Casa de bambu no Parque Estadual da Serra da Tiririca | aU - Arquitetura e Urbanismo

Sustentabilidade

Celina Llerena . Niterói, RJ . 2006

Casa de bambu no Parque Estadual da Serra da Tiririca

Celina Llerena . Niterói, RJ . 2006

POR VICTOR MARTINEZ
Edição 183 - Junho/2009
imagens Celina Llerena

imagens Celina Llerena

Perto da cidade carioca de Niterói, encravada no meio da reserva do Parque Estadual da Serra da Tiririca, está a casa construída com uma técnica ecossustentável ainda incomum na cultura brasileira. No projeto residencial de 255 m2 da arquiteta Celina Llerena, o destaque é o bambu, usado como o principal material construtivo: tanto na estrutura quanto nas divisórias de ambientes, alizares de portas e janelas e das ventilações cruzadas na parte superior da construção.

A estrutura da casa segue um princípio básico de pilares e soleiras. São dois tipos de pilares: os de fechamento que são os suportes para a sustentação das paredes, portas e janelas; e os pilares estruturais, que vão até o telhado, criando uma espécie de esqueleto da casa: são oito pilares estruturais na fachada frontal e oito na posterior, mais dois em cada fachada lateral. Detalhe: tudo de bambu.

As soleiras são peças de amarração que percorrem todo o perímetro da casa, paralelamente ao piso, a uma altura de 2,70 m. Foram desenvolvidas com duas estruturas: a central para a construção das paredes e acessórios, como portas e janelas, e a externa para apoio do beiral. Já as estroncas auxiliam no apoio da cobertura.

Esse sistema permitiu que a casa tivesse um vão livre central de seis metros, unindo a sala de estar e a cozinha.

As estruturas com bambus são leves, resistentes e com características diferenciadas das convencionais. Os bambus possuem feixes fibrovasculares mais concentrados que formam uma fração fibrosa, conferindo à planta elevada resistência mecânica como tração, compressão e flexão dependendo da espécie e idade dos colmos (o tipo de caule).

Nesse projeto, o bambu usado foi o Phyllostachys pubecens, conhecido também como mosso. Diferentemente da madeira, essa planta não possui cerne, por isso em bambus usam-se parafusos, e não pregos. É preciso deixar a base do bambu de 40 cm a 50 cm acima do nível do solo, evitando o contato com a umidade que sobe por capilaridade, além de evitar a incidência direta de sol e chuva com estrutura como beirais. "Não precisa substituir o bambu com o tempo em uma obra bem-feita e coberta", assegura Llerena.

O projeto, além de ser sustentável, é versátil e de baixo custo. Descartando as formas tradicionais, a fundação da casa foi feita com manilhas, preenchidas com concreto ciclópico e vigas pré-moldadas, que sustentam a laje de piso do projeto. E utilizou, ainda, outros materiais, como as pedras para revestimento de uma das fachadas laterais, e o eucalipto para a rampa de acesso - material especificado por ser mais resistente a intempéries.

As paredes receberam quadros de madeira grampeados com chapas de ferro laminado, nas quais foram aplicadas argamassa com simples desempenadeiras. O resultado é uma parede comum, mas que dispensa o uso de tijolos.

Para completar o caráter ambiental da casa, no telhado foi projetado um jardim. Na cobertura foram instaladas as mesmas chapas de ferro, aparafusadas no próprio bambu, com uma camada de argamassa de 4 cm. O material foi coberto com uma manta com geotêxtil que, por sua vez, foi sobreposta com uma camada de 6 cm a 7 cm de terra. Já com a terra, foram colocados os rolos de gramas e arranjos com bromélias e outras flores de raízes rasas.

A escolha do bambu é ecologicamente correta. Além das poucas exigências do solo, dependendo da espécie e do uso, o bambu, após três anos de vida, permite em média dois cortes anuais e possui um dos mais rápidos crescimentos no reino vegetal. Segundo Llerena, que foca seu trabalho em arquitetura ecológica, "o bambu é autorrenovável e autossustentável, quanto mais se corta, mais fortalece a moita, que cresce sem parar, sem esquecer os critérios de corte e manejo". 

A planta, após ser retirada da mata, deve ser tratada para evitar o ataque de carunchos e fungos. Na obra da casa em Niterói, os bambus passaram por um tratamento químico com solução à base de sal inorgânico, chamado octaborato disodico tetrahidratado. O produto é aplicado por injeção nos entrenós dos bambus, utilizando uma bomba de pulverização agrícola.

FICHA TÉCNICA
PROJETO DE ARQUITETURA Ebiobambu - Celina Llerena

FORNECEDORES
PISO cimento queimado cinza e ladrilho hidráulico 20 cm x 20 cm de demolição
LAJE E VIGAS PRÉ-FABRICADAS
Engemolde
SUBMANTA DA GRAMA
Vinimanta e geotêxtil Sansuy
EUCALIPTOS TRATADOS
LCPederassi
FECHAMENTO DAS PAREDES Permetal (telas Rib-Lath)

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