Projetado pelo Grupo SP, Edifício Simpatia, em São Paulo, dispõe de pequena praça para pedestres e de apartamentos com planta livre e flexível | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Grupo SP . São Paulo, SP . 2007/2011

Projetado pelo Grupo SP, Edifício Simpatia, em São Paulo, dispõe de pequena praça para pedestres e de apartamentos com planta livre e flexível

Edifício revisita traços modernistas e se insere com delicadeza na paisagem de um bairro residencial em transformação. Ao ocupar um lote com abertura a duas vias paralelas, não dá as costas à cidade, ao contrário: cria uma pequena praça para os pedestres

Por Ursula Troncoso Fotos Nelson Kon
Edição 207 - Junho/2011

A paisagem do bairro da Vila Madalena é uma paisagem em transformação. Do alto do edifício da rua Simpatia pode-se admirar um de seus vales, ainda com muitas áreas verdes, uma boa quantidade de casas e algumas construções mais altas. É um bairro que guarda uma escala própria: a da proximidade com a rua. Ali, observando o entorno, João Sodré, um dos sócios do Grupo SP, analisa a obra que acaba de ficar pronta: "O edifício se inseriu bem na paisagem e na escala das casinhas em volta. Não é agressivo".

O trabalho do trio do Grupo SP - formado por João Sodré e Alvaro Puntoni e, na época do projeto, também por Jonathan Davies - partiu de um estudo de viabilidade a pedido da Movimento Um, incorporadora que uniu o grupo da Idea Zarvos, da construtora CP3 e da corretora Axpe. Os arquitetos não deixaram por menos, "chegamos com o prédio pronto", lembra Alvaro Puntoni, que levou em conta o lote complexo e o terreno em desnível para dar a cara do edifício. "Não queríamos fazer um ­térreo falso e eliminar o terreno natural, mas sim tirar partido dele", explica.

O desenho foi conformado em dois blocos: um aéreo que abriga as habitações e outro que segue o declive do terreno e recebe áreas comuns e estacionamento. O elemento que separa os dois blocos é uma laje elevada, como a flutuar sobre o terreno, acessada por uma passarela que parte da calçada. Sobre a passarela e próximo ao nível da rua, um painel com 2,80 m x 10 m composto de nove placas montadas in loco, do artista Andrés Sandoval, transforma-se em lindo presente para os pedestres.

A moradia foi encarada de maneira atual: planta livre e flexibilização total dos espaços para que cada morador pudesse adequar sua casa a suas necessidades. Para tanto, a laje foi deixada no osso - ou seja, sem contra piso. O mesmo tratamento foi dado no teto, sem forro. Assim, cada morador tem liberdade total para escolher seus acabamentos. A planta também não possui divisórias internas fixas: cada habitante, usando divisórias de gesso acartonado, decidiu como queria repartir o espaço interior.

A flexibilidade da planta foi resolvida instalando as colunas de infraestrutura e hidráulica junto aos pilares, o que permite que as áreas molháveis - banheiros e cozinha - possam estar em praticamente qualquer lugar da planta. Em duas das três fachadas de cada unidade o morador pode, inclusive, escolher onde instalar suas janelas. Para isso, os arquitetos elegeram uma zona onde seria permitido existir aberturas e desenharam uma janela padrão que pode ser composta em módulos. O resultado da livre escolha dos moradores fica evidente nas fachadas, com o movimento aleatório das aberturas.

As varandas na parte posterior do prédio também contribuem para o movimento da fachada. Na proposta original, teriam estrutura de concreto. Por questões de custo, os arquitetos reviram a solução e apresentaram uma nova proposta, desta vez, de estrutura metálica. A estrutura fica pendurada na parte superior por duas grandes vigas metálicas, e deixa livre a projeção da varanda no nível do térreo.

O material especificado para a fachada foi o revestimento cerâmico - a empena voltada para o pátio interno recebeu pintura vermelha. "Com toda a poluição de São Paulo, gostaríamos que o edifício não ficasse tão sujo, e a cerâmica é um material meio autolimpante", diz Álvaro. O arquiteto também conta por que escolheu o mosaico português como material principal do piso: a ideia é que a noção de externo, da calçada, adentrasse o edifício e tomasse conta das áreas de convívio, por isso o mosaico foi especificado para o espaço entre a porta do elevador e a porta dos apartamentos, um lugar aberto denominado pelos arquitetos de varanda de convivência.

Na busca incessante de conciliar os problemas impostos pelo sítio da melhor maneira possível, os arquitetos do Grupo SP resolveram encarar a questão do lote dos fundos, que neste caso faz frente para a rua Medeiros. Este lote não podia se conformar como uma segunda entrada dos moradores por questões de logística e segurança. O que não raro vemos nestes casos é a subida de um grande muro de 6 m de altura, que torna inóspita a calçada para o trânsito de pedestres. O gesto dos arquitetos foi recuar a grade de divisa deixando um alargamento da calçada, onde foi projetado um pequeno jardim com uma árvore e um banco. Este detalhe poderia até mesmo passar despercebido para quem olhasse com menos cuidado para o projeto, porém esta pequena gentileza urbana, como definiram os arquitetos, com certeza não passará despercebida pela população que vive e transita pelo bairro da Vila Madalena - principalmente se gestos como este começarem a servir de modelo e exemplo de como empreendimentos podem melhorar seu entorno imediato.

A paisagem do bairro da Vila Madalena é uma paisagem em transformação. Do alto do edifício da rua Simpatia, João Sodré apontava exemplares de Artigas, Triptyque, Gui Mattos, Isay Weinfeld. Exemplos de diferentes épocas, discursos e funções. Uma história da arquitetura na paisagem que, de maneira simpática e gentil, vem agora fazer parte também este edifício dos arquitetos do Grupo SP.

 

SYMPATHY GENERATES NICETIES
The work of the Grupo SP trio - formed by João Sodré and Alvaro Puntoni and, at the time of the project, also by Jonathan Davies - began with a viability study at the Movimento Um incorporator's request. The design was formed in two horizontal blocks: one suspended, sheltering the dwellings and the other following the lot's declivity and receiving common areas and the parking lot. The element separating the two blocks is an elevated slab, fluctuating over the lot, accessed by a walkway that starts at the sidewalk. Over the walkway and nearer the street level, a panel measuring 2.80 m x 10 m by artist Andrés Sandoval is a gift to the passersby. The dwelling was approached in a modern manner: free plan and flexing of spaces so that each dweller may adequate his home to his needs. In two of the three façades of each unit the dweller may, also, choose where to install his windows: the architects designed a standard window that can be made of modules. The result is evident in the façades, with the random movement of the openings. The verandas in the back part of the building also contribute to the movement of the façade. The metal structure hangs in the top part supported by two large metal trusses, freeing the veranda projection at ground level.

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