Em pisos, paredes ou fachadas, especificação de revestimento cerâmico deve considerar classificação e características do material, como índice de absorção de água, resistência mecânica, química e a manchas | aU - Arquitetura e Urbanismo

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Em pisos, paredes ou fachadas, especificação de revestimento cerâmico deve considerar classificação e características do material, como índice de absorção de água, resistência mecânica, química e a manchas

Texto original de Juliana Nakamura
Edição 133 - Abril/2005
No Brasil, seja pela abundância de matérias-primas ou pela herança cultural portuguesa, de quem adquirimos o gosto por azulejos, o uso de revestimentos cerâmicos tornou-se um costume antigo e corrente. Não é à-toa que o País está entre os cinco principais consumidores desse tipo de material e é um dos maiores produtores do setor, com capacidade instalada de 600 milhões de m² anuais.

Se no passado as placas cerâmicas estavam restritas às áreas úmidas de uma cons-trução, hoje são encontradas nos mais diferentes ambientes, como residências, escritórios, indústrias e áreas externas, incluindo amplas fachadas. O mercado oferece uma imensa variedade em formatos, cores, texturas e acabamentos superficiais. Até mesmo a imagem de revestimento pouco nobre, quando muitos a comparavam à rocha natural, se mostra ultrapassada diante do surgimento de cerâmicas de alto desempenho técnico e forte apelo estético.

As dimensões das placas aumentaram, principalmente nas opções de piso, o que garante maior economia industrial, facilidade de assentamento e eliminação de juntas, consideradas locais em potencial para acúmulo de sujeira. Ao mesmo tempo, e acompanhando a tendência de industrialização dos sistemas construtivos, é possível encontrar painéis cerâmicos fixados em fachadas com inserts metálicos: sistema já largamente utilizado nas pedras naturais. O ganho em velocidade de execução, calculado pelo arquiteto Manoel Dória, pode chegar a 35%. "Diferente do sistema de assentamento com argamassa, a instalação com inserts é limpa, seca e, em conseqüência, mais rápida e com menos desperdício de material", revela. Por tudo isso, hoje a cerâmica está entre os revestimentos arquitetônicos mais versáteis, com inúmeras possibilidades de composição.

Especificação
A NBR 13817/1997 estabelece uma série de critérios para classificação e uso do material. O texto considera, por exemplo, o método de fabricação, normalmente prensado ou extrudado. Também faz a distinção por tipo de superfície, se esmaltada ou não-esmaltada. Segundo os fabricantes, a existência ou não do esmalte determina a cor, o brilho, a textura e a facilidade de limpeza. Por outro lado, em geral, as superfícies não-esmaltadas (unglazed) resistem melhor ao lascamento por terem um corpo único.

Além disso, as placas são rotuladas conforme sua resistência às manchas, a ataques químicos e a riscos. Produtos esmaltados e brilhantes tendem a riscar mais facilmente do que aqueles com acabamento rústico. Por isso, em áreas externas e de acesso, os pisos rústicos são mais indicados.
Há, ainda, a classificação de acordo com a resistência a derrapagens, medida pelo coeficiente de atrito e importante para avaliar a adequação de pisos em declive ou sujeitos a água ou óleo, como piscinas e garagens, por exemplo.

Quanto maior o índice, mais áspera é a superfície e mais difícil a sua limpeza. Portanto, recomenda-se a utilização de peças com coeficiente de atrito próximo ao limite estabelecido em norma: menor ou igual a 0,4 para instalações comuns, entre 0,4 e 0,7 em áreas onde se requer resistência a derrapagens e, em locais com alto risco por serem escorregadios, como rampas, banheiros e áreas externas, coeficiente maior ou igual a 0,7.



Porosidade e resistência
Embora todos os critérios estejam diretamente relacionados à adequação do produto a determinadas aplicações, há outras características que se sobressaem durante a especificação. A primeira delas é a absorção de água, que distingue as placas em cinco classes e determina a nomenclatura que cada revestimento irá receber. Cerâmicas porosas, por exemplo, são as que apresentam nível de absorção de água maior que 10%, enquanto que materiais do tipo grês absorvem de 0,5 a 3%.

A atenção a esse item se justifica porque a permeabilidade de uma placa cerâmica interfere diretamente em outras propriedades do material, como carga de ruptura, resistência ao desgaste e ao gelo. Via de regra, quanto mais impermeável, mais resistente é o revestimento, ou seja, maior é sua carga de ruptura. Assim, as porosas possuem resistência menor do que as placas de grês que, por sua vez, são menos resistentes do que o porcelanato, cujo índice de absorção é próximo de zero.

Outra característica fundamental para a escolha de um revestimento cerâmico é a resistência a abrasão, que estabelece o desgaste que o sistema pode suportar diante do tráfego de pessoas e do contato com objetos. A escala adotada para as placas esmaltadas é o PEI (Porcelain Enamel Institute) que varia de 0 a 5 ¿ sendo 5, o nível mais resistente. Dessa forma, pisos e revestimentos para fachada, por serem mais exigidos do que paredes internas, exigem PEI mais elevado. "Em uma concessionária de veículos, por exemplo, a resistência à abrasão precisa ser alta, já que o piso tem de suportar o peso dos veículos, muitos dos quais blindados, e toda a movimentação que é transmitida com a rotação dos pneus e os movimentos de frenagem", explica o arquiteto Luciano Impe-ratori. "Em situações como essa, o uso de cerâmica com baixa absorção de água é importante. São recomendados também cuidados adicionais, como o uso de rejunte à base de epóxi, que é menos poroso", conclui.






Praticidade

Nesse apartamento dúplex, localizado em um bairro nobre de São Paulo, o piso de toda a parte superior foi revestido com cerâmica. De acordo com o arquiteto Silvio Heilbut, a escolha pelo material se justificou por duas razões principais: primeiro, por conferir um clima mais descontraído ao local. Depois, porque a proprietária tem um cão e era importante que todo o piso fosse facilmente lavável. Utilizou-se, então, cerâmica da linha Tróia, da Portobello, nos tamanhos 30 x 30 cm e 30 x 15 cm.








Composição

Peças cerâmicas com diferentes desempenhos podem ser aplicadas em um mesmo ambiente para obter o efeito estético desejado. Nessa sala projetada pelas arquitetas Taciana Bonetti e Paula Isidoro, as paredes foram revestidas com placas porosas de 33 x 47,5 cm da linha Garnier Beige. Já no piso, como o uso requer maior resistência, foram empregadas placas Rivage Beige, de 47,5 x 47,5 cm e PEI 4.Complementa o ambiente a lareira, com peças filetadas do Porcelanato Imperatore. Todos os revestimentos foram fornecidos pela Itagres.






Tráfego intenso

Em um local por onde passam anualmente 12 milhões de pessoas, resistência e durabilidade são características fundamentais ao piso. Por isso, a decisão dos arquitetos da Planorcon, escritório responsável pelo projeto de reforma e ampliação do Aeroporto Internacional de Congonhas, em São Paulo, foi a de empregar porcelanato. Nos corredores, o padrão escolhido foi o Castanho, da série Progetto, da Eliane. Em placas de 40 x 40 cm, esse piso é constituído por uma massa única, o que lhe confere maior dureza.








Em ondas

Em cidades litorâneas é comum o uso de revestimentos cerâmicos, principalmente em fachadas. Esse é o caso do edifício Sanford, em Fortaleza. Em harmonia com os balanços da fachada, o tom claro do porcelanato, que se assemelha a um mármore travertino, confere leveza à edificação. Projetado pelo arquiteto Luiz Fiúza, foi utilizado porcelanato da linha Nizza, fornecido pela Portobello em placas de 45 x 45 cm com PEI 5.






Uniformidade

Em Dallas, no Texas, o escritório norte-americano Gensler investiu no porcelanato para revestir as fachadas de todas as revendas das marcas de automóveis Cadillac, Toyota e Saab. A Cecrisa forneceu placas em tom creme-acetinado da linha Pietra Portinari. Produzidas em Belo Horizonte no formato 45 x 90 cm, as peças têm aspecto semelhante ao do mármore.









Três tons

Inspirada em pedras naturais brasileiras como a São Tomé e produzida com exclusividade para o mercado europeu, a linha Dune de placas semiporosas da Cerâmica Buschinelli foi a escolha da arquiteta Márcia Buschinelli para esse jardim interno. A paginação inclui peças de 32 x 32 cm e meias-peças de 16 x 16 cm em três tons, do bege ao marrom. O piso é antiderrapante e todas as peças apresentam PEI 4 e índice de absorção de água entre 6 e 8%.










Preto no branco

Para garantir sofisticação ao apartamento de um executivo, os arquitetos Nora Lins, Helinho Lins, Cristiane Lins e Fábio Roratto procuraram um revestimento que conferisse brilho intenso ao piso. A solução encontrada foi o grês retificado da linha Lumiére, combinado nos padrões Chanel Bianco e Rodin Nero. As peças, produzidas pela Itagres, têm 47,5 x 47,5 cm e PEI 4 e 3.









Área lavável

Para a Casa Cor Bahia, evento que aconteceu no final de 2004 em Salvador, a arquiteta Marília Summers apostou no contraste entre branco e azul para seu projeto de lavanderia e área de serviço. O ambiente exigia um revestimento impermeável e de fácil limpeza. Assim, o piso recebeu porcelanato branco em placas de 40 x 40 cm e rodapé de 8,5 x 40 cm. O destaque, porém, fica por conta da parede em que foram colocados os tanques, revestida com azulejo azul-naval. O material, que pertence à linha Piscina, da Eliane, tem classificação BIII e foi empregado em placas de 20 x 20 cm.







Luminosidade

Em São Paulo, o showroom projetado pela arquiteta Ana Maria Wey para a fabricante de coifas Falmec conta com piso de porcelanato Super Bianco Gyotoku. Em placas de 40 x 40 cm, o material se enquadra no grupo de absorção BIa e recebeu acabamento polido. A cor clara proporciona maior amplitude ao espaço e o tratamento retificado confere dimensões mais precisas ao produto.












Contemporâneo

O grês branco da Portobello foi o material escolhido para o calçamento externo e o piso do restaurante do edifício de serviços R&D, no complexo industrial Flextronics, em Sorocaba, interior de São Paulo. Segundo o arquiteto Márcio Porto, a cor do material permitiu a compatibilidade com o restante do projeto, no qual predomina o aspecto arejado e limpo. Nas áreas externas, para garantir a segurança dos pedestres, o revestimento recebeu tratamento antiderrapante. Já nas áreas internas, foram empregadas placas polidas para um aspecto mais sofisticado.








Alta resistência

Uma das preocupações dos arquitetos do escritório Hochheimer Imperatori ao realizar o projeto da concessionária de veículos Itatiaia Mercedes-Benz, em Alphaville, São Paulo, foi garantir transparência e leveza. Vidro e estrutura metálica foram amplamente utilizados e, no piso, a opção foi pelo grês branco para tráfego intenso da Eliane. "Desde que com alta resistência e baixa absorção de água, as cerâmicas funcionam bem nesse tipo de ambiente, principalmente pela facilidade de limpeza", diz Luciano Imperatori.