Siegbert Zanettini, pioneiro na aplicação do aço, fala sobre atividade acadêmica e sua produção como projetista

O sorriso e a simpatia são os mesmos da época em que ele deixou a FAU-USP, após longa e profícua carreira acadêmica, em 2004. Treze anos depois, Siegbert Zanettini continua a todo vapor em seu escritório, no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo. Para a comunidade do setor, ele é o projetista da reconhecida Escola Panamericana de Artes, na Avenida Angélica, também na capital paulista. Egresso da mesma instituição onde lecionou durante décadas, Zanettini é filho da escola modernista que consagrou a FAU-USP, mas nunca deixou de criticar o movimento que o formou. Ele quebrou paradigmas e foi pioneiro e inovador ao trabalhar a tecnologia da construção metálica no Brasil.

“Arquitetos não trabalham sozinhos. Se não sabe, pergunte. Se não conhece, busque quem conhece.” Defensor do conhecimento interdisciplinar entre arquitetura e engenharia civil, Zanettini propõe o resgate da formação híbrida e foi ferrenho defensor do curso de dupla formação, com a parceria FAU-USP e Escola Politécnica da USP, num movimento que resgata as origens do curso original. O arquiteto já construía de forma sustentável quando nem se pensava nesse conceito por aqui. Desenvolveu técnicas próprias, chamadas por ele mesmo de “corte e costura do aço”, para produzir, de maneira precursora, perfis metálicos. Hoje, com a construção metálica mais difusa pelo país, ele continua inovando, e quebra paradigmas ao erguer complexos hospitalares 100% de aço em curtíssimo espaço de tempo.

Ao lado de mestres como Lelé [João Filgueiras Lima], seu amigo pessoal, Zanettini não sucumbiu ao ideal moderno da plástica do concreto. Pelo contrário, definiu sua trajetória com personalidade ímpar em meio a um cenário impositor do modelo moderno. Sua produção lhe rendeu prêmios e reconhecimento – e sua obra continua a quebrar paradigmas.

Como conciliar produção arquitetônica e área acadêmica?
São dois mundos com aspectos e problemas que devemos equilibrar. De certa forma, são até conflitantes. No fim da década de 1960, eu procurei rever alguns conceitos da época, com o modernismo ainda muito forte. Essas questões estavam ligadas à forma de projetar segundo os preceitos do movimento. Como tive pai marceneiro – trabalhei com ele por quase dez anos – e vim da Zona Leste de São Paulo, do bairro do Belenzinho, para mim aquele contexto da universidade era muito diferente. Eu sempre achei “importado” demais o processo moderno de produção no Brasil. Era um rebatimento à brasileira. Ainda em 1960, com os conflitos políticos e a mudança de algumas críticas bem colocadas, eu achava que a arquitetura moderna estava deixando de ser uma causa. Sem dúvida esse aspecto foi importante na década de 1930, com grande repercussão no Brasil, principalmente no contexto carioca. Mas, como tudo na vida, teve seu período de apogeu e depois a queda. Eu fazia um exercício de voltar para o ambiente onde cresci, na época considerado periferia da capital, para tentar entender a realidade como ela é. Coincidência ou não, bem em 1968 ganhei o concurso para a Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha, também distante do centro da cidade. Aquilo que se discutia na academia era muito distante da realidade marcante que eu tinha vivido e que, pelas questões envolvidas nesse projeto, tinha revivido. A partir daí, eu percebi que algumas coisas deveriam ser mudadas. Eu sempre fui crítico a toda a política do BNH [Banco Nacional da Habitação] a partir de 1964, pela forma como via a construção civil no Brasil. Usar mão de obra desqualificada, produção que não considerava a inclusão da indústria nos processos da construção, obras de baixa qualidade (em termos de arquitetura e engenharia). Tudo isso me incomodava. Com a saída da FAU da Escola Politécnica, perdemos a principal referência, que é a tecnologia da construção. A arquitetura sozinha não é capaz de representar esse conteúdo mais amplo. Foi então que comecei a rever esse conceito, que criou discussões profundas à época e perdura até hoje. Num momento em que balanços, concreto aparente e poucos pontos de apoio eram exigências da academia, promover a industrialização das técnicas vernaculares – tijolos, vigas, telhas etc. – era uma quebra de paradigma. Para mim, a industrialização deveria fazer parte da construção civil. A arquitetura deveria estar voltada para uma forma de produção mais eficiente, menos artesanal. Foi então que comecei a reciclar madeira, com vigas compostas de sarrafos de pinho, para projetos estruturais. Eu usei esse método em muitas casas, e conseguia incríveis vãos de 30 m. Era uma visão precursora da reciclagem. Quando projetei a casa do meu sítio em Atibaia, ela foi considerada a primeira construção sustentável do país. Eu chamava isso de casa bioclimática com ecoeficiência. Ela tem uma relação dentro-fora muito forte.

O que é arquitetura para você?
Para mim, arquitetura não é um simples volume construído, que é a máxima da arquitetura moderna. Para mim, o edifício nunca foi autossuficiente. Nunca trabalhou sozinho. O meio ambiente é estrutural na questão rquitetônica. A forma rígida do modernismo não me convencia. Foi então que comecei a fazer experimentos com estruturas metálicas. Em 1972, construí uma fábrica que foi integralmente montada em 45 dias – de aço. Uma obra de 17.500 metros quadrados.

Como nasceu sua paixão pelo aço?
Sou pioneiro na arquitetura de aço no Brasil. Comecei num momento em que não havia nem formação nem sistemas de produção adequados a esse sistema construtivo. Nós cortávamos chapas para criar os perfis. O meu fascínio pelo aço me afastou do concreto. Eu usava concreto apenas como elemento estrutural, de compressão, princípio básico da engenharia. O curso de tecnologia da FAU-USP para mim era muito fraco. Em 1974, eu publiquei um livro chamado Ensino de Arquitetura no Brasil, para o Ministério da Educação. Visitei várias regiões do Norte e Nordeste e vi que as escolas de arquitetura, por exemplo a de Fortaleza, tinham uma única pessoa no departamento de tecnologia. Foi então que eu percebi que era necessário reaproximar arquitetura e engenharia.

“Para mim, arquitetura não é um simples volume construído, que é a máxima da arquitetura moderna. Para mim, o edifício nunca foi autossuficiente. Nunca trabalhou sozinho. O meio ambiente é estrutural na questão arquitetônica.”

Qual é o seu modelo de arquitetura?
Eu estive na inauguração do Centre Georges Pompidou, em 1977, em Paris, e percebi que aquilo era muito coincidente com o que eu fazia aqui no Brasil. Era um novo momento da arquitetura. Eu defini esse conceito de “arquitetura como razão e sensibilidade”, dentro do novo perfil da arquitetura contemporânea, em minha tese de livre-docência. Todas as áreas interligadas, e não segregadas, atuam juntas para a concepção da arquitetura. Eu sempre lutei para perpetuar esse conceito na FAU-USP, um ambiente que não é muito receptivo a isso. Eu não era dissidente, mas quando criei a disciplina de Fundamentos de Projeto procurei reunir, numa ementa básica, todos os departamentos da faculdade. Essa tentativa de juntar as várias formas de pensar a construção e o espaço estaria, então, desde o início na formação profissional.

Quem são os arquitetos que mais admira?
Norman Foster e Renzo Piano combinam com maestria arquitetura e engenharia. Eu tive participação marcante no curso FAU-Poli [era a possibilidade de dupla formação oferecida aos alunos de engenharia civil e arquitetura na Universidade de São Paulo]. Usufruir da universidade como um todo é fundamental. Por exemplo: para mim, planos urbanísticos deveriam ser feitos em conjunto com profissionais da geografia. Nós [arquitetos] não somos autossuficientes.

RESIDÊNCIA DO ARQUITETO EM ATIBAIA, INTERIOR DE SÃO PAULO. ECOEFICIENTE NUMA ÉPOCA EM QUE NÃO SE FALAVA NO CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE

Como classifica o momento atual da arquitetura brasileira?
Eu o chamo de período contemporâneo, com arquitetura pulverizada. Há aqueles que são modernos, há os pós-modernos, há os mais ligados ao mercado – boa parte da arquitetura pensa apenas a venda – e há a repetição não tão inteligente da própria cidade. Há muita gente fazendo arquitetura com a mesma tecnologia de 1960. Hoje, a infraestrutura de produção pode e deve ser totalmente transferida para a indústria. Acabei de concluir a obra do Hospital MaterDei em Belo Horizonte, 100% feito de aço, montado em 18 meses, com 70 mil m2, do subsolo ao mobiliário. Tudo teve uma sequência lógica, pensada num sistema limpo e seguro. Eu acabei desenvolvendo um jeito de pensar a arquitetura contemporânea.

Por que o aço ainda é pouco explorado no Brasil?
Porque nós começamos atrasados. Eu fiz praticamente corte e costura com o aço no fim da década de 1970. Eu resolvia como dava, e atravessei quatro décadas assim. Depois de 1990, começou a surgir um pouco mais de industrialização nesse setor. Já no início do século 21, iniciouse a produção de perfis por aqui, que tornou mais lógica a produção dos perfis de aço para a construção civil. A partir daquele momento, surgiram diversas montadoras, que começaram junto comigo, desenvolvendo esses componentes. Estamos produzindo agora um hospital em Betim, em Minas Gerais, num sistema misto de concreto e aço. Um dos impedimentos para o uso do aço, desde o início da aplicação da técnica no Brasil, são os tratamentos contra fogo. Para isso, usam-se materiais de revestimento de alto custo, encapando toda a estrutura. O que significa cerca de 20% de custo maior em comparação com o concreto. Hoje essa realidade é diferente. É muito competitivo trabalhar com aço. Estou fazendo diversos projetos de hospitais com esse material. O tempo de construção é um quinto do tempo gasto quando as estruturas são de concreto. O tempo, nos anos 1960, era relativo. Hoje, o tempo de canteiro é fundamental. O que se defende agora como sustentável eu sempre fiz.

“Entender que precisamos das outras áreas nos alimentando é a chave para o futuro. Se você não sabe, busque quem saiba, consulte um especialista. O arquiteto deve saber coordenar equipes complexas, e não dominar todas as áreas. Esse é o nosso papel. A arquitetura é um conjunto equilibrado de sistemas e formas que tem como referência o homem, que é quem vai usá-la.”

Qual é, para o senhor, sua obra mais marcante?
A casa de Atibaia, de 1974. É uma lição de sustentabilidade.

Qual foi sua obra mais difícil?
Sem dúvida foi o Centro de Pesquisas da Petrobras, na Ilha do Fundão, de 2004 a 2008. A qualidade arquitetônica, espacial, fazer uma obra no Rio de Janeiro com quase 90% sem ar-condicionado. É uma aula de arquitetura completa, com 177 mil m², para 4 mil cientistas, com 270 laboratórios diferentes e customizáveis, com todos os sistemas chegando a qualquer ambiente. É um exemplo de contribuição técnica sem precedentes no Brasil.

Como é seu processo de concepção?
Ainda é no lápis. A forma de projetar nasce de reunião integrada de conceitos, pensamento, inteligência, disciplinas que extrapolam a área de arquitetura, com muitos profissionais produzindo o projeto. No centro da Petrobras, foram mais de 30 empresas, com suas especialidades, concebendo o projeto. Todos juntos.

Há outros arquitetos que admira?
Na verdade, Frank Lloyd Wright é insuperável. Ele tinha tudo o que uma obra contemporânea de hoje tem. A Casa da Cascata, a Fallingwater, é autêntica e atual. Naquela época, fazer o que ele fez foi fantástico. Mies van der Rohe, na área do aço, é também insuperável. Visitei obras dele em Chicago e Barcelona e percebi como sua produção é incrível. Nós no Brasil, que temos todo o ferro do mundo, exportamos minério, mas não o industrializamos aqui. Só recentemente isso começou a mudar. Certas áreas que não aceitavam o aço, com a hospitalar, passou a aceitar o material pela agilidade da execução. Hoje, os clientes pedem o aço. Lelé [João Filgueiras Lima] e eu tínhamos muito contato. Era uma admiração mútua.

CENTRO DE PESQUISAS DA PETROBRAS, NA ILHA DO FUNDÃO, RIO DE JANEIRO. COMPLEXIDADE SEM PRECEDENTES NA OBRA DE ZANETTINI

O que você gostaria de ter feito e ainda não fez?
Eu nunca projetei estádios. Veja, por exemplo, os erguidos para a Copa do Mundo. São reproduções de um sistema alemão amarrado, com uma ilogicidade muito grande em relação ao ambiente brasileiro. Na África do Sul, também para a Copa, depois de alguns anos dividiram os estádios para fazer habitação. Isso denota equívoco na solução arquitetônica. O Estádio de Manaus tem vigas tubulares de aço de 1,8 m de altura, com revestimento plástico. Solução inadequada para o clima da cidade. Nós poderíamos ter feito coisas muito mais versáteis e lógicas para um evento dessa magnitude. Planejadas para o pós, como conjunto, e não elefantes brancos espalhados pelas capitais.

Qual o conselho que daria a um jovem arquiteto?
Primeiro, que busque sempre formação ampla de arquitetura e engenharia. Informação complementar do setor ao qual não pertence. Obras feitas apenas por engenheiros são muito ruins em termos de implantação, planejamento global e plástica. Se o aluno não tiver essa formação dependente das duas áreas, não conseguirá ter êxito na produção. Entender a interdisciplinaridade como fundamental é a base. A digitalização que revolucionou o processo produtivo é evidência dessa necessidade. Tudo é informatizado, robotizados. Entender que precisamos das outras áreas nos alimentando é a chave para o futuro. Se você não sabe, busque quem saiba, consulte um especialista. O arquiteto deve saber coordenar equipes complexas, e não dominar todas as áreas. Esse é o nosso papel. A arquitetura é um conjunto equilibrado de sistemas e formas que tem como referência o homem, que é quem vai usá-la.

POR GUSTAVO CURCIO | FOTOS DIVULGAÇÃO