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AFINAL, QUANTO VALE?

DIANTE DA BAIXA REMUNERAÇÃO E DA NECESSIDADE DE IMPRIMIR MAIOR COMPETITIVIDADE A SEUS ESCRITÓRIOS, ARQUITETOS PROCURAM AVALIAR, DE FORMA MAIS PRECISA, O CUSTO DE SEUS PROJETOS

POR JULIANA NAKAMURA
Edição 151 - Outubro/2006

A competição acirrada e a oferta desproporcional de profissionais em relação à demanda por trabalhos têm pressionado a remuneração dos arquitetos, que cobram cada vez menos pelos seus projetos. A cultura de valorizar mais as etapas de execução do que as de preparação e planejamento, assim como leis do tipo da número 8666, que trata das licitações públicas e privilegia a escolha pelo menor preço, colaboram para tornar o cenário ainda mais perverso. A seriedade da situação é tamanha que, em alguns casos, dependendo do porte do projeto e da estrutura do escritório, a realização de um serviço pode significar perda de dinheiro. Diante desse fenômeno, que acomete também outros setores da economia, calcular corretamente o custo dos trabalhos, incluindo a especificação clara de suas etapas e conteúdo, tornou-se vital. Até porque sensibilizar o cliente quanto ao volume de trabalho e os custos embutidos tem sido uma tarefa cada vez mais árdua.

"A situação é muito difícil e apenas alguns privilegiados estão conseguindo sobreviver com estruturas tradicionais", resume o arquiteto Bruno Padovano. "Com a intensa entrada de novos profissionais no mercado e a luta suicida por trabalhos, os arquitetos têm se sujeitado a situações inviáveis. A conseqüência é a perda da qualidade", lamenta o arquiteto Gilberto Belleza, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-Nacional).

Um estudo desenvolvido pelo arquiteto Aníbal Coutinho mostra o tamanho da defasagem entre o que ganham os profissionais no Brasil em relação aos colegas de profissão de países desenvolvidos. Segundo ele, em termos absolutos, os honorários do arquiteto brasileiro são naturalmente mais baixos, afinal aqui a mão-de-obra é mais barata e a complexidade das obras é menor. O problema, porém, é que em termos relativos, essa remuneração também é inferior. "Ao pegarmos o valor cobrado pelo arquiteto e transformarmos em uma parcela do valor total da obra, descobrimos que os honorários aplicados no Brasil chegam a ser 1/5 dos praticados no exterior", conta. Enquanto nos Estados Unidos as etapas de projetos são responsáveis por entre 7 e 8% do valor da obra, aqui essa participação fica entre 3 e 4%. "Há um problema de auto-estima", resume Coutinho. "Por receio de ficar sem o cliente, o preço inicial apresentado pelo arquiteto já é baixo. Só que esse valor diminui ainda mais após o processo de negociação e durante a construção, em virtude de contratos malfeitos que não contemplam as situações previsíveis", diz.

Se todos concordam que a remuneração aplicada é deficiente, há divergências sobre a forma de cálculo dos honorários e do preço dos projetos. Tradicionalmente, o método mais utilizado se baseia em uma proporção do valor estimado da obra. Acompanhado por entidades como a Union Internationale des Architectes (UIA) e a Panamerican Federation of Architects Associations (FPAA), o IAB recomenda esse modelo. "Trata-se de uma alternativa comumente utilizada no mundo todo e representa um valor proporcional ao serviço a ser executado. Além disso, esse sistema pode coibir a concorrência desleal de preços", comenta Belleza. Como referência, o Instituto disponibiliza a seus associados uma Tabela de Honorários, prática seguida também por outras associações de arquitetos, como a Associação Brasileira de Paisagismo (Abap). "Esta é uma fórmula já consagrada", diz Eduardo Barra, presidente da Abap. Barra ressalva, entretanto, que em casos mais complexos, em que o cálculo a partir da área se mostre inadequado, deve-se recorrer à composição de custos pelo valor das horas técnicas consumidas pela equipe envolvida no projeto.

A cobrança de honorários com base em horas técnicas é apontada como uma tendência mundial pela AsBEA, que tem defendido esse método por acreditar que há, no mercado atual, uma desvinculação entre o valor cobrado pelos profissionais e o custo real do trabalho. "As tabelas de referência são extremamente prejudiciais para os arquitetos porque não funcionam como piso, mas como teto, uma referência contra a qual o cliente briga incessantemente", avalia Aníbal Coutinho, para quem o método mais justo tanto para clientes quanto para arquitetos é aquele que leva em consideração a complexidade do trabalho, o tamanho da equipe envolvida e o tempo que vai demandar. "Outro equívoco das tabelas é não fazer distinção entre o serviço realizado pelo profissional recém-formado e o que tem larga experiência", acrescenta o arquiteto Pedro Gabriel de Castro, vice-presidente da AsBEA-RS.

A justificativa para a mudança na forma de calcular a remuneração passa pelo aumento da complexidade dos projetos. "Se por um lado o computador facilitou as atividades, por outro permitiu a idealização de formas mais ousadas", afirma o arquiteto Henrique Cambiaghi. Para essa maior complexidade dos projetos também contribui o crescente processo de industrialização dos componentes da construção, o que resulta em mais tecnologia embarcada e mais tarefas a realizar por metro quadrado. Cambiaghi lembra ainda que outro fator a agravar a situação financeira dos escritórios é que os arquitetos nem sempre estão suficientemente preparados para administrar uma empresa e lidar com a parte contábil.

Pedro Gabriel concorda e ressalta que freqüentemente os profissionais esquecem de incluir na conta os custos indiretos, a depreciação dos equipamentos, a reserva de contingência e as horas improdutivas. "Todo escritório tem horas de trabalho ociosas, geralmente em torno de 20%, que precisam ser remuneradas", ressalta o arquiteto.

ESCOPO DO TRABALHO
Em um contexto de baixas remunerações, a definição do escopo do trabalho deve ser ainda mais precisa, sobretudo para os arquitetos, que precisam evitar conflitos com os clientes e minimizar ao máximo as perdas com a realização de tarefas pelas quais não foi contratado e que, por isso, deveriam ser pagas à parte. Ao mesmo tempo, o escopo é uma segurança para o contratante, que tem, por escrito, a lista de todos os serviços pelos quais está pagando. "Durante as tomadas de preços, freqüentemente constatamos que o concorrente cobrou menos porque se propôs a fazer menos! Então, o cliente compra o serviço pela metade convicto de que fez um grande negócio", conta Eduardo Barra.

A necessidade de sistematizar o escopo de trabalho não é de hoje. Tanto que, em 2000, a AsBEA e a PINI lançaram o Manual de Contratação de Serviços de Arquitetura & Urbanismo, que aborda desde o escopo de trabalho, até honorários e formas de contratação.

Na tentativa de complementar a bibliografia de referência para contratação de arquitetura, foi lançado recentemente o Manual de Escopo de Projetos, disponibilizado para download na página da AsBEA na internet. Desenvolvido com base na NBR 13.531/95 e em interação com outros manuais de escopo de projeto (estrutura, instalações prediais, ar-condicionado e coordenação de projetos), a publicação se caracteriza por distinguir os serviços em três categorias: essenciais, específicos (produtos complementares, não usuais, que são adicionais aos serviços essenciais) e opcionais (serviços especializados, normalmente executados por outros escritórios). "A idéia é eliminar os ruídos de comunicação entre contratado e contratante e deixar claro as tarefas que cada um se compromete a fazer", explica Henrique Cambiaghi, responsável pelo trabalho em parceria com o arquiteto Roberto Amá. Cambiaghi diz que atualmente, quando o cliente contrata um projeto, em geral julga que tudo está dentro do escopo de trabalho do arquiteto. "A idéia é esclarecer para o cliente o que exatamente está contratando", diz Cambiaghi.

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