Edifício JCândido, concebido pela OCA em Porto Alegre, é exemplo no tratamento variado de fachadas

Um prédio de arquitetura autoral que se erguesse como um sopro de novidade em meio à paisagem do tradicional bairro Higienópolis na capital gaúcha. Eis o principal pedido da incorporadora MKS Empreendimentos à equipe de profissionais da Oficina Conceito Arquitetura (OCA). Já nas primeiras conversas sobre aquele que viria a se tornar o JCândido, edifício residencial com seis andares de estilo contemporâneo, o que se descortinava era o estabelecimento de um diálogo franco e fértil entre o discurso lógico do mercado imobiliário e a vibrante possibilidade de a arquitetura contribuir ativamente no desenho de cidades mais vivas, abertas e generosas.

Iniciada a fase de projeto, o primeiro desafio foi conceber o programa de acordo com as limitações do lote, de boa profundidade (45 m), porém com testada bastante reduzida (apenas 13,5 m). Levando em conta o desejo de que a edificação tivesse recuo suficiente para permitir aberturas em toda a extensão das fachadas laterais – o que impactaria consideravelmente nos ganhos de iluminação e ventilação cruzadas das unidades –, a largura disponível ficava ainda mais restrita. Chegou-se então ao traçado de um corpo de prédio com 7 m de largura e 32 m de profundidade, mantendo uma boa proporção estética com relação à sua altura, de 17,5 m.

POR DENTRO, ENERGIA INTIMISTA
A partir dessa configuração volumétrica, optou-se pela implantação de dois apartamentos por andar, além de duas coberturas dúplex no topo do edifício, totalizando dez unidades habitacionais, que variam de 94 m² a 154 m² privativos. O edifício apresenta um subsolo destinado exclusivamente à garagem e um andar térreo, onde se localizam a entrada principal e, ao fundo, mais vagas de estacionamento: o propósito foi garantir o conforto não só em relação à quantidade, mas também quanto à dimensão dessas vagas.

Para a configuração interna das unidades, o projeto permitiu que o número de dormitórios fosse flexível, oferecendo aos proprietários a possibilidade escolher um, dois ou três quartos, de dimensões variadas. Junto à fachada dos fundos, na face leste, uma sacada abre os dormitórios, para aumentar a incidência do sol da manhã. Já na fachada frontal, na face oeste, a varanda se conecta à sala de estar, que recebe diretamente o sol da tarde.

A linguagem visual da proposta ressalta a importância das áreas condominiais na rotina diária, criando uma agradável zona de transição entre o caos urbano e o conforto do lar. “Buscamos fazer com que o morador se sentisse em casa bem antes de abrir a porta de seu apartamento”, explica o arquiteto Maurício Ambrosi Rissinger, da equipe da OCA. A estratégia foi empregar uma mesma identidade sensorial desde as entradas de pedestres e veículos até o acesso dos apartamentos, passando por todas as zonas comuns. Materiais de aspecto orgânico – a exemplo de tijolinho aparente, concreto polido, mosaico de pastilhas e porcelanato rústico – fazem parte da composição, bem como uma paleta de cores acolhedora e uma comunicação gráfica de estilo moderno.

POR FORA, LEVEZA E PRATICIDADE
“O jardim frontal é um presente para a cidade, visto que não existe o tradicional gradil delimitando os espaços”, pontua Maurício Ambrosi Rissinger, acrescentando que o basalto, pedra abundante na Região Sul do país, foi o revestimento eleito tanto para os canteiros quanto para a calçada. Ainda na entrada do edifício, um mural grafitado, desenvolvido pela PaxArt, dá as boas-vindas aos moradores e visitantes e se exibe também para quem passa pelo local. “A proximidade do prédio com o passeio público cria uma ambiência convidativa e transmite maior sensação de segurança para quem vem caminhando pela rua”, complementa o arquiteto.

Na fachada, o destaque é o sistema de brises solares de alumínio, composto de três painéis móveis por andar, com 1 m de largura cada. A aparência desses painéis buscou uma identificação com o grande jerivá – um tipo de palmeira – preservado no recuo de jardim do terreno, motivo pelo qual o metal ganhou pintura eletrostática no padrão amadeirado. Retângulos salientes recobertos de pastilhas cerâmicas brancas emolduram apenas as sacadas do primeiro e do terceiro andar, criando um expressivo jogo volumétrico que maximiza o efeito visual dos brises em incessante movimento.

Nas fachadas laterais, telhas perfuradas de aluzinc (Quadroline perfurado, da Hunter Douglas) envelopam o edifício e reforçam o conforto térmico no interior dos apartamentos. Além do visual e da performance, contou pontos na escolha desse revestimento a facilidade de manutenção, princípio norteador do projeto. “As regras
gerais na definição de todos os itens presentes na construção foram ter durabilidade e resistência a impactos e intempéries”, explicam os autores. O uso da chapa perfurada na fachada, por exemplo, evita desbotamentos, rachaduras, necessidades de repintura e aplicação de vernizes. O esperado é que, mesmo daqui a décadas, o edifício tenha a mesma aparência de quando foi concebido, mantendo uma estética perene e aliviando custos futuros ao condomínio.

DADOS DA OBRA
ÁREA DO TERRENO 620 m²
ÁREA CONSTRUÍDA 1.742 m²
INÍCIO DO PROJETO 2015
CONCLUSÃO DA OBRA 2017

FICHA TÉCNICA
ARQUITETURA Oficina Conceito Arquitetura (OCA)
EQUIPE TÉCNICA Massilon Kopper, Rafael Kopper, Anna Falkenberg Muller, Maurício Ambrosi Rissinger, Daniel Dagort Billig, Guilherme Nogueira e Tiago Scherer
INTERIORES Rafael Kopper
CONSTRUÇÃO E INCORPORAÇÃO MKS Empreendimentos
INSTALAÇÕES ELÉTRICAS T. Peres Instalações
MURAL DE GRAFITE PaxArt

FORNECEDORES
TELHAS DE ALUZINC (Quadroline perfurado) Hunter Douglas Brasil
ESQUADRIAS E BRISES DESLIZANTES Esquadrias Vetrus
REVESTIMENTOS Vidrotil e Ceusa
GESSO Sul Gesso
PORTAS Talien
VIDRO Casa Vidro
CONCRETO Engemix
IMPERMEABILIZANTES Viapol
TINTAS Suvinil
ELEVADORES Atlas Schindler

POR CARINE SAVIETTO | FOTOS RODOLPHO REIS