Calor simbólico | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Calor simbólico

Edição 92 - Outubro/2000
Oscar Corbella
é doutor em física, professor-titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do CNPq

Maria Amalia Magalhães
é doutora em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, professora-adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora do ensino de graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ
Os arquitetos latino-americanos que lidam com conforto ambiental ainda não se livraram da visão européia
Numa obra executada com conceitos errados, fica difícil resolver os problemas sem aumentar muito o consumo de energia elétrica em ventilação mecânica ou ar-condicionado. Era de se esperar que, com a educação sistemática nos cursos de graduação em arquitetura, esse problema diminuísse a partir dos primeiros esboços de um projeto, pois o arquiteto precisa se conscientizar dos resultados que pode atingir quando se trata de conforto térmico e visual.

Quando se pensa na relação entre a arquitetura e o clima, no entanto, percebe-se que tanto os conceitos técnicos, como as sensações, assim como as percepções e os pensamentos, no que se refere ao lugar para morar, são diferentes. É interessante observar como a idéia de moradia difere para os habitantes dos trópicos e para os europeus. No português do Brasil as palavras lar e lareira não têm conotações similares, como têm em Portugal. Lar é o espaço onde se mora e lareira é um artefato usado em algumas regiões durante um período curto do ano com baixas temperaturas para aquecer um ambiente habitável.

A idéia de habitação como sinônimo de lugar quente tende a ser rejeitada pelos habitantes dos trópicos. O desenvolvimento da arquitetura bioclimática por aqui, nos países tropicais, porém, ainda não é suficiente para que se represente a habitação como um lugar fresco. As moradias das classes média e baixa são muito quentes, sem que o arquiteto tenha consciência de que pode resolver esse problema, ao menos em parte, sem a necessidade de aumentar o custo da obra. Muitas vezes, a associação entre habitação e lugar quente não aparece como uma coisa desejável mas como um problema a enfrentar.

Janela é outra palavra que não tem o mesmo significado para os europeus e para os habitantes dos trópicos. Nos países frios, a janela surgiu como um buraco na parede, ou para que saísse a fumaça do fogo interno ou para que entrasse ar, caso a fumaça saísse pelo telhado, ou para ver o inimigo através de uma parede cega ou por outras razões. Pode-se afirmar, com certeza, porém, que sempre havia um mecanismo para fechar esse buraco para a proteção contra os inimigos ou os ventos gelados.

Com o emprego do vidro, a janela pôde ser ampliada para fazer entrar a luz, o que permitiu o fantástico descobrimento da iluminação natural dos espaços internos. Mas, como o vidro era frágil, do ponto de vista da segurança, foram inventados os postigos externos e as portas robustas com enormes gonzos e trancas. A fim de que esses pudessem ser manejados a partir do interior, os vidros foram colocados sobre folhas móveis, com outros gonzos e, tudo isso, num caixilho, que também devia ser robusto e bem fixo na parede.

Ainda restava o problema do vento gelado que se infiltrava pelas frestas, exigindo uma articulação entre os componentes da janela, tarefa para um artesão de alto nível. A janela oferecia uma resistência menor à passagem do frio do que o resto da parede e, com isso, surgiram as cortinas. Essas eram pesadas ou leves, de acordo com a função de deixar passar mais ou menos luz. Foram incorporadas, também, outras partes móveis nas folhas das janelas ou dos postigos: vidros duplos, vidros coloridos, vidros absorventes ou reflexivos.

Na América Latina tropical, por outro lado, a moradia do índio era construída com vegetais, e não tinha janelas, por serem as paredes permeáveis para deixar passar o vento. A ventilação produzida pela entrada do vento renovava a camada de ar vizinha da pele, saturada de umidade, fornecendo uma sensação térmica de frescura, apesar das altas temperaturas do verão tropical.


A arquitetura vinda de fora, portanto, não se adaptava ao clima tropical. O vidro, que não se produzia aqui, era caro e desnecessário; por isso, as janelas foram simplificadas, deixando de ter vidros. Restavam, ainda, dois problemas arquitetônicos: o da localização das janelas e o do ingresso de energia solar pela janela que se transforma em calor no interior da habitação, aumentando a temperatura do ar.

O problema da localização das janelas, no entanto, no sentido de se produzir uma corrente de ar cruzada e, ao mesmo tempo, benéfica, não foi resolvido até hoje. A incorporação dos conceitos de mecânica dos fluidos na formação do arquiteto não tem sido bem-sucedida e as soluções obtidas resultaram mais da sensibilidade do arquiteto, do acaso ou da coincidência, do que da aplicação da teoria ou do cálculo.

Já o problema dos pára-sóis foi mais bem-resolvido, talvez por ser de menor complexidade. O uso de venezianas, muxarabis, brise-soleils, marquises, toldos, beirais e de todo tipo de proteção para fachadas ensolaradas permitiu a utilização de janelas mais amplas, favorecendo a renovação do ar interno e a ventilação. Em suma, as janelas representam, para os tropicais, um buraco, quase sempre retangular, que deve ser protegido da entrada do sol e da chuva, e quanto mais frestas apresentar o fechamento, melhor, por facilitar a ventilação. Desse modo, aqui, para o habitante dos trópicos, a janela é um elemento simples, fácil, corriqueiro, cuja função é permitir a comunicação visual e a entrada de luz e vento, ao contrário do que é para o europeu, um elemento complexo e especializado.

Entretanto, o arquiteto que interiorizou o conceito de janela como uma coisa simples, ainda que determine que o edifício contará com ar-condicionado central, não tomará precaução alguma para melhorar a qualidade das janelas. Muito menos pensará em utilizar vidros duplos ou colocará isolante térmico nas paredes. Ele não levará em conta que as frestas das janelas, muitas vezes, convertem-se em fontes de calor e sumidouros de energia e dinheiro.

O uso das janelas, entretanto, é também distinto nas zonas de clima tropical e de clima frio. Na Europa, as janelas dos quartos de dormir são abertas pela manhã, com a finalidade de renovação do ar viciado, de retirada do pó, de limpeza, de agitação dos elementos do quarto, e para a entrada do ar matinal, aquecido pelo sol. A importação da cultura européia, internalizada quase em nível genético, faz com que, na América tropical, repita-se o mesmo procedimento, acarretando, aqui, o efeito contrário. Nos trópicos, as janelas devem permanecer fechadas durante o dia e ser abertas à noite, para se promover a ventilação interna sem a incorporação de calor ao edifício.

O problema da luz natural representa outra diferença. Na Europa, há a necessidade de janelas grandes devido à pouca luz da abóbada celeste. As grandes janelas também servem como calefatores, pois comportam-se como estufas. Nos trópicos, o problema é outro: consiste em como deixar passar mais luz, sem que isso implique o ingresso de calor. Se a temperatura interna, no caso, se elevar acima das condições de conforto, o ar deverá ser movimentado por meio de ventiladores.


O comportamento das pessoas frente à sensação de frio e calor nos ambientes interno e externo também é oposto. Numa casa com calefação na Europa, as pessoas usam pouca roupa e, ao sair, cobrem-se com muitos casacos para poder resistir ao frio no exterior. Numa casa com refrigeração excessiva num país tropical, ao contrário, as pessoas usam algum abrigo e, ao sair de casa, tiram o abrigo para poder enfrentar o calor.

A grande difusão do carro nos últimos anos transformou o veículo numa espécie de segunda roupa. Na Europa, com o ambiente aquecido dentro de casa, pode-se usar roupas leves. Para sair, pode-se dispensar o sobretudo e passar do ambiente interno à garagem apenas com um abrigo leve. Dentro do carro, em poucos minutos se terá um ambiente aquecido, idêntico ao da casa. Nos trópicos, inversamente, até em dias de muito calor, pode-se usar terno durante todo o dia, pois, saindo do ambiente refrigerado da casa, passa-se ao ambiente refrigerado do automóvel e, desse, ao ambiente refrigerado do escritório. Assim, nos países frios e ricos e também nos países tropicais - para a população que pode dispor de ambientes refrigerados - existe uma tendência a se viver em ambientes artificiais.

Os ambientes aquecidos em excesso, nos países frios, e os ambientes refrigerados, nos países quentes, fazem com que as pessoas ignorem as temperaturas externas e passem a se vestir de acordo com a temperatura que determinam para o ambiente onde vão permanecer. Consegue-se dessa maneira, aumentar o desconforto das pessoas com maior custo de investimento (maior potência do sistema de ar-condicionado) e maior gasto mensal com a conta de energia elétrica.

Ao mesmo tempo, aparece uma dificuldade para lidar com variações climáticas diferentes das habituais. Em lugares frios, por exemplo, todos os cuidados são para evitar que se perca calor do ambiente interno, o que acirra a preocupação com os sistemas para vedar as aberturas, deixando-se a ventilação dos ambientes para um segundo plano. Quando ocorre uma elevação da temperatura a níveis incomuns, os ambientes tornam-se desconfortáveis. O mesmo ocorre nos trópicos, onde as temperaturas são mais elevadas e não há a preocupação com a vedação das aberturas: quando ocorre uma baixa de temperatura a níveis fora dos usuais, os ambientes tornam-se desconfortáveis, devido à dificuldade em se manter o isolamento da temperatura externa. Chega-se ao extremo de se sentir mais frio em lugares que são quentes e mais calor em lugares que são frios, o que compromete a qualidade arquitetônica desses espaços.

Na Europa, as pessoas saem para tomar sol nas praças quando o tempo abre no inverno e aparece um sol tímido. Por isso, não querem nenhuma árvore intermediária, nenhum obstáculo, nada que oculte o sol. Nos trópicos, dá para imaginar meninos brincando, casais de adolescentes namorando e aposentados lendo o jornal ou jogando baralho debaixo do sol de verão, às dez horas da manhã, numa praça sem árvores ou outro tipo de proteção? É evidente que a concepção do ambiente externo, ambiente intermediário entre o espaço da residência e os espaços limitados pelas construções, também merece um tratamento diferente nos trópicos e na Europa. Mas os arquitetos do trópico não são informados desses fatos e nem sempre estudam o problema.

Isso parece indicar que o ensino tradicional da arquitetura nos países tropicais está em crise. Os conteúdos das disciplinas oferecidas não refletem a integração necessária entre a arquitetura e o meio ambiente local, no sentido mais amplo do termo meio ambiente, que inclui o clima, a paisagem, a história, nem refletem a psicologia dos habitantes locais. Os arquitetos copiam soluções sem saber o porquê dessas soluções. Enfocam uma estética formal e se esquecem de interferir para tornar o ambiente confortável. Por isso, no Brasil, seria interessante refocalizar o ensino da arquitetura, para incorporar as tecnologias desenvolvidas nas últimas décadas.



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