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Tecnologia

Desenho universal

Arquitetura inclusiva

Desenho universal é a palavra-chave para alcançar a acessibilidade. Esse modo de projetar virou lei e está ajudando a criar espaços e produtos usáveis por todos

Por Silvana Maria Rosso
Edição 180 - Março/2009

Automação como ferramenta
Com a redução dos custos, a automação é a bola da vez. A mesma tecnologia e os equipamentos utilizados no controle residencial podem ser customizados para prover autonomia e segurança, trazendo de volta a confiança e autoestima do idoso ou da pessoa com deficiência. "A integração de interfaces personalizadas com os sistemas de automação permite que praticamente qualquer dispositivo eletromecânico seja comandado à distância", explica o engenheiro elétrico Caio Bolzani.

O uso da voz ou de telas de toque com alto nível de contraste e com grandes caracteres propicia o acesso aos controles de iluminação, climatização e permite a abertura remota de portas, janelas e portões, entre outros. "Dentre as inúmeras aplicações, o agendamento de tarefas tem se destacado pela sua simplicidade e eficiência, lembrando as pessoas sobre o horário dos seus medicamentos, refeições etc.", ressalta Bolzani.

O sistema de monitoramento constante de todas as funções da residência permite que parentes sejam alertados em casos de emergência, como uma queda, ou evitando situações de perigo, como, por exemplo, interromper o fluxo de gás no caso do fogão ser esquecido aceso.

Recentes avanços dos sistemas de controle residenciais e da tecnologia sem fio oferecem um nível maior de conforto com custos acessíveis e podem ser utilizados com facilidade por pessoas com restrições ou qualquer morador da casa.

A formação profissional
Os princípios do desenho universal e o conhecimento das normas estão sendo divulgados na graduação dos cursos de arquitetura e engenharia, "de forma transversal", afirma o arquiteto Paulo Eduardo Fonseca de Campos, professor de projetos da FAUUSP. E em cursos extracurriculares oferecidos por entidades, como o Instituto Brasil Acessível, e materiais impressos ou eletrônicos, distribuídos gratuitamente pelo poder público e até pela iniciativa privada.

Universidades, como a Uninove, dispõem de curso de pós-graduação em acessibilidade. "Entre os objetivos está formar profissionais capazes de garantir espaços e ambientes mais acessíveis e sem barreiras, capacitando-os para o atendimento a quesitos legais, uma vez que há prazos de adaptação definidos pelo Decreto 5296", destaca Marcelo Pupim Gozzi, coordenador de pós-graduação da Universidade.

Os dez princípios do desenho universal

 Equiparação nas possibilidades de uso: o design é útil e comercializável às pessoas com habilidades diferenciadas;
 Flexibilidade no uso: o design atende a uma ampla gama de indivíduos, preferências e habilidades;
 Uso simples e intuitivo: o uso do design é de fácil compreensão;
 Captação da informação: o design comunica eficazmente ao usuário as informações necessárias;
 Tolerância ao erro: o design minimiza o risco e as consequências adversas de ações involuntárias ou imprevistas;
 Mínimo esforço físico: o design pode ser utilizado de forma eficiente e confortável;
 Dimensão e espaço para uso e interação: o design oferece espaços e dimensões apropriadas para interação, alcance, manipulação e uso;
 Circulação de largura de 0,90 m e altura de 2,10 m;
 Vãos de porta de 0,80 m (mínimo);
 Diâmetro mínimo de 1,50 m para manobras de uma cadeira.



Leis e decretos

NBR 9050
A versão de 2004 da norma técnica avançou quanto a parâmetros antropométricos. De acordo com a arquiteta Adriana Romero de Almeida Prado, que também é coordenadora da Comissão de Acessibilidade a Edificações e ao Meio (CE 01), do Comitê Brasileiro de Acessibilidade (CB 40), "a NBR 9050/2004 define o que é área de transferência, área de manobra e área de aproximação. E também demonstra as medidas para alcance manual e visual". Quanto à comunicação e sinalização, criou símbolos para sanitários, para circulação (indicando rampas, escadas, elevadores entre outros); estipula tamanho de letras e distâncias, bem como contrastes de cores. No capítulo de circulação, há a definição dos pisos táteis de alerta e de orientação e onde devem ser utilizados. Também altera a declividade das rampas assim como detalha a acomodação transversal da circulação em calçadas. No item sanitário, especifica quais as áreas de transferência para a bacia sanitária, para boxe, para banheira e a localização de barras de apoio, bem como medidas mínimas para um boxe comum de vaso sanitário.

Decreto 5296
Regulamenta a lei 10.098, obrigando todo e qualquer projeto arquitetônico ou urbanístico a atender aos princípios do desenho universal, tendo como referências básicas as normas da ABNT, a legislação específica e as regras contidas no decreto. Prevê a inclusão do desenho universal nas grades de disciplinas dos cursos de arquitetura, engenharia e correlatos, que passam a se responsabilizar pelo atendimento do projeto às normas de acessibilidade. Segundo a arquiteta Adriana Romero de Almeida Prado, "nenhum financiamento público é liberado se o projeto não respeitar a acessibilidade".

 

fotos Sandra Perito
Casa para a vida toda
Este sobrado em um condomínio fechado, em Taubaté, SP, segue os conceitos do desenho universal e tem ambientes que podem ser adequados conforme a necessidade do usuário. O acesso à casa acontece por uma rampa suave, de 6% de inclinação, com guia rebaixada para pedestres. Os ambientes foram idealizados com espaço suficiente para manobra de cadeira de rodas.

Embora os quartos fiquem no superior, o projeto apresenta infraestrutura para colocação de um elevador, caso o morador necessite do benefício no futuro. No entanto, um ambiente no piso térreo, anexo a um banheiro totalmente acessível, permite uso diversificado: como por exemplo uma suíte, no caso de limitação temporária ou permanente de algum morador. Os banheiros foram projetados prevendo-se a instalação de barras de apoio, possuem o registro na entrada do boxe e não embaixo da queda de água, evitando que a pessoa se queime com a água quente. Sensor de presença na escada e corrimão iluminado colaboram com uma circulação vertical segura. Pia com gabinetes removíveis e tampos com variações reguláveis para adaptação à altura do morador, forno de parede instalado em altura segura para utilização, fogão tradicional ou de bancada (cooktop), com gabinetes volantes, que podem ser usados como áreas extras de apoio, são algumas características do projeto da cozinha. A despensa anexa evita armários altos na cozinha. A lavanderia também se integra ao ambiente e dispensa o morador de sair da casa para uso.

Ficha técnica
Arquitetura: Sandra Perito
Construção: Marcondes Perito

 

Clique e veja: >>> NBR 9050/2004, a divisora das águas
Em debate organizado na redação da revista AU, arquitetos, engenheiros, consultores e fornecedores concordam que as normas foram a alavanca para a acessibilidade. Mas o mercado ainda se prende apenas ao seu cumprimento, e não às necessidades reais dos indivíduos

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