Reciclagem na estrutura | aU - Arquitetura e Urbanismo

Sustentabilidade

Cenário Brasil . São Paulo, SP . 2008

Reciclagem na estrutura

Cenário Brasil . São Paulo, SP . 2008

Por Andressa Fernandes
Edição 171 - Junho/2008

Utilizar conceitos de sustentabilidade em uma estrutura temporária. O desafio foi proposto pela Fundação SOS Mata Atlântica, que realizou a quarta edição da mostra de iniciativas e projetos em prol dessa agredida floresta tropical, Viva a Mata, na Marquise do Ibirapuera, em São Paulo, no final de maio. Foram 8 mil m² de área projetada, que utilizaram cerca de 30 mil garrafas PET e 2,6 mil m² de OSB para o desenho do cenógrafo Beto Von Poser e sua equipe da Cenário Brasil. As garrafas PET foram recolhidas pelas cooperativas de catadores de lixo e utilizadas para as divisórias, já o piso foi feito de madeira OSB, material feito com árvores adultas de florestas geridas de maneira sustentável, para a maior parte do piso.

"Os materiais novos são todos de manejo sustentável. Não estamos usando praticamente nada que não seja lixo. É a idéia de não gerar lixo, aproveitando o que não teria outro fim se não este", define o arquiteto Flávio Magri Marconato, um dos criadores da montagem.

O projeto engloba um espaço para quatro estandes de patrocinadores com 30 m² cada; 1,2 mil m² divididos em 20 estandes destinados às ONGs que participam do evento; um auditório de 30 m²; e 40 m² reservados à SOS Mata Atlântica. O restante da área ficou distribuído entre uma arena com palco e arquibancada na marquise e espaços como a Fazendinha, onde foram distribuídas mudas de palmito-juçara aos visitantes.

Para garantir a sustentação, também foram utilizados perfis de ferro para estruturar vãos maiores, como os pórticos, pois o OSB flambaria e poderia até mesmo se romper mediante o esforço. "Fazemos a escolha de materiais sempre da mesma maneira: considerando a preocupação sustentável e a estética, seguindo também características de resistência para adequar o material aos projetos", conta o arquiteto.

O projeto para o Viva a Mata passou por testes já comuns no Cenário Brasil: quase tudo que o estúdio desenvolve passa por um "ensaio" estrutural e estético, sempre com o objetivo de fazer um bom projeto que siga as premissas de proteção ao meio ambiente. "Os testes de resistência são sempre uma preocupação, uma vez que nem sempre usamos o caminho conhecido da cenografia", explica Marconato.

No caso desse projeto, uma das soluções estruturais foi manter as garrafas fechadas com as tampinhas, garantindo maior resistência ao material, unido por fita adesiva. A medida também funcionou esteticamente, ajudando a compor as cores do projeto: verde (as garrafas PET) e amarelo (as tampinhas).

Segundo Marconato, o projeto traz para o público um pouco do conceito de "faça você mesmo", uma vez que a estrutura apresentada no Viva a Mata poderia, por exemplo, servir como uma divisória para a área de serviço. "É uma estrutura que pode ser usada como divisória em praticamente qualquer espaço", diz. Contudo, é preciso observar que a divisória não é estanque à água, não barra o vento, não isola totalmente.

Ciclo sustentável
Como se trata de uma estrutura temporária, a desmontagem do projeto também foi pensada segundo conceitos sustentáveis. Segundo Marconato, após o evento os materiais utilizados são encaminhados novamente para as cooperativas. "Não eliminamos resíduos, mas evitamos produzi-los. Para as sobras de material damos um destino conhecido, procuramos uma entidade que organize catadores de lixo, por exemplo, e encaminhamos as garrafas PET", explica.

A atuação do estúdio no projeto inclui ainda o treinamento de mão-de-obra para orientar ações como o melhor uso da água ao lavar um ambiente, por exemplo. "Para a sustentabilidade ter sentido, tem que ter começo, meio e fim. Como ainda é algo novo, nem sempre é o caminho mais econômico financeiramente, mas é o mais viável", pondera o arquiteto.

Pensado de forma a aproveitar ao máximo a iluminação e ventilação natural, o evento dispensou refrigeração artificial, o que também foi possível dada sua localização arejada, na Marquise do Ibirapuera. A geração de energia elétrica, por sua vez, ficou a cargo de um gerador a biodiesel.

O evento também contou com a coleta seletiva do lixo, encaminhando-o diariamente para reutilização ou reciclagem, facilitada pela distribuição em apenas duas latas: não recicláveis e recicláveis.

FICHA TÉCNICA
Coordenação geral de cenografia: Beto von Poser
Criação: Flávio Magri Marconato, Fernando Magalhães e Thaís Takase
Coordenação de execução: Geraldo Leite Muniz



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