Composição de fotogramas | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Composição de fotogramas

José Wolf
Edição 99 - Outubro/2001

O projeto que levou dez anos para ser concretizado se tornou o predileto do autor, que buscou no mestre finlandês Alvar Aalto inspiração para o trabalho
Um bom projeto de arquitetura eqüivale, muitas vezes, a um bom filme, com espaços que se assemelham a fotogramas impregnados de surpresas, capazes de provocar emoção. Sob esse ponto de vista, o projeto de Sérgio Teperman é quase perfeito, como seria um filme de Claude Lelouch, um documentário de Joris Ivens ou um filme de ficção científica de Steven Spielberg, cineastas que Teperman admira. Ao percorrer o Centro Cultural Alumni, em São Paulo, o visitante pode se surpreender, a cada instante, com uma solução construtiva, um detalhe de acabamento ou arranjo espacial, que despertam a curiosidade e a atenção do olhar.

A primeira surpresa são as fachadas externas recortadas e revestidas com tijolos cerâmicos, cuja "massa plástica" avermelhada remete a projetos clássicos, como o Instituto de Pensões ou o Instituto de Tecnologia, em Helsinque, do mestre finlandês Alvar Aalto, com quem Teperman trabalhou por mais de dois anos. É preciso mencionar também o jardim interno, que explode atrás das janelas envidraçadas, e o anfiteatro, que surge, de repente, ao se abrir uma porta em um pátio do edifício, imprimindo um toque de aconchego ao conjunto.

A seguir, são os corredores diagonais, que se organizam de forma ortogonal, com recortes em ziguezague, que quebram a monotonia das circulações internas. O hall de entrada, com pé-direito triplo, aglutina as circulações, funcionando como uma praça comunitária para eventos e encontros, junto ao restaurante e ao auditório. A clarabóia, assim como a cobertura formada por oito pirâmides de vidro dispostas sobre o jardim, abre passagem para a iluminação natural que se espalha por todo o recinto, resultando numa atmosfera suave de amplitude e bem-estar.

O programa, basicamente, se distribuiu em quatro setores de vivência e administração: o acadêmico, que reúne as salas de aulas e o laboratório de línguas; o administrativo, que abriga os escritórios; o cultural e o de serviços, que inclui, entre outros equipamentos, um auditório para conferências e shows, uma megabiblioteca e um restaurante aberto ao público.

O auditório, com capacidade para 150 pessoas, mereceu cuidados especiais para atender aos requisitos da performance acústica. Além do revestimento das paredes com placas de madeira, o forro, à semelhança de projetos de Alvar Aalto, também de madeira, apresenta a forma ondulada para diluir a reverberação. Um lance de escada conduz ao subsolo, onde estão os camarins.


Sem ostentação
O edifício, num terreno de esquina de 2.400 m², na antiga chácara Santo Antônio, próximo à Marginal Pinheiros, se destaca, com elegância e sobriedade, numa região "meio fora de mão" marcada por um cenário disperso de galpões industriais, edifícios de escritórios de alto padrão, casas de blocos de cimento, eucaliptos e outdoors coloridos.

Diante de todos os desafios, o arquiteto pesquisou a solução que correspondesse ao que o cliente desejava. E, neste caso, queria "um edifício expressivo, mas que não fosse ostensivo". O arquiteto, então, procurou criar algo com o espírito dos colleges norte-americanos. Com pátios e corredores comunicantes, fluidos, que agradassem os futuros usuários. Além disso, Teperman aproveitou a chance para homenagear o velho mestre, resgatando lições que enriqueceram o aprendizado do jovem aprendiz. Uma das lições: cada trabalho de arquitetura é diferente, portanto as soluções para os problemas não podem ser estereotipadas, mas diversificadas.

"A intenção, neste projeto, foi tentar captar o "espírito" da arquitetura de Alvar Aalto, o que é muito difícil. "Não basta o conforto térmico, mas um espaço em que o usuário possa se sentir em casa", ressalta Sergio Teperman ao lembrar que, para o velho mestre, o ser humano deve ser o centro de todo projeto de arquitetura.

O sistema construtivo não fugiu do tradicional: estruturas de concreto moldadas in loco. Quanto aos materiais, uma história à parte. "Quando você cria espaços dinâmicos, movimentados, como acontece aqui, é aconselhável reduzir o número de materiais", acrescenta Teperman, que utilizou tijolos aparentes para garantir a unidade formal e a beleza estética do conjunto e, também, para facilitar os serviços de limpeza e manutenção.

Devido às circunstâncias econômicas, detalhes mais sofisticados, como os acabamentos em alumínio do forro, a cerâmica do piso e o design das maçanetas e dos corrimãos, foram deixados de lado. Segundo Teperman, a substituição dos materiais não alterou, contudo, a essência do projeto. Com 6 mil m² de área construída, o edifício "vale pela excelência e qualidade dos espaços internos", afirma o arquiteto, satisfeito com o resultado final. Para ele, trata-se de seu "projeto preferido", entre tantos trabalhos que realizou para a área de telecomunicações ou para o Sesc e o Senai.

O depoimento de funcionários e visitantes confirma o resultado feliz. Um projeto, "com alma e sentimento", que envolve os sentidos. "O sexto, principalmente", completa Teperman, com humor.








Ao mestre com carinho

Escambo de terreno com troco, Alvar Aalto, motéis, executivos, o juiz da suprema corte norte-americana e o Centro Cultural Alumni

A Alumni é uma associação única no mundo, fundada e dirigida por ex-alunos brasileiros de universidades americanas, uma grande entidade cultural, muito conhecida também por seus excelentes cursos de inglês, orientação a bolsistas e por uma variedade de atividades de todos os tipos.

Depois de nos consultar por vários anos sobre locais para implantar sua sede, seus diretores nos solicitaram que encontrássemos nós mesmos o "seu terreno" em Santo Amaro. Encontramos o local, e o que a Alumni desejava era simplesmente trocá-lo por outro de sua propriedade no Morumbi, de muito maior valor, e receber o troco! E não é que, por incrível que pareça, o negócio deu certo? A área que encontramos pertencia à Construtora Dumez, que aceitou trocá-la pelo terreno do Morumbi, onde construiu um prédio de apartamentos. O "troco" foi pago à Alumni na forma da execução de parte do Centro Cultural. Um entendimento sui generis.

Ao longo da década, a região onde se situa a Alumni transformou-se na grande área empresarial e corporativa da cidade, uma fonte enorme de alunos e freqüentadores de seus cursos e atividades, confirmando a decisão, na época arriscada, da escolha do local. Mas já na fase da compra, um executivo expressou sua satisfação pela escolha de modo bastante sugestivo: "local maravilhoso, ao lado de uma academia de tênis e dos motéis!".

O projeto, iniciado em 1988, teve a obra finalmente terminada em 2000, antes que o século acabasse.

O nome Centro Cultural Alumni, por nós sugerido, e aceito pelos clientes para a sede em Santo Amaro, talvez hoje pudesse ser The Saint Bitter's Cathedral. Planos e mais planos econômicos provocaram uma enorme dilatação dos prazos da obra e uma severíssima restrição e troca de materiais e de detalhes internos de acabamento.

Com o prédio concluído e em pleno funcionamento, tudo isso para nós não tem a menor importância desde o dia em que Wynton Marsalis tocou no seu auditório e gostou da acústica. Nossa homenagem ao mestre Aalto, um gênio intuitivo da acústica (e muito mais do que isso, da arquitetura), estava completa.


Pode existir algum lugar mais distante (em todos os aspectos) do Brasil do que a Escandinávia? No entanto, a universalidade da arquitetura de Alvar Aalto e a clarividência de nossos clientes nos permitiram fazer no Trópico de Capricórnio uma arquitetura do Círculo Polar Ártico, sem com isso colocar um unicórnio no jardim, porque de qualquer forma, não existe uma arquitetura típica de São Paulo.

A cada edifício "a sua cara", e não a cara do arquiteto, é o que pensamos no escritório: assim como São Paulo, não temos um "estilo". Na verdade esse era o lema de outro filho de finlandeses: o americano Eero Saarinen, que também admiramos.

A possibilidade de "copiar" Aalto por uma vez (melhor uma boa cópia do que uma "malcriação") surgiu da flexibilidade do programa, do desejo do cliente de obter espaços incomuns e, do ponto de vista dos materiais, de lembrar os colleges americanos, com seus pátios de tijolinhos aparentes. Recordamo-nos dos projetos do Instituto Tecnológico de Helsinki, para os quais fiz alguns desenhos e, especialmente, de seu anfiteatro ao ar livre, construído no teto do auditório.

Essa solução foi repetida no Centro Cultural Alumni, bem como o forro do auditório, as pirâmides de iluminação do hall e vários outros detalhes que, somados à característica brasileira de fluidez dos espaços, conferiram ao edifício realmente um Aalto Astral.

Em tantos anos de profissão, é o nosso projeto preferido, e acredito que dos clientes também. Ao apresentarmos o anteprojeto pela primeira vez aos diretores da associação, ao embaixador dos Estados Unidos e ao juiz da corte suprema dos Estados Unidos, Antonin Scalia (o juiz que resolveu a questão da liberdade de expressão em favor de Larry Flynt), recebemos o seguinte comentário: "This is not a building, it's a landmark" - ou, "Isto não é um edifício, é um monumento".

Presume-se que uma afirmação partida de um juiz da corte suprema dos Estados Unidos tenha uma parte de verdade. Por exemplo "isto não é um edifício".

Sérgio Teperman



Entrevista: Sergio Teperman


O senhor ficou conhecido pelo seu humor, em especial ao assinar a seção Espaço de Sobra, publicada em AU por um longo período. Haveria, hoje, motivos para humor na arquitetura?
A não ser que seja um projeto temporário. Não que a arquitetura deva ser mal-humorada, mas não é possível fazer uma brincadeira que dure 50 anos!

Qual sua opinião sobre a arquitetura brasileira atual? Estaria em evolução?
Evolução ou "in-volução"? À semelhança da música, a arquitetura brasileira já atravessou um período sensacional, nos anos 40 e 50, que eu chamaria arquitetura carioca... Até no futebol já não somos os melhores!

As causas?
Antes de tudo, a grande massa do que se produz é arquitetura de prédio residencial e alguns escritórios. Mas, se você observar, a produção do Rio e de Salvador é bem melhor que a de São Paulo. Nessas duas cidades existe uma questão cultural. Em São Paulo, tudo é o dinheiro do novo rico, que pede um prédio estilo neoclássico ou mediterrâneo... Não sou contra, mas é necessário fazer bem, como fez Ricardo Bofill.

Como vê a "invasão" de escritórios estrangeiros no Brasil?
Os arquitetos estrangeiros têm todo o direito de trabalhar aqui...desde que a gente tenha o mesmo direito para projetar em outros países, também! J.W.
Dados técnicos
Projeto: Centro Cultural Alumni, São Paulo
Cliente: Associação Alumni
Área do terreno: 2.400 m²
Área construída: 6 mil m²
Data do projeto: 1988
Conclusão da obra: 2000

Ficha técnica
Projetos de arquitetura e paisagismo (coordenação geral): Sergio Teperman Arquitetos
Arquitetos colaboradores: Gabriela Proto (paisagismo), Koichi Shidara (coordenador), Marcio Mazza e Susete Taborda (interiores).
Construção: Construtora Dumez (1a fase) e Construtora Ciampolini Rocco (2a fase)
Gerenciamento: Julião Rocco Comercial e Construtora
Estrutura: Escritório Técnico César Pereira Lopes
Fundações: MAG Projesolos
Ar-condicionado: Arcoplan Planejamento Térmico

Fornecedores
Instalações hidráulicas e elétricas: Race Engenharia e Montagens; elevadores: Atlas; pintura: Basso Pinturas; pisos de madeira: Recoma; cozinhas: Satierf; caixilhos de ferro: Serralheria Hawaí

Veja também

aU - Arquitetura e Urbanismo :: aU Educação :: ed 244 - Julho de 2014

TCU de Alagoas, de João Filgueiras Lima, Lelé