Residência Miguel Pereira / Helga Miethke | aU - Arquitetura e Urbanismo

Residencial

Residência Miguel Pereira / Helga Miethke

Casas do Brasil
Residência

Edição 73 - Agosto/1997
Miguel Pereira nos fala do tempo atual, marcado pela condição pós-moderna. A propósito, o filósofo italiano Gianni Vattimo fala de uma pós-modernidade em que as características "poéticas" são redescobertas e entendidas como a impossibilidade de estabelecer um corte nítido de limites e fronteiras entre a realidade e a imaginação. Neste sentido, a coloca como indicador de um processo de dissolução dos fundamentos básicos da modernidade - como a expressão de uma racionalidade histórica forte. Miguel Pereira, nesta sua residência na Serra da Cantareira, arredores de São Paulo, recoloca poeticamente, a partir de suas experiências e referências arquitetônicas, problemas inerentes à arquitetura como natureza e história.
Suas primeiras convicções vêm de Mies - já manifestadas na refinaria Alberto Pasqualini, de 62. Mas seu ponto de partida nesta casa vincula-se mais ao empirismo escandinavo: parte das condições naturais do lugar para potencializá-las com suavidade e pertinência, e depois transformá-las por meio de intervenções e artefatos construídos. Assim, a paisagem serrana e suas visuais, a vegetação e topografia (em declive rumo a um imenso vale) sugerem as primeiras decisões de projeto: a residência, os caminhos e os mirantes (do sol, da lua e paraíso) são implantados de modo a revelar com mais nitidez o perfil natural do terreno, contido quando necessário pelos arrimos de pedra da própria região. Nesta linha demarcadora de sensibilidades tem relevância o paisagismo parcimonioso, pautado mais na idéia de subtração de elementos que revelam o natural existente do que nas adições que o modificam substancialmente - exceção às esculturas criadas pelo arquiteto, que pontuam sutilmente o ambiente e homenageiam, entre outras coisas, nossa cultura popular - como o carcará (João do Vale).
A casa implantada à meia encosta é constituída por dois corpos desalinhados e interligados por uma cobertura de vidro. No primeiro, que passou por uma remodelação, encontram-se dormitório de hóspedes, cozinha, serviços e estar/jantar. No segundo, totalmente novo, dormitório do casal, ateliê e estar. O fato de os dois corpos serem implantados em tempos distintos, somado à decisão de colocá-los numa mesma cota de nível, propiciou entre eles interessantes tensões, próprias dos encontros acidentais. Trabalham nesse sentido a cobertura en-vidraçada que, num primeiro momento, cumpre o papel de uma suave transição por meio de um espaço semi-aberto. Num outro, impõe a uma das vedações laterais da nova edificação um necessário realinhamento com a edificação anterior, deslocando-a de sua natural amarração. Por sua vez, a escada sob esta mesma cobertura de vidro não permite que a distensão entre estes elementos se desfaça por completo.
É na definição plástica do corpo longitudinal que as influências de Mies são mais notadas, sobretudo pela economia de meios, clareza construtiva, continuuns espaciais e dominância das visuais que transpassam os ambientes. Porém, cabe destacar nestas constatações algumas distinções significativas. A estrutura metálica aparente nos apoios e vigas, e a cobertura de duas águas sobrepostas são de uma simplicidade contundente e, à sua maneira, deixam evidentes as referências mencionadas. Por outro lado, as vedações em blocrete e as esquadrias vermelhas sugeridas pelas floradas locais, demarcam uma outra postura, um certo consentimento ao lirismo e a uma "poética artesanal". Em outros termos, guardam uma distância providencial das procedências, decorrente do arrefecimento de posições.
Não há nesta residência nenhum traço formalista; a natureza e a razão construtiva são seus elementos norteadores. Seu discurso incorpora aos antigos valores (talvez perenes) novas sensibilidades, sugeridas pelas transformações culturais mais recentes.

Estrutura: pilares e vigas de aço, em chapas dobradas e montagem de perfis de aço; escadas de aço
Cobertura: telha tégula com proteção térmica, inferior, de Eucatex texturizado e pintado;
caibros de madeira; cobertura de vidro temperado 10 mm
Vedação: alvenaria de blocrete pintada
Esquadrias: madeira pintada e vidro temperado, 8 mm
Revestimentos: interno, reboco com massa fina e pintura acrílica; banheiros, massa epóxi; piscina, vidrotil
Pisos: interno, massa epóxi (banheiros), forração, madeira, cimento queimado; externos, granilite (terraços), pedra miracema (calçadas), pedra goiás (0.40 x 0.40 - piscina), pedra cantareira (arrimos)
Arq. Miguel Alves Pereira, membro do Conselho Superior da UIA,
ex-presidente do IAB-DN e professor FAU-USP
Equipe técnica
Projeto arquitetônico e paisagismo: Miguel Pereira
Estrutura: Hoka Construções Metálicas, eng. Carlos Leiva
Construção: Escritório Eduardo Rosso e
Yoshimasa Kimachi Arquitetos
Instalações: piscina, Jacuzzi; aquecimento
(energia solar) Heliotek
Esculturas e fotos: Miguel Pereira


Ficha técnica
Local: Parque Petrópolis (Serra da Cantareira) - São Paulo
Área do terreno: 6 mil m2
Área construída: 468 m2
Ano do projeto: 1994
Conclusão da obra: 1996