 1974. É por essa razão que Urbino, ainda hoje, é tida como um exemplo precursor do compromisso das entidades públicas na elaboração de um plano que viabilize um projeto urbanístico⁴.

Nos anos 1980 o arquiteto interrompeu sua relação profissional com a municipalidade, e a administração entregou a continuidade do projeto urbanístico a Carlo Aymonino e, em seguida, a Leonardo Benevolo. No entanto, em 1990, De Carlo foi homenageado como cidadão honorário de Urbino e, por tal razão, restabeleceu sua relação com o poder público e propôs, em 1994, o Segundo Plano

Regulador Geral, que, de acordo com ele, é a inversão do plano original, porque parte de uma leitura do território, abarcando o centro histórico, reconstruindo a paisagem circundante. O plano continua em vigor até hoje, confirmando a solidez da relação entre o arquiteto e a cidade e seus profícuos resultados. Ele manifestou seu amor pela cidade em seu discurso⁵ quando tornou-se cidadão urbinense, título dado pelo prefeito Egidio Mascioli:

VISTA DA CIDADE HISTÓRICA E DO PALÁCIO DUCAL

Posso dizer que amei esta cidade desde a primeira vez que a vi […]. Entendi finalmente que poderia desvendar os mistérios das minhas raízes e encontrar uma referência à minha memória de andarilho… Toda vez que retorno a Urbino meu amor se renova complacentemente porque a encontro deslumbrante […] quando retorno me sensibilizo com suas rugas, mas também com seu esplendor duradouro […].

Aborrece-me a falta de polidez daqueles que a visitam sem motivo, daqueles que falam sem conhecer sua história, daqueles que constroem em seu território sem saber por que o faz nem aonde chegarão. Sofro com os barulhos que a perturbam, sofro com os odores que não são os seus, sofro com os automóveis que a invadem, corrompendo o milagre de seu espaço.

Agora, como cidadão urbinense, prometo que usarei a simbólica chave que me é dada para contribuir com o fechar das portas quando tratar-se de defendê-la da vulgaridade que avança, e contribuir para abri-las quando for necessário colocá-la em contato com as mais férteis novidades que acontecem no mundo.

PLANO REGULADOR GERAL DE URBINO
VISTA AÉREA DA CIDADE COM INDICAÇÃO DAS FACULDADES NOS EDIFÍCIOS HISTÓRICOS

AS INTERVENÇÕES NO CENTRO HISTÓRICO – AS FACULDADES
Sede Centrale dell’Università (1952-1960) Para a nova sede, foi restaurado um palácio edificado no século XIV, primeira residência do Duque de Montefeltro. O critério adotado no projeto por De Carlo foi reorganizar o espaço preexistente, sem alteração volumétrica, introduzindo entre os dois pátios uma escada a tenaglia, para facilitar o acesso entre os pavimentos.
Faculdade de Direito (1966-1968) – Instalada em um convento do século XVIII, De Carlo restaurou o edifício e acrescentou um pavimento inferior – a biblioteca, escavando um pátio preexistente. Além disso, instalou, na laje de cobertura, um jardim com dez lucernas, permitindo a entrada de luz natural na biblioteca.
Faculdade de Pedagogia (1968-1976) – O Convento di Santa Maria della Bella, também do século XVIII, foi escolhido para abrigar a faculdade. Embora o complexo estivesse em péssimo estado, De Carlo decidiu conservar a muralha externa, por não querer desfigurar aquela particular conformação no centro histórico. Considerado o projeto mais representativo da obra de De Carlo, são dois os elementos principais organizadores desse espaço: o pátio cilíndrico e o auditório semicircular. A Aula Magna é o auge do projeto, na qual as diferenças de nível subvertem totalmente o senso de orientação.

COLINA DI ROMANINO

Faculdade de Economia (1989-2000) Mais contemporâneo, o projeto foi desenvolvido junto com a equipe de novos associados. O monastério beneditino do século XIV foi restaurado e recebeu novos elementos para percursos verticais e horizontais.

AS INTERVENÇÕES FORA DO CENTRO HISTÓRICO – AS RESIDÊNCIAS ESTUDANTIS
Construído na Colina dos Cappuccinos, a sudoeste do centro histórico, o projeto deu a De Carlo notoriedade internacional, particularmente porque é considerado uma solução à altura dos temas defendidos pelo Team X, em projetos para universidades, como fizeram Woods e Candillis, na Alemanha, e James Stirling, na Inglaterra.

Visto de certa distância, os volumes cúbicos e cilíndricos pertencentes ao conjunto, assentados suavemente na paisagem, tomam a forma de um palácio. Assim como o Palácio Ducal, de Urbino, alguns autores contemporâneos consideram essa intervenção como uma universidade em forma de cidade, comprovando a maestria de De Carlo em trazer os padrões organizacionais da cidade para a sua arquitetura, quando mescla arquitetura moderna à antiga, em harmonioso diálogo com a paisagem.

FACHADA LATERAL

AS INTERVENÇÕES NO TERRITÓRIO – CA’ROMANINO
Partindo do centro histórico de Urbino, sete quilômetros ao norte, subindo por uma estrada vicinal que corta um bosque, chega-se a Ca’Romanino, uma casa de campo projetada por De Carlo em 1965, para um casal de amigos – Livio Sichirollo, professor filósofo da Università degli Studi di Urbino, e sua esposa, Sonia Morra, professora. A razão que levou o casal Sichirollo a adquirir um terreno com uma vinha, uma adega e uma casa colonial, em 1959, foi o desejo de morar junto às colinas de Urbino, local de alta qualidade ambiental e paisagística, ideal para receber os amigos para debates e encontros que definiriam o futuro da pequena cidade, rica em arte e história.

ACESSO PRINCIPAL DA CASA – ENTRADA ESCONDIDA

Ca’Romanino é, antes de tudo, um projeto paisagístico, que valoriza a geografia e a paisagem, e ao final do percurso ganha-se um prêmio – a sua arquitetura. Cada volume é considerado como o centro de uma rede de relações e se desenvolve como uma narrativa revelando uma organização sofisticada de elementos circulares e cilíndricos, como os que se repetem no espaço do escritório, na lareira e no hall de distribuição das células dos hóspedes. Quanto à circulação, na sua obsessão pelos percursos, ele utiliza escadas de todo tipo, passagens secretas com portas em guilhotina, garantindo um fluxo complexo e dinâmico à casa, como se vê nos projetos do Centro Histórico e nas residências estudantis.

PROJETO DA CASA, QUE EVIDENCIA OS PADRÕES GEOMÉTRICOS USADOS POR DE CARLO

Seu projeto é uma metáfora da cidade. É a cidade-casa, que desperta no visitante um desejo imediato de apreendê-la, de explorá-la, de saber seus limites, onde começa, onde termina. É uma casa que homenageia a amizade, pois foi concebida para receber os amigos. Portanto, a qualidade dessa casa é, antes de tudo, a extraordinária experiência de vivenciá-la. As possibilidades de percurso, oferecidas por De Carlo, mostram sua intenção clara de manipular quem a visita, para mostrar como e por que a paisagem italiana é um ícone, um patrimônio que o mundo inteiro admira.

VISTA INTERNA DA CASA CA”ROMANINO. OS CAIXILHOS SE ABREM PARA A PAISAGEM NATURAL

A residência tornou-se a Fondazione Ca’Romanino, em 2002, um centro decarliano, que recebe turistas, pesquisadores e alunos de universidades do mundo. O programa de hospedagem Ventiquattrore a Ca’Romanino oferece ao visitante uma memorável oportunidade de vivenciá-la.

A CASA COLONIAL PREEXISTENTE

BIBLIOGRAFIA

BUNCUGA, F., & DE CARLO, G. (2000). Conversazioni su architettura e libertà. Milão: Elèuthera.

CA’ROMANINO Associazione Culturale. (2010). Ca’Romanino una casa di Giancarlo de Carlo a Urbino. Urbino: Argalìa Editore.

DE CARLO, G. (1966). La storia di una città e il piano della sua evoluzione urbanistica. Milão: Marsilio Editori.

DE CARLO, G. (1998). Nelle città del mondo. Veneza: Marsilio Editori.

FRAMPTON, K. (1997). História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Martins Fontes.

FULIGNA, T. (2001). Una Giornata a Urbino con Giancarlo De Carlo – Visitando le Sue Architetture. Urbino: Arti Grafiche Editoriali.

MCKEAN, J. (2004). Giancarlo De Carlo – Des Lieux, des hommes. Paris: Centre Pompidou.

PIZA, J. (08 de 2007). Entrevista – Giancarlo De Carlo. Fonte: Vitruvius: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/08.032/3292

 

José e Francisco Nasser Hissa: sempre contemporâneos

POR RICARDO PAIVA
Arquiteto e urbanista pela UFC (1997), com mestrado (2005) e doutorado (2011) pela FAU-USP. É professor-adjunto do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo e Design da UFC – PPGAU+D-UFC. Coordena o Laboratório de Crítica em Arquitetura, Urbanismo e Urbanização (LoCAU) do DAU-UFC. É pesquisador do Laboratório de Comércio e Cidade (Labcom) da FAU-USP

BEATRIZ DIÓGENES
Arquiteta e urbanista pela UFC (1978), com mestrado (2005) e doutorado (2012) pela FAU-USP. É professora-adjunta do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo e Design da UFC – PPGAU+D-UFC. É pesquisadora do Laboratório de Crítica em Arquitetura, Urbanismo e Urbanização (LoCAU)


DA FORMAÇÃO ÀS INFLUÊNCIAS
José Nasser Hissa (1944, à esq.) e Francisco Nasser Hissa (1949, à dir.) são cearenses descendentes de sírio-libaneses que migraram para o Ceará na passagem do século XIX para o século XX, juntamente com outras famílias de mesma origem. Em 1951, eles se mudaram com os pais e mais dois irmãos para o Rio de Janeiro, em busca de melhores oportunidades de estudo. José Nasser Hissa, o mais velho, estudou no Colégio São Bento e desde cedo revelou interesse pelo desenho. Ele teve o primeiro contato com a arquitetura por meio de seu colega de classe Márcio Roberto, filho de Maurício Roberto, um dos irmãos MMM Roberto, pioneiros da arquitetura moderna no Brasil.

Depois do retorno da família à Fortaleza, em 1961, José, que havia estudado no Liceu do Ceará, decidiu prestar vestibular para arquitetura na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, onde ingressou em 1964 e concluiu o curso em 1968. Incentivado pelo irmão, Francisco Nasser Hissa, que a princípio almejava cursar engenharia civil, em razão das facilidades com a matemática e a geometria descritiva, acabou por seguir seus passos nos caminhos da arquitetura. Após ter realizado um curso de desenho com o artista suíço radicado no Ceará Jean Pierre Chabloz (1910-1984), para se preparar para a prova de habilidade específica (desenho), Francisco também ingressou na Faculdade Nacional de Arquitetura no Rio de Janeiro, em 1967, e se graduou em 1971, quando a escola passou a se chamar Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o advento da Reforma Universitária introduzida pela Lei de Diretrizes e Bases de 28/11/68.

Conforme o relato dos arquitetos, o processo de formação foi bastante intenso, pois o curso, de origem secular, possuía uma biblioteca rica em referências históricas e contemporâneas, com importantes periódicos e revistas internacionais. Além disso, o edifício que abrigava a escola – projeto de 1957 do arquiteto carioca Jorge Machado Moreira (1904-1992) – era um ambiente adequado e propício para o aprendizado da profissão, constituindo-se em uma referência modelar dos ensinamentos do modernismo arquitetônico.

Embora tenham estudado em uma faculdade na qual havia emergido a essência do debate arquitetônico modernista, fundado na síntese entre modernidade e tradição, e onde se formaram os primeiros arquitetos dessa corrente no Brasil, para eles esses princípios não eram ensinados de forma programática ou teórica, mas estavam imbuídos no pensamento e na cultura arquitetônica do contexto social e histórico de sua inserção e, principalmente, na prática de projeto, dentro e fora da faculdade. A hegemonia do modernismo no ensino e na prática da arquitetura estava, então, plenamente consolidada como um certo consenso, ainda que não se recorresse ao termo “moderno” para designar a linguagem a que eles estavam alinhados, pois se tratava, na verdade, de uma postura arquitetônica contemporânea para a geração dos arquitetos.

O período de formação dos dois arquitetos coincide com as mudanças de rumo no panorama da arquitetura moderna brasileira, que, para Bastos (2003), tem Brasília como marco, seja porque foi o apogeu do período heroico da arquitetura moderna brasileira, identificado com a exaltação dos valores da escola carioca, seja porque foi um ponto de inflexão político, com o golpe militar em 1964. Some-se a isso o surgimento de uma nova expressão formal na arquitetura moderna brasileira, que se desenvolveu a partir do discurso mais teórico e engajado politicamente, liderado por Vilanova Artigas, identificado como a escola paulista brutalista.

Os irmãos arquitetos declararam que se mantiveram à margem dessa discussão política e teórica, ética e estética e que foi muito mais decisivo para a formação deles o envolvimento com as disciplinas técnicas de materiais de construção e estrutura, para eles o “ponto forte”, tendo sido alunos de ilustres professores como Aderson Moreira da Rocha (1911-1996), Adhemar Fonseca (1915-1996) e Adolpho Polillo (1928). Na área específica do projeto de arquitetura, foi de grande relevância o contato com os arquitetos professores Paulo Casé (1931) e Luis Paulo Conde (1934-2015).

Esses professores, envolvidos com o ensino da arquitetura, sobretudo nas disciplinas práticas de projeto, trabalhavam também como arquitetos, em seus escritórios particulares. As influências que os estudantes recebiam eram, inclusive, provenientes dessa atividade compartilhada com os professores também por meio de estágios. José e Francisco construíram suas trajetórias profissionais de acordo com esse perfil, aliando a prática projetual à atividade didática.

No período da faculdade, ambos trabalharam no Sesi do Rio de Janeiro e desempenharam atividades na área de comunicação visual. José também fez perspectivas de arquitetura para o escritório do Edison Musa (1934) e estagiou com o arquiteto Luiz Eduardo Índio da Costa (1938). Francisco cumpriu estágio no escritório do Hélio Modesto (1921-1980), urbanista responsável pelo plano diretor de Fortaleza de 1963.

O repertório de referências arquitetônicas e urbanas dos irmãos foi potencializado pelo ambiente cultural e cosmopolita do Rio de Janeiro, que, mesmo com a transferência da capital federal para Brasília, mantinha evidentemente grande tradição e efervescência cultural no campo das artes em geral, no cenário nacional.

DO RIO A FORTALEZA
A perspectiva de trabalho que se apresentava em Fortaleza era bastante ambígua, pois, ao mesmo tempo que se abriam oportunidades relacionadas ao ensino da arquitetura (com a criação da escola, em 1965) e ao mercado de trabalho, também se apresentavam, desde a chegada dos primeiros arquitetos, os desafios de uma cidade que começava a se modernizar.

José Hissa voltou para Fortaleza em 1969 e logo ingressou, como professor da Escola de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC), depois de prestar concurso. A princípio ele se dedicou ao ensino das disciplinas de representação, sobretudo de comunicação visual. José é considerado como integrante da segunda geração de arquitetos de formação moderna atuantes no Ceará. A primeira geração é identificada como de pioneiros migrantes, que se formaram no Rio de Janeiro e em Recife e que introduziram os princípios da arquitetura moderna na cidade; alguns deles estiveram envolvidos com a fundação da escola. Para Segawa (2002) esses “arquitetos peregrinos, nômades e migrantes” cumpriram um papel fundamental na afirmação da arquitetura moderna brasileira a partir da década de 1960. A segunda geração, da qual José faz parte, se caracteriza por arquitetos mais jovens, quase todos cearenses, que se juntaram aos pioneiros e foram incorporados como professores da escola.

Francisco Hissa, conhecido entre os arquitetos como Chico, embora sendo mais jovem e só tenha ingressado na UFC em 1987, também pode ser considerado da segunda geração. Aliás, foi como professor de projeto que a carreira docente de ambos ficou marcada, pois compartilhavam suas experiências práticas com várias gerações de arquitetos.

Os irmãos afirmaram que a intenção de lecionar na universidade se deu pelo interesse em conciliar a teoria com a atividade prática, já exercida por ambos. José se aposentou em 1998 e Chico ainda continua no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, sendo responsável há anos pelo fechamento da sequência de Projeto Arquitetônico, sempre com temas e programas de alta complexidade funcional e urbana.

Com relação à atividade profissional, antes de abrir o escritório de arquitetura com o irmão, José Hissa esteve à frente de uma empresa de publicidade, a BIT – Programação Visual e Propaganda Ltda., juntamente com o cineasta Eusélio Oliveira e o publicitário Augusto Pontes. A BIT prestava serviços de produção de peças de propaganda, vídeos e marcas, e foi responsável pelas conhecidas marcas da Receita Federal e do IAB nacional – Instituto de Arquitetos do Brasil, concebida por ele, José Hissa e pelo arquiteto Ricardo Bezerra, em 1972.

Com o retorno de Chico a Fortaleza, começaram as atividades de escritório de projetos de arquitetura no início da década de 1970. Nesse período, a cidade contava com poucos arquitetos e todos militavam para que a profissão tivesse reconhecimento de empresários, construtores e da clientela em geral, uma vez que grande parte dos projetos, até a década de 1960, era elaborada por práticos, desenhistas e engenheiros.

VISTA INTERNA DO SHOPPING CENTER UM (1975)

A estrutura e a organização do escritório Nasser Hissa Arquitetos Associados, marcadas desde a sua origem por uma gestão profissional e empresarial, possibilitaram receber encomendas de projetos de porte para a clientela pública e privada. No início da década de 1980, o escritório já possuía uma equipe significativa de arquitetos e absorvia grande parte das demandas do mercado imobiliário, que se fortaleceu após a liberação da verticalização fora do centro urbano, prevista no Código de Obras de 1979. Desde então, houve grande efervescência na construção de edifícios residenciais multifamiliares, e os arquitetos Nasser Hissa foram protagonistas neste processo e responsáveis, em grande parte, pelo novo “desenho” que a capital cearense adquiriu.

Em entrevista a José Wolf na revista aU no 20, várias passagens confirmam essa consciência dos arquitetos em relação ao papel que cumpriram na mudança da relação dos profissionais com o mercado, ao afirmarem que “somos uma espécie de veículo de levar o mercado para um caminho mais adequado” (p. 61), ou ainda que “somos nós, de forma ampla, arquitetos mais empresários, que estamos fazendo o desenho da cidade” (p. 62).

Vale destacar a formação complementar que tiveram os muitos arquitetos – mais de 150, conforme depoimento de Francisco Hissa – que passaram pelo escritório desde a sua criação até os dias atuais. Esses profissionais são unânimes em afirmar o enorme aprendizado e experiência que obtiveram no que se refere à prática de projeto e às técnicas de desenho.

É reconhecida a forma pioneira de representação gráfica utilizada por eles e a importância dada à técnica. No início, os desenhos eram confeccionados a lápis – uma novidade à época -, segundo modelo já utilizado nos projetos do arquiteto carioca Paulo Casé, e era dada grande ênfase ao detalhamento arquitetônico. Essa prática tornou-se padrão por muito tempo entre os escritórios locais. O desenho a lápis foi, posteriormente, substituído pelo uso do computador, sendo o primeiro escritório da cidade a empregar a informática na representação dos projetos, método rapidamente assimilado e utilizado com eficiência pelos estagiários e arquitetos.

QUANDO A ARQUITETURA MORDERNA ERA CONTEMPORÂNEA
A arquitetura moderna em Fortaleza revelou sua expressão mais marcante na década de 1970 e no início da década de 1980, quando a cidade conheceu um processo mais intenso de modernização, em razão das práticas econômicas, políticas e culturais suscitadas pela implementação de planos governamentais na esfera estadual e pela criação de um aparato institucional alinhado à política nacional de desenvolvimento pelo viés da industrialização, preconizada desde a década de 1960 pela Sudene, com repercussões incontestáveis no processo de urbanização e modernização das estruturas urbanas e edilícias da capital cearense.

A contribuição dos irmãos Nasser Hissa à arquitetura moderna em Fortaleza pode ser compreendida dentro desse contexto. Entre os projetos do escritório, o Center Um, primeiro shopping de Fortaleza, foi inaugurado em 1974 e constitui um marco no processo de redistribuição das funções urbanas na cidade. Esse equipamento foi responsável, igualmente ao que ocorreu em outras cidades brasileiras, por induzir o surgimento de uma nova área de centralidade na cidade – quando era sintomática a decadência do centro principal, com a perda da sua vocação econômica, política e simbólica (PAIVA, 2005). O shopping, construído no eixo leste de expansão de Fortaleza desde o centro, contribuiu para o processo de consolidação da centralidade formada no bairro da Aldeota, com impactos significativos na dinâmica urbana, imobiliária, de fluxos e de verticalização de Fortaleza (DIÓGENES, 2005).

O edifício ocupa uma quadra inteira e os três pavimentos (subsolo, térreo e pavimento superior) se distribuem em um terreno com um declive de mais ou menos um pavimento. O partido se desenvolve em torno da criação de um pátio interno aberto, o que constitui uma particularidade, uma vez que é recorrente nessa tipologia soluções mais herméticas e isoladas em relação ao entorno (Figura 1).

A solução estrutural é bastante regular e modulada, que, alinhada aos princípios modernos, repercute claramente na forma do edifício, traduzida na clara definição dos elementos de suporte e de vedação. Destaque para o uso da laje-cogumelo do subsolo, uma inovação estrutural na década de 1970.

Outro projeto de destaque é o edifício da Teleceará – Centrais de Comutação e Escritórios (1982), cuja implantação se insere na estrutura fundiária tradicional do centro de Fortaleza e apresenta uma solução formal alinhada às exigências funcionais demandadas pela tecnologia empregada pela concessionária à época.

A solução final resultou em um volume prismático austero e com grande força plástica, revelando matriz notadamente modernista. Recentemente, o edifício (Figura 2) passou por transformações apenas no seu espaço interno, em razão das significativas mudanças na tecnologia da telefonia, mantendo-se de forma digna na paisagem, face da longevidade da solução formal adotada.

Os arquitetos contribuíram sobremaneira para a consolidação da tipologia do edifício multifamiliar em Fortaleza. Ainda na década de 1970, quando era proibida a construção em altura nos bairros residenciais, eles projetaram prédios de apartamento com soluções bastante adequadas às especificidades locais ambientais e às formas de morar, ao mesmo tempo que estavam de acordo com a legislação¹, que autorizava a construção de edifícios com pilotis e mais três pavimentos. Destacamse, entre outros, os prédios Água Marinha (1974), Guarani (1976) (Figura 3), Village Costa Brava (década 1970) e Berma (1979).

É comum nessas obras o uso de elementos de concreto aparente na fachada, marcando a estrutura e as varandas, além de revestimentos como cerâmica e cobogós e esquadrias de madeira tipo veneziana2, conciliando aspectos da arquitetura moderna com as condições locais, no que se refere a materiais e clima.

Com a mudança da legislação em 1979, quando foi liberada a construção de edificações em altura nos bairros, os irmãos Nasser Hissa passaram a projetar diversos edifícios verticais na cidade, tornando-se pioneiros nesse nicho de mercado e valorização imobiliária. O Edifício Veneza 1 (1980) é um exemplar emblemático na produção dos arquitetos. Localizado em um terreno de esquina no bairro do Meireles, possui um implantação que valoriza a integração entre o espaço público e o privado, dispensando o uso de muros e grades, e resolve esses limites com o recurso de desníveis. A exploração dessa interface entre a rua e o pilotis do prédio é reforçada pela introdução de uma loja no nível do térreo, voltada para o passeio, criando uma diversificação no programa.

As referências ao modernismo aparecem não apenas na utilização do concreto aparente, mas, sobretudo, no fato de que a forma se revela como expressão da estrutura e da solução funcional, ao mesmo tempo que há uma preocupação com as proporções, as escalas, os ritmos e os materiais que moldam as fachadas (Figura 4)

Em ótimo estado de conservação, o edifício recentemente cedeu aos imperativos simbólicos que permeiam a cultura da violência urbana e implantou um gradil nos limites do lote, comprometendo a solução original. De toda forma, o seu exemplo demonstra as possibilidades de um desenho diferenciado para a integração entre os domínios públicos e privado.

É importante admitir que os princípios da arquitetura moderna não se revelam na obra dos arquitetos de forma acentuada e intencional, como discurso ou manifesto. Pelo contrário. São incorporados para atender e solucionar problemas pragmáticos, funcionais, estruturais e construtivos. O concreto aparente em algumas obras foi utilizado para buscar aderência ao que estava em voga nos anos 1970 e início dos 1980, já que se tratava de uma tendência predominante no âmbito da arquitetura moderna brasileira.

VISTA DA TELECEARÁ – CENTRAIS DE COMUTAÇÃO E ESCRITÓRIOS (1982)
EDIFÍCIO GUARANI (1976)
EDIFÍCIO LIDO (1985)

DA ARQUITETURA MODERNA À CONTEMPORÂNEA
Ao longo dos anos 1980, a arquitetura em Fortaleza experimentou um processo de transição, em que coexistem persistências do modernismo arquitetônico e se insinuam, sobretudo a partir da segunda metade da década, as primeiras influências e atitudes pósmodernas. É evidente que esses limites não são nítidos, mas pode-se afirmar que a publicação do Panorama da Arquitetura Cearense, em 1982, constitui um marco que define “um recorte”, uma periodização da arquitetura moderna em Fortaleza (PAIVA e DIÓGENES, 2014). A publicação editada pela Revista Projeto, em dois volumes, traz um apanhado de obras de diversos arquitetos cearenses, inclusive dos irmãos Nasser Hissa, nas quais é patente a centelha moderna.

A partir da década de 1990, o escritório começa a absorver mais efetivamente as influências das tendências pós-modernas internacionais, que são adaptadas às práticas correntes. Essa época coincide com uma intensa atividade do escritório

EDIFÍCIO VENEZA IV (1988)

em razão das demandas crescentes do mercado imobiliário, incrementado pela verticalização, além da concepção de um número significativo de novas tipologias. Desde então, é perceptível no conjunto da obra dos arquitetos o abandono do uso do concreto aparente em detrimento da utilização de revestimentos cerâmicos, apropriados por meio de cores e grafismos como elementos plásticos. Tal atitude indica uma maior liberdade formal e o recurso de soluções diversificadas, postura mais alinhada, assim, à linguagem pós-moderna, que é incorporada sem excessos à atividade projetual dos arquitetos.

Desde a década de 1990, o Escritório Nasser Hissa se consolida como o maior e mais importante de Fortaleza, acolhendo as mudanças do mercado da construção civil local e adaptando-se às transformações tecnológicas e de linguagem do heterogêneo panorama da arquitetura contemporânea. Assim como na época em que o modernismo era hegemônico, atualmente os arquitetos mantêm princípios que estão materializados na sua vasta experiência prática de projeto, para além de rótulos e preconceitos.

CONDOMÍNIO MUCURIPE PLAZA (2002)

Dentre as tipologias concebidas pelos arquitetos, os edifícios residenciais multifamiliares são, até hoje, a marca principal do escritório, respondendo pelo maior número de projetos elaborados. Grande parte dos edifícios projetados foi erguida no Meireles e na Av. Beira-Mar – área residencial mais nobre da cidade – e marca, pela altura3, pela imponência e pelas formas, o desenho da orla fortalezense. Entre esses, destacam-se o Edifício Lido (1985), na Praia de Iracema, um dos primeiros edifícios altos da faixa litorânea (Figura 5), com 18 pavimentos e apartamentos de 280 m², e o Edifício Veneza IV (1988), torre única em terreno de esquina, com grande pano de vidro e um jogo de varandas inclinadas projetadas para o mar (Figura 6). Em 2002, foi erguido o Condomínio Mucuripe Plaza, situado na enseada do Mucuripe, com duas torres residenciais gêmeas (apartamentos de 320 m²), marcadas pelas curvas da varanda em balanço, solução recorrente e adequada ao clima local (Figura 7), só para citar os exemplos mais emblemáticos.

EDIFÍCIO VENEZA 1 (1980)

Os arquitetos conceberam edifícios que abrigam importantes sedes empresariais na cidade, como a do Grupo Edson Queiroz (1984) (Figura 8), no bairro Dionísio Torres, que constou de projeto de reforma e ampliação dos antigos estúdios da TV Verdes Mares; o Centro Empresarial Clóvis Rolim (1984), resultado de concurso privado, um dos últimos edifícios comerciais altos construídos na zona central de Fortaleza, que apresenta proposta mais formalista, diferenciada em relação às torres comerciais modernas da vizinhança, com escalonamentos dos pavimentos, terraços ajardinados nos pisos mais altos e a disposição irregular das salas (Figura 9).

SEDE DO GRUPO EDSON QUEIROZ (1984)

Pode-se destacar ainda a sede administrativa da Ypióca4 (2000), no bairro da Messejana. A edificação tem desenho arrojado, com formas ousadas e se sobressai5 em meio às edificações do entorno, sobretudo pelos volumes diferenciados, concebidos na proposta: o cilindro – de forma inspirada nos tonéis de madeira utilizados para a fermentação de aguardentes – e o prisma triangular, marcado pela alternância de cheios e vazios (Figura 10).

SEDE ADMINISTRATIVA DA YPIÓCA (2000)
CENTRO EMPRESARIAL CLÓVIS ROLIM (1984)

Atendendo ainda às solicitações do empresariado local e do mercado imobiliário, o escritório projetou importantes torres empresariais, como o Complexo Empresarial São Mateus (2004), agregando no programa salas comerciais e consultórios a um hospital existente, reforçando o caráter híbrido do conjunto (Figura 11). As duas torres gêmeas expressam austeridade por meio da simplificação da forma e dos materiais de revestimento empregados. Incorporando as demandas por edifícios sustentáveis e obedecendo às certificações que os qualificam, os arquitetos propuseram o LC Corporate (2013), uma torre de curvilínea (Figura 12) que permite a formação de uma generosa área pública no lote, ao nível da rua, e proporciona visuais do interior das salas para o mar.

Com o incremento do turismo por parte do governo do estado do Ceará, a implementação de políticas públicas e a associação da atividade com o mercado imobiliário, o escritório

COMPLEXO EMPRESARIAL SÃO MATEUS (2004)

passou a projetar diversas tipologias arquitetônicas relacionadas ao turismo, como hotéis, resorts e empreendimentos turístico-imobiliários, sobretudo na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Nesse cenário, se destacam o Hotel Gran Marquise (1986), que se vale nitidamente de artifícios estéticos pós-modernos para valorizar a fachada voltada para a Avenida Beira-Mar, e o Hotel Luzeiros Fortaleza (1996), com um homônimo em São Luiz (2004), também localizado na orla e onde se verifica uma maior adequação ao lugar, visível no uso de varandas nos quartos (Figura 13).

Ainda em relação ao desenvolvimento do turismo, o escritório passa a abrigar uma clientela internacional de investidores de redes de hotéis e resorts, na sua maioria portugueses e espanhóis, atraídos pelas oportunidades de negócios e incentivos fiscais e financeiros do estado, embora essa demanda tenha arrefecido após a crise de 2008. Nesse contexto, o Hotel Dom Pedro Laguna, no Complexo Aquiraz Riviera, localizado no litoral leste da RMF, e o Hotel Vila Galé, no Complexo Cumbuco Golf Village, localizado na Costa do Sol Poente, são os mais emblemáticos. Malgrado as contradições inerentes a esses “enclaves fortificados”, o projeto faz referências à cultura arquitetônica local por meio da utilização de materiais tradicionais, como a coberta com madeiramento e telha cerâmica, além de

LC CORPORATE (2013)

soluções adequadas ao clima (Figura 14).

No processo de modernização e construção da imagem turística de Fortaleza, os irmãos Nasser Hissa participaram de dois concursos públicos de arquitetura, o de Revitalização do Centro de Fortaleza (1999), quando ficaram em segundo lugar, e o do Ícone de Fortaleza6, no mesmo ano, Vquando foram vencedores. Nas duas propostas evidencia-se a criação de espaços públicos significativos, em que as formas arquitetônicas têm um protagonismo evidente.

No fim da década de 1990, o escritório se envolveu com a produção de vários planos diretores de cidades do Ceará, com destaque para o plano diretor de Maracanaú, município de vocação industrial da RMF, que demonstra um portfólio variado no campo da arquitetura e do urbanismo.

DO LEGADO À ARQUITETURA E À CIDADE

HOTEL LUZEIROS FORTALEZA (1996)

O trabalho dos irmãos José e Francisco Nasser Hissa pode ser considerado uma referência importante para o desenvolvimento da arquitetura cearense7, ao contribuir de forma relevante para a difusão e consolidação do modernismo arquitetônico em nosso meio. Uma maior consciência por parte dos arquitetos para o emprego de princípios modernos em seus projetos até início da década de 1980 só foi possível, segundo eles, com o início do debate em torno do pós-modernismo. Desde então, passaram a incorporar novas influências aos seus projetos, sem necessariamente abandonar o compromisso com aspectos técnicos e os seus desdobramentos no projeto de arquitetura.

Ao longo da década de 1980, o escritório testemunhou dois importante processos de transição. O primeiro, no que diz respeito à continuidade e às rupturas do modernismo frente às influências pós-modernas, e o segundo, em relação à incorporação do desenho assistido por computador, método que o tornou pioneiro em Fortaleza, quiçá no Brasil, uma vez que foi o primeiro a comprar uma licença do Autocad em todo o país, abandonando sistematicamente o desenho a mão. Some-se a isso as transformações ocorridas na cidade no que se refere ao processo de verticalização, que incrementou sobremaneira a quantidade de projetos desenvolvidos. A atividade dos arquitetos se mantém intensa e sua produção é bastante significativa. Suas contribuições relacionadas à arquitetura contemporânea são igualmente de grande relevância para reflexão da arquitetura produzida no Ceará.

HOTEL VILA GALÉ
PROJETO PARA O CONCURSO DE REVITALIZAÇÃO DO CENTRO DE FORTALEZA (1999) EM PARCERIA COM O ARQUITETO ROBERTO MARTINS CASTELO

A herança deixada pelos arquitetos transcende à sua obra, pois influenciou de maneira decisiva a escolha da profissão da família: duas filhas de José Hissa (Ticiana e Márcia), uma filha de Chico (Marina) e um sobrinho (Paulo) também abraçaram a carreira e compõem a equipe do escritório Nasser Hissa.

É importante salientar, por outro lado, o legado como professores de várias gerações de arquitetos formados no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC e a importância de sua produção no contexto da cidade, pela atividade prática do escritório, pelo volume de projetos realizados e pelas inovações introduzidas no conjunto da obra. A atuação dos irmãos Nasser Hissa propiciou, incontestavelmente, uma nova feição ao desenho da cidade formal.

PROJETO PARA CONCURSO DO ÍCONE DE FORTALEZA (1999)

BIBLIOGRAFIA

BASTOS, Maria Alice Junqueira. Pós-Brasília: Rumos da Arquitetura Brasileira. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2003.
DIÓGENES, Beatriz H.N. A centralidade da Aldeota como expressão da dinâmica intra-urbana de Fortaleza. Dissertação (Mestrado). FAUUSP, São Paulo, 2005.
HISSA, F.; HISSA, J. Nasser Hissa Arquitetos Associados – 40 Anos. Fortaleza, J.J. Carol, 2016.
PAIVA, Ricardo Alexandre; DIÓGENES, B. H. (Org.). Pequeno Guia da Arquitetura Moderna de Fortaleza (1960-1982) Momotur – 5o Seminário
DOCOMOMO Norte/Nordeste. 1a ed. Fortaleza: Departamento de Arquitetura e Urbanismo – UFC/Expressão Gráfica, 2014. v. 1. 118p.
PAIVA, Ricardo Alexandre. Entre o Mar e o Sertão: Paisagem e Memória no Centro de Fortaleza. Dissertação de Mestrado. FAUUSP. São Paulo, 2005.
PONCE DE LEON, Delberg; NEVES, Nelson Serra e; LIMA NETO, Otacílio (Orgs). Panorama da Arquitetura Cearense – Cadernos Brasileiros de Arquitetura. Vol. 1 e 2. São Paulo: Projeto Editores Associados Ltda., 1982.
REVISTA AU (Arquitetura e Urbanismo). A nível da realidade. v. 20, p. 60-4, Out/Nov 1988.
SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil 1900-1990. São Paulo. Edusp, 2002.
VILLAÇA, Flávio. Espaço Intra-Urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel, 1998.

Agradecimentos

Aos arquitetos José Nasser Hissa e Francisco Nasser Hissa, pelas entrevistas concedidas aos autores em outubro de 2015, e às arquitetas Márcia Gadelha Cavalcante e Marina Cavalcante Hissa, pelas imagens cedidas.

aU Educação

O que algumas cidades estão fazendo para alcançar a mobilidade urbana sustentável

MARCOS VINÍCIUS BIGOLIN
do curso de engenharia civil do Centro Universitário Univates, em Lajeado (RS)

LUÃ CARNEIRO
do curso de engenharia civil do Centro Universitário Univates, em Lajeado (RS)


INTRODUÇÃO

A implantação de medidas e procedimentos que contribuam para a sustentabilidade em áreas urbanas tem reforçado a preocupação com o desenvolvimento sustentável em diferentes setores. A mobilidade urbana sustentável tem relação com os transportes e se dá por meio de uma busca pelo melhor conceito de desenvolvimento sustentável, visando a estratégias dentro de uma visão conjunta das questões econômicas, sociais e ambientais. O presente artigo científico tem como objetivo principal fazer uma revisão sobre o tema, buscando todas as informações necessárias para que seja possível fazer uma avaliação sobre a questão da mobilidade urbana sustentável.

Como resultado de uma política urbana falha e da inexistência de sistemas que planejem e ordenem as atividades desenvolvidas por sistemas de transporte e circulação, entram na contestação o comprometimento com a mobilidade, acessibilidade e sustentabilidade urbana. Portando, a elaboração de políticas públicas que atuem em conjunto com o planejamento urbano e de transportes deve se atentar para garantir melhores condições à população em seus deslocamentos, além de oferecer eficiência e segurança por meio de uma mobilidade urbana sustentável.

No intuito de encontrar soluções que atendam às necessidades de deslocação das pessoas nas áreas urbanas e estimular e reforçar a integração entre os diferentes modos de transporte deve ser avaliado principalmente os impactos das atividades humanas, tanto para a atual geração quanto para as futuras, numa perspectiva ambiental, de coesão social e de desenvolvimento econômico.