ARQUITETURA DE MÓVEIS | aU - Arquitetura e Urbanismo

Design

Oscar e Anna Maria Niemeyer

ARQUITETURA DE MÓVEIS

POR JOANA CARVALHO
Edição 165 - Dezembro/2007

Oscar Niemeyer inicia a sua incursão no design de móveis em 1971. "O problema que encontrei no equipamento dos edifícios é que, muitas vezes, o mobiliário, o arranjo interno, prejudica completamente a arquitetura", diz o arquiteto no livro Móvel moderno no Brasil, de Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, ao explicar o porquê do interesse em projetar mobiliário: considera-os parte fundamental da composição arquitetônica. Na mesma publicação, Niemeyer revela ainda que prevê em seus projetos os espaços destinados aos grupos de móveis e, se colocados de maneira indevida, todo o projeto é prejudicado. "Às vezes eles não estão de acordo com a arquitetura, e o ambiente se faz sem a unidade que a gente gostaria. Por isso é que eu comecei", diz, e segue, "todos os móveis estão presos ao princípio de que são complemento da arquitetura e devem ser atualizados e modernos como a própria arquitetura".

De acordo com o arquiteto e pesquisador Júlio Katinsky, Niemeyer fez parte de um grupo de arquitetos pioneiros na prática do design de móveis no Brasil, cujo trabalho foi importante para "a animação do movimento de modernização do móvel e para a introdução do desenho industrial no País".

O desenho da poltrona alta com banqueta, sua primeira peça, teve como parceira sua filha, Anna Maria Niemeyer. O móvel foi produzido com couro no encosto e estofado, e lâminas de madeira na estrutura - material que não era utilizado no Brasil.

Assim como na arquitetura, Niemeyer instigou o uso de novos materiais (ou novos usos para os mesmos materiais) e, levando em conta os problemas da produção mobiliária no País, iniciou o estudo de produtos como a madeira prensada, muito utilizada nos móveis suecos naquele período. O material proporcionava simplicidade construtiva. Diferentemente dos suecos, porém, o arquiteto optou por projetar em superfícies mais largas, de formas completamente variadas.

O primeiro protótipo da poltrona alta com banqueta não utilizou madeira e tinha sua estrutura feita de lâminas de aço e ângulos retos - aquele mesmo pelo qual, em seu poema, Niemeyer afirmava não se atrair ("não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual"). Não à toa, Niemeyer introduz as curvas no projeto, o que fez com que o móvel tivesse de ser produzido na França, visto que no Brasil a tecnologia que permite a curvatura do aço ainda não era popular. Até por isso, as primeiras experiências do arquiteto na área de mobiliários foram inicialmente mais conhecidas na Europa.

Após algumas peças executadas, o estudo da madeira prensada permitiu maior economia e facilidade de construção. "É interessante assinalar como a técnica da madeira prensada nos aproxima da arquitetura: a mesma possibilidade de formas novas, o mesmo empenho em reduzir seção e simplificar o sistema construtivo", conta Niemeyer em Móvel moderno no Brasil. Curvada, a madeira é fixada ao centro do assento, de onde saem seus dois pontos de apoio, que garantem o equilíbrio da peça. Um deles é prolongado e utilizado, também, como estrutura de apoio do encosto.

A partir desses conceitos, Niemeyer passou a produzir poltronas, mesas, cadeiras de balanço, espreguiçadeiras e marquesas, utilizando, além da madeira prensada, as palhinhas naturais, que viraram materiais característicos de seus móveis. Com essas e outras mobílias, o arquiteto equipou vários de seus projetos, como a sede do Partido Comunista Francês, em Paris. "Deve haver uma adequação do móvel e o interior, dependendo do tipo de prédio. Numa residência, por exemplo, os móveis devem acompanhar a maneira de viver do homem de hoje; eles são mais simples, menos austeros", diz.

Os móveis assinados por Niemeyer já foram expostos no Centro George Pompidou, em Paris, no Chiostro Grande, em Florença, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, no salão de Paris, no Salone del Mobile, em Pádua, na Feira Internacional de Colônia, na Alemanha, no Salão Internacional do Móvel de Milão e em diversos museus brasileiros. As peças voltaram a ser fabricadas e, segundo Anna Maria Niemeyer, estarão em breve disponíveis para comercialização.

AU LEITURAS
Móvel moderno no Brasil, de Maria Cecilia Loschiavo dos Santos. Studio Nobel/Fapesp/Edusp: 1995.



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