ARQUITETURA X DECORAÇÃO | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

ARQUITETURA X DECORAÇÃO

UMA QUESTÃO COMERCIAL

Texto original de Sergio Teperman
Edição 144 - Março/2006

Este artigo já começa com o título errado. Seriam mais justos títulos como arquitetura e decoração, arquitetura ou decoração, arquitetura com decoração, ou, até mesmo, para os mais fanáticos, arquitetura é decoração. Na verdade, algumas vertentes do post-modern até se aproximam desta última "definição".

Entrar nessa seara de discussão é fatalmente se envolver no tradicional prato do domingo, o franguinho com polêmica. Mas o que eu gostaria com estes comentários seria um pouco de compreensão mútua, como por exemplo a que existe entre o Hamas e os Israelenses...

Quando estudante da FAU, a briga tradicional era engenheiros x arquitetos. As faculdades de arquitetura eram recentes, o projeto de Brasília estava começando e a arquitetura brasileira era mais conhecida no exterior do que aqui. Foi a melhor arquitetura que já se fez neste País, na época do "café, samba, futebol e arquitetura", as "instituições" pelas quais o Brasil era conhecido.

Hoje engenheiros e arquitetos reconhecem que praticam profissões complementares, ou melhor, integradas. Basta ver trabalhos de Norman Foster e de Santiago Calatrava para endossar essa afirmação: assim como os projetos de Oscar Niemeyer ou o Masp de Lina Bo Bardi, seriam impossíveis sem os engenheiros de estruturas.

Não tenho um conhecimento histórico aprofundado dos estilos de arquitetura ou decoração como meus colegas da Europa. Na realidade, pouquíssimos o têm porque não se ensina nada disso nas faculdades. Por exemplo, o estilo "neoclássico" explorado pelo mercado imobiliário não passa de um estilo neogótico-mongolóide. Não critico o fato de se construírem edifícios neoclássicos, mas, sim, o desconhecimento de história da arquitetura.

O mesmo sucede com os projetos de decoração em estilo "clássico", que, na verdade, não têm estilo nenhum - são no máximo uma salada de componentes díspares. Algo semelhante ao que os guias de restaurantes chamam de "cozinha internacional".

Da mesma forma, é rara a existência de cursos específicos de arquitetura de interiores (definitivamente uma especialidade), ou mesmo de cursos dentro dos currículos universitários de arquitetura.

Muitas vezes são assuntos de emergentes (o que não é nenhum crime) e, até por isso mesmo, aparecem mais. O sucesso indiscutível dos eventos do tipo Casa Cor, que unem casa e mercado e cuja visitação atrai milhares de leigos e supera as mostras de arquitetura, é um exemplo vivo dessa atração pela arquitetura de interiores. Enquanto isso, os arquitetos de edificações preferem aparecer nos cadernos de Economia ou Cidades dos jornais, em que é muito mais difícil ver nossas ações divulgadas devido à urgência dos temas que essas seções abordam.

A forte insatisfação dos arquitetos que constroem tem toda a justificativa porque a complexidade, a necessidade de integrar e coordenar dezenas de disciplinas, de técnicas e de profissionais é muito maior do que em interiores. Para tornar os sentimentos ainda mais intensos, a arquitetura é uma profissão de estrelas. De muitíssimo conhecimento e qualidade, mas, ainda assim - ou por isso mesmo -, estrelas.

Ora, direis, ouvir estrelas! Elas querem ser ouvidas. Querem o reconhecimento que a complexidade da profissão que dominam deveria lhes proporcionar. Não vejo muito como alterar essa situação, visto que a classe A e os assuntos de seu interesse - como decoração - sempre prevalecerão no noticiário.

A menos, é claro, que você pertença ao que Jorge Glusberg tão espetacularmente denominou de "star system" da arquitetura.


Os arquitetos de edificações se ressentem das conseqüências financeiras causadas pelo menor reconhecimento despertado por seu trabalho. Mas como reverter essa situação quando os anúncios imobiliários mencionam em grandes caracteres o nome dos responsáveis pelos halls de entrada dos prédios e simplesmente omitem o escritório que projetou todo o edifício, tarefa mais complexa, longa e cara do que o lobby, por mais talentoso que seja aquele que o ambientou?

Na verdade, decoração e arquitetura têm abordagens comerciais diferentes.
Muito embora não se possa generalizar a questão, os arquitetos de edificações recebem por seu trabalho porcentagens muitíssimo menores sobre o custo da obra do que os decoradores - mesmo se considerados os maiores porte e custo das construções. Além disso, nos projetos de interiores entram outros componentes, remunerados até mais do que o próprio projeto, como o gerenciamento ou a execução da obra.

Há ainda o comissionamento pela especificação de materiais, etc., algo que, se feito com o conhecimento dos clientes, é aceitável. Agora, se o cliente não souber... Por fim, o profissional pode comprar peças de mobiliário ou de arte e revender ao cliente, o que é uma prática comercial normal.
Somando todos esses componentes, é mesmo difícil que um projeto de arquitetura remunere da mesma forma que um de decoração.

Para piorar a situação, existe o imenso problema da desunião da classe à qual pertencemos. Apesar de batalharmos nas associações profissionais, a disputa insana pelo mercado, poluído por um número absurdo de profissionais, faz com que nós mesmos entreguemos aos nossos contratantes as armas para que rebaixem nossos honorários.

Cabe aos arquitetos de edificações, além de lutar por um estado mais justo da profissão, encontrar os meios de reconhecimento que os arquitetos de interiores ou decoradores conseguiram. Talvez seja necessário chamar o Glusberg e criar o nosso "star system". Na verdade, do ponto de vista da sociedade em geral, a profissão de arquiteto, antes pouco conhecida, hoje é considerada uma atividade de status. Mas os gerentes de banco não foram informados disso...

Em resumo, a arquitetura de edificações, pela satisfação de ver uma obra construída e saber que pode durar décadas, talvez séculos, é uma profissão muito gratificante - desde que não se confunda gratificação com remuneração! O status da profissão é tão elevado que ouvi de um jornalista de arquitetura que os decoradores querem ser chamados de arquitetos, mas os arquitetos não querem ser chamados de decoradores. É a reedição da velha briga engenheiros x arquitetos.

A posição atingida na sociedade pelos decoradores lhes permite tirar de letra afirmações divertidas, porém preconceituosas, como a feita por Luis Fernando Veríssimo em um artigo: "profissões eminentemente masculinas, como cabeleireiro, costureiro, decorador e estivador"...


Esse tipo de preconceito não atinge só os decoradores. Quando fui contratado, na época da ditadura, para executar o planejamento de escritórios do Banco de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, o diretor de patrimônio, ao me entrevistar, perguntou, "arquiteto, você é bicha ou é subversivo?"

O fato reflete a esmagadora predominância feminina na arquitetura de interiores e sua correspondência imediata nas faculdades de arquitetura, onde a proporção mulheres x homens se inverteu nos últimos anos. Não deixa de ser um bom sinal ver o aumento da participação feminina em um mercado de trabalho qualificado, fato visível nas editorias de revistas de arquitetura e decoração.

Na verdade, muitas dessas diferenças estão sendo rapidamente apagadas e esquecidas pela integração cada vez maior das diferentes entidades de classe e até das revistas, que publicam projetos de todos os setores. Mas para nós, arquitetos de edificações, há uma piada norte-americana que reflete em plenitude a enorme importância da decoração. A daquele momento mais íntimo e delicioso de um casal no quarto, quando a americana diz ao marido, "oh, darling, I think we must paint the ceiling!"...