Triunfos palacianos | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Triunfos palacianos

Edição 88 - Fevereiro/2000
A recuperação do Palazzo Abatellis, considerada pelos críticos como um dos pontos altos da prática projetual museográfica do mestre veneziano falecido em 1978, representa um exemplo da visão lírica e criativa de Carlo Scarpa. Construído como residência nobiliárquica para o cavaleiro Francesco Abatellis ou Patella, governador do reino da Sicília, o palácio situa-se em uma das principais ruas do centro histórico de Palermo e a edificação, datada de 1490, traz a marca do arquiteto siciliano Matteo Carnelivari.
O edifício, de planta semi-retangular, desenvolve-se em dois níveis em torno de um pátio central caracterizado pela presença de duas escadas descobertas, dispostas na diagonal sul-norte e por um magnífico pórtico com dois estilos de arcos na fachada sul-oeste. A composição geral, considerada como gótico-catalã pelo desenho rústico do portal de entrada, se enquadra entre as duas torres da fachada principal, com uma ornamentação leve e refinada dos trifórios do primeiro andar. Também pelo elegante pórtico suspenso de cinco arcos do pátio central.
A linguagem poética de Carnelivari sintetiza a influência da arquitetura islâmica e da dominação espanhola na Sicília, presente nas plantas e na decoração do Palazzo Abatellis, antecipando, no rigor da composição, as abstrações lógicas da arquitetura renascentista. O prédio, usado nos sucessivos séculos como convento monástico, ficou comprometido devido aos bombardeios aliados do último conflito mundial. Após um primeiro restauro pela Superintendência Regional aos Monumentos, o palácio foi entregue a Carlo Scarpa, em 1953, para que completasse a restauração e organizasse uma exposição de obras de arte medieval e moderna da Galeria Regional da Sicília.
No projeto do Palazzo Abatellis, a atenção de Scarpa se fixou no objeto isolado em exposição e no edifício que o contém. A organização geral da intervenção, que coloca as obras escultóricas no térreo e as obras pictóricas no primeiro andar, apresenta algumas lúcidas invenções espaciais do mestre veneziano. Scarpa ordena, de forma fluida, a seqüência dos percursos expositivos por meio da introdução de sugestivos elementos modernos em contato direto com os espaços quinhentistas do palácio.
A colocação da escada em balanço com uma estrutura de aço e degraus de pedra, modelados em forma de seção hexagonal comprimida; a colocação do afresco Trionfo della Morte na ábside da capela, montado sobre uma moldura basculante para receber a melhor iluminação; o desenho dos novos caixilhos no interior dos trifórios para não contrastar com as delicadas colunetas de mármore; a colocação dos crucifixos medievais isolados sobre pedestais de pedra para dinamizar e proporcionar amplo espaço ao salão principal; e a recolhida atmosfera intimista da pequena sala dedicada ao pintor siciliano Antonello da Messina (considerado o artista plástico que introduziu a pintura a óleo e as técnicas pictóricas flamengas nos círculos de arte venezianos de meados do século quinze) são alguns dos episódios mais significativos da intervenção de Scarpa. "Uma obra-prima museológica", como definiria Walter Gropius.
A releitura do espaço palaciano, dirigida por Scarpa, reaviva os ambientes em relação às exigências expositivas do novo edifício, sublinhando e exaltando os elementos arquitetônicos presentes. Os portais e os trifórios do pátio central, desmontados e remontados nas fachadas internas e rebocados em tênues variações de cor, aparecem suspensos e imersos em uma dimensão abstrata, metafísica, atemporal.
A tensão atingida por Scarpa nas relações instauradas entre os objetos expostos e os diferentes espaços do edifício, se deve a um calibrado e atento uso da luz natural, filtrada com cortinas, e a uma paginação cromática e tátil das obras por meio de painéis de fundo, estucados à maneira veneziana, com cores suaves e suportes de forte conotação em material e textura, que exaltam as características de chiaroscuro das obras.
A atenção ao detalhe no desenho dos dispositi
vos de exposição das obras artísticas chega, no caso do Palazzo Abatellis, a resultados surpreendentes, capazes de revelar as características mais íntimas das obras expostas. Não por acaso, observa o crítico Bruno Zevi, "entre os numerosos projetistas de museus e exposições, Scarpa foi, talvez, o único que amou os quadros e as esculturas; que os examinou de forma exaustiva e com paixão antes de decidir sobre a colocação e o caráter".

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palazzo Steri

A intervenção de restauro no Palazzo Steri, de 1972, tem uma abordagem diferente. O projeto, desenvolvido pelo grupo de trabalho em que Scarpa age como consultor, é caracterizado por uma maior intensidade em relação à moderação e ao equilíbrio da intervenção precedente. O Palazzo Chiaramonte ou Steri (derivado do latim hospiterium), remonta à primeira metade do século XIV, entre os anos de 1307 e 1320.
A extensa história desse palácio está marcada por uma série contínua de intervenções, modificações e restaurações, que reconduz a diferentes utilizações ao longo dos séculos: residência trecentista da potente família Chiaramonte, residência e palácio de governo dos reis e vice-reis do reino espanhol da Sicília, sede do Tribunal da Inquisição entre 1601 e 1782 e, no presente, sede da Reitoria da Universidade de Palermo. O projeto de Scarpa respondeu à exigência de integrar o uso público e cultural do edifício destinado, agora, a exposições e congressos, com o uso administrativo.
O edifício trecentista, na forma de poderoso cubo com pátio central quadrado e pórticos com arcos ogivais, desenvolve, em três elevações, a compacta estereometria de ascendência islâmica do bloco lapidar do palácio, que resulta enriquecida com as decorações bicolores das biforias e triforias medievais e com os majestosos portais de entrada, até os elementos de coroamento.
A decisão de destinar a parte mais representativa da construção com as três salas sobrepostas do corpo setentrional para as atividades culturais e a parte sul do edifício para os escritórios e as atividades administrativas responde, com grande coerência, à organização planimétrica do prédio. A intervenção de Scarpa desenvolveu-se na localização dos percursos alternativos para as duas funções, por meio de uma releitura atenta e apaixonada da atormentada história construtiva do palácio, centralizando em alguns episódios específicos.
A complexa sucessão de escadas e planos diferentes em mármore, articulada atrás do portão principal, constitui, para Scarpa, a ocasião de estudar as numerosas alterações das cotas dos pavimentos do térreo e é a chave de leitura didática dos níveis originais dos pisos.
O Raumplan (planejamento espacial) sugere quase uma citação piranesiana dos espaços ocupados dos cárceres do palácio no período da Inquisição, interpretando, de maneira sugestiva, o caráter labiríntico desses ambientes. A fluidez espacial da contígua sala das armas, destinada a espaço de exposições, é composta, nas seqüências das arcadas e no jogo dinâmico dos níveis - opostos ao desenho rigoroso dos pavimentos em cimento polido alternado às listas de pedra local - pela maestria de Scarpa em relacionar-se com os ambientes antigos, que revivem com a intervenção.
A pronunciada atenção no uso dos materiais, assim como no Palazzo Abatellis, é exaltada pela sensibilidade de Scarpa no desenho dos pisos do pátio central em cimento e pedra, nas grades de ferro sem solda do portão sul, nas composições de madeira e aço do portão principal, no contorno das portas em mármore veneziano e no desenho dos caixilhos em madeira. E, também, no emprego dos estuques coloridos e dos rebocos polidos e opacos, nas várias salas do edifício.
A escada externa, em concreto estrutural aparente com corrimão em ferro, que completa a escadaria quinhentista de mármore pre-existente, constitui um pequeno ensaio da poética do arquiteto veneziano. As rampas, em balanço a partir de um septo ortogonal em concreto estrutural, serpenteiam à direita e à esquer
da até juntar-se com a escadaria quinhentista, deixando livre, abaixo, um pequeno espelho d'água sobre o concreto.
Os dois projetos, a restauração e organização do Palazzo Abatellis para Galeria Regional da Sicília e o restauro do Palazzo Steri destinado à sede da Reitoria da Universidade de Palermo, figuram como intervenções diferentes no caráter e nos processos, o primeiro mais moderado e sóbrio, o segundo mais ousado e apaixonado. Enfim, ambos revelam a extrema sensibilidade e requinte da poética do mestre veneziano em relação à questão de restauro arquitetônico, vista por uma visão moderna.
As intervenções realizadas pelo arquiteto veneziano Carlo Scarpa nos palácios Abatellis (em 1953) e Steri (em 1972) estão entre os mais significativos episódios da moderna concepção de restauro, na Itália
Francesco Santoro
é arquiteto italiano, formado pela Universidade de Arquitetura de Palermo em 1993 e master pela Frank Lloyd Wright School of Architecture, em Tailesin West, Arizona; colabora com a revista l'Architettura, Cronache e Storia


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