Com projeto de Bernardes Jacobsen Arquitetura, museu MAR, no Rio de Janeiro, é a primeira obra pronta na requalificação do Porto Maravilha | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Bernardes Jacobsen . Rio de Janeiro . 2010/2013

Com projeto de Bernardes Jacobsen Arquitetura, museu MAR, no Rio de Janeiro, é a primeira obra pronta na requalificação do Porto Maravilha

Por Francesco Santoro Fotos Leonardo Finotti
Edição 229 - Abril/2013

Bernardes Jacobsen Arquitetura . Rio de Janeiro, RJ . 2010/2013

A cobertura de 800 toneladas faz a conexão visual entre as duas edificações: um edifício eclético e um modernista com suas novas fachadas translúcidas

Ergue-se o primeiro projeto de renovação do conjunto urbano da praça Mauá, em um começo de redesenho da região portuária do Rio de Janeiro. É o projeto do MAR, o Museu de Arte do Rio de Janeiro, inaugurado dia 1º de março com arquitetura do escritório Bernardes Jacobsen Arquitetura. O projeto, fruto de uma colaboração entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Roberto Marinho, com apoio do Governo do Estado e do Ministério da Cultura, ocupa 15 mil m². A missão do museu é promover, nas palavras da curadoria, "uma leitura transversal da história da cidade, seu tecido social, sua vida simbólica, conflitos, contradições, desafios e expectativas sociais", na tentativa de difundir o ensino da arte com programas educativos para as escolas públicas municipais.

À sua volta, tudo ainda está em obras: a praça Mauá passa por uma renovação e o Museu do Amanhã, de Santiago Calatrava, transforma o píer Mauá em um canteiro de obras. Aqui é o centro das intervenções do Porto Maravilha, que inclui ainda a futura demolição do Elevado da Perimetral, que separa a cidade do seu porto e foi o grande vilão da degradação do bairro.

É assim, em meio a transformações, que o projeto do MAR se destaca pela tentativa de operar em continuidade com o tecido urbano preexistente e as originárias arquiteturas presentes. Em particular, ressalta-se a sensibilidade dos arquitetos na releitura do genius loci dessa complexa parte de cidade, estreita entre o Morro da Conceição a oeste e o Elevado e o mar a leste, entre os departamentos da Polícia Federal ao norte e a praça Mauá a sul, por baixo do volume do edifício pós-moderno Rio Branco I (1983), de Edison e Edmundo Musa, e da silhueta mais gentil do art-déco A Noite (1929), de Joseph Gire e Elisário Bahiana.

Em vez de utilizar uma metodologia agressiva capaz de zerar as características do contexto, o projeto aceita a implantação original e se desenvolve com uma reinterpretação crítica dos dois edifícios preexistentes, o tombado palacete eclético Dom João VI (1916), que abrigou escritórios de empresas de transporte marítimo, e o contíguo edifício modernista dos anos de 1940 do antigo terminal rodoviário da cidade, originariamente utilizado nos andares superiores como hospital da Polícia Civil.

Enquanto o palacete de 5,2 mil m², inaugurado em 1916 e tombado no ano de 2000 pelo Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural, foi escolhido para abrigar as salas expositivas por seu partido estrutural livre e seu considerável pé-direito, o edifício modernista, rebaixado do último pavimento para equilibrar a sua altura com o precedente, e suavizado nas fachadas substituindo as paredes de alvenaria por perfis de vidro translúcido, abriga a Escola do Olhar, o auditório, a biblioteca, as salas expositivas multimeios e a administração. Com sete pavimentos (incluindo o térreo), tem 7,2 mil m² de área construída.

Voa acima dos dois prédios uma leve onda fluida de concreto armado que recebe a função de conectar visualmente as diferentes partes do projeto e de cobrir o hall de acesso no térreo e os dois níveis do terraço na cobertura do edifício modernista, onde estão o bar, o restaurante e uma área aberta para eventos culturais.

O foyer de entrada, no espaço coberto entre os dois prédios, expande-se entre os pilotis do antigo terminal rodoviário, liberados espacialmente para acolher as comitivas dos visitantes e as exposições de esculturas ao ar livre.

Na parte posterior do complexo, a marquise da antiga rodoviária, também patrimônio tombado da cidade, é reutilizada para os serviços, a loja, a bilheteria, os depósitos e a área de carga e descarga - tudo embaixo da passarela metálica de ligação entre os dois prédios, suspensa em forma de rampa inclinada entre o quinto andar da Escola do Olhar e o quarto andar do palacete expositivo. A sequência de acesso e de visita ao conjunto acontece de cima para baixo, como em outros ilustres exemplos como o Museu Guggenheim em Nova York.

Mas enquanto no Guggenheim a ascensão ao último nível se desenvolve como premissa à descida ao longo da rampa circular contínua, no MAR, o acesso à cobertura permite ao visitante aproveitar a deslumbrante vista da cidade do alto, expondo o tecido urbano e as suas transformações em relação à paisagem, como uma das obras de arte a serem contempladas.

E, nesse sutil jogo de relações com o contexto circundante, o elemento abstrato e etéreo da cobertura, marco arquitetônico do projeto do MAR, possui ulteriores conotações. A cobertura ondulada de concreto armado é uma verdadeira topografia construída, instalada aproximadamente na mesma altura do contíguo morro da Conceição, estendendo idealmente as suas curvas de nível até a baía e o mar. Não por acaso, uma das vistas mais significativas do projeto pode ser observada desde o próprio morro, que evidencia o particular diálogo do museu com seu entorno.

Mais interessante ainda é o processo construtivo da onda, que consegue manter a leveza e a instintividade gestual dos croquis e das maquetes originais. A leve cobertura de concreto armado de 66 m de comprimento e 25 m de largura, com uma espessura média de 15 cm, deriva, na sua conformação ondulada de pontos altos, baixos e intermédios, de sua correspondência com a implantação estrutural dos edifícios inferiores, localizando as colunas pluviais do teto no interior dos esbeltos pilares metálicos que a sustentam.

A cobertura de 800 toneladas foi concretada de uma vez só ao longo de 13 horas, com 70 toneladas de aço e 320 m³ de concreto em um processo que envolveu cerca de 90 profissionais - e fez o encontro da técnica com a tradição carioca, ao utilizar uma fôrma de isopor, proposta do artista plástico Carlos Lopes, especialista na construção de carros alegóricos para as escolas de samba. O molde de isopor foi montado in loco em módulos de dimensões e de espessura variáveis.

Intérpretes de uma tradição arquitetônica quase centenária de intervenções na trama histórica da cidade, os arquitetos do escritório Bernardes e Jacobsen propõem uma intervenção respeitosa da estratificação histórica e, ao mesmo tempo, melhorativa e não mimética, deliberadamente conscientes de adicionar um signo leve e profundamente contemporâneo ao fluxo do tempo. Assim, a onda do MAR voa acima dos edifícios históricos da cidade, envolvendo com um gesto poético o seu patrimônio artístico, abaixo do seu fluido manto protetor.
LIGHTING DESIGN A iluminação dos edifícios ficou a cargo do Estúdio Carlos Fortes, com colaboração de Gilberto Franco. No palacete, as janelas e sacadas foram obstruídas pelas paredes acústicas dos espaços expositivos. "Para preservar a transparência pelas aberturas e a ideia de um edifício vivo, e não de um monumento, usamos as superfícies dos painéis como rebatedores, criando uma iluminação difusa e homogênea", explica Carlos Fortes. Foram utilizadas luminárias para lâmpadas fluorescentes compactas longas de 55 W/3.000 K, de tonalidade aparente amarelada e na mesma temperatura de cor dos sistemas de iluminação dos interiores. Onde as janelas e portas não foram obstruídas - caso dos pisos das sacadas, do parapeito nas quinas do edifício e do hall central - foram instalados projetores externos. "No térreo, há luminárias de facho assimétrico embutidas no piso para lâmpadas a vapor metálico de 70 W e também 3.000 K", conta Carlos. Na Escola do Olhar, é a luz dos ambientes internos que proporciona o efeito de transparência no exterior, graças à fachada de painéis de vidro. Os ambientes internos, aqui, são iluminados com lâmpadas fluorescentes de 3.000 K. "É a mesma temperatura de cor do palacete, amarelada, embora a tonalidade verde dos painéis de vidro altere essa percepção." Já a cobertura fluida foi iluminada de baixo para cima, a partir do piso das coberturas, auxiliando na sensação de que a superfície ondulada flutua entre os dois edifícios.

SOFT SEA WAVE
The first building in Praça Mauá urban complex was born, the start of the redesign of the Rio de Janeiro port region. It is the MAR, Museum of Art in Rio de Janeiro, with architecture by Bernardes Jacobsen studio. The intervention begins at the critical reinterpretation of the two existing buildings, the eclectic Dom João VI palace (1916), and the contiguous modernist 1940s building. While the 5.2 thousand m² palace was chosen to hold the exhibit halls, for having a free structural space and a considerable ceiling height the modernist building, softened in the facades by replacing the masonry for glass profiles, holds the School of Looks, the auditorium, the library, the multimedia exhibit rooms and the administration. Above the two buildings hovers a soft "wave" of reinforced concrete visually connecting the different parts of the project and covering the access hall in the ground floor and the two terrace levels in the modernist building penthouse, where there is a bar, a restaurant and an open area for events. The 800 ton cover was concreted in a single operation during 13 hours, with 70 tons of steel and 320 m³ of concrete in a process involving 90 professionals - and that plotted the marriage between carioca techniques and tradition, by utilizing Styrofoam molds, as proposed by plastic artist Carlos Lopes, a specialist in building allegoric chariots for the samba schools.

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