Trabalho do arquiteto paulistano Pedro Franco causa impacto mundo afora e é comparado ao dos irmãos Campana. São dele criações bem brasileiras, a exemplo da cadeira Esqueleto, feita de materiais injetados e fibras de acerola, coco e açaí, que hoje integra o acervo permanente do Vitra Design Museum, na Alemanha

Uma cadeira é apenas uma cadeira – a não ser que seu criador seja Pedro Franco. Aos 40 anos e com alguns fios grisalhos na cabeça, o arquiteto paulistano transforma objetos inusitados e conceitos abstratos em lugares para as pessoas se sentarem. Quando ainda era estudante de arquitetura da Escola de Belas Artes, no ano 2000, ele criou sua primeira peça surpreendente usando uma câmara de ar de um carro, uma de caminhonete e uma de trator, cobertas de lycra. Batizada Orbital, a poltrona venceu em 1o lugar o prêmio nacional de design Brasil Faz Design. Outra de suas invenções é a cadeira Esqueleto, feita de materiais injetados e fibras de acerola, coco e açaí, que hoje integra o acervo permanente do Vitra Design Museum, em Weil am Rhein, na Alemanha.

Filho de pai arquiteto e mãe pedagoga, Franco cria móveis insólitos dentro do princípio que ele chama de “glocalidade”: a projeção internacional com base em profundas raízes locais. Discreto, empreendedor e modesto, hoje o arquiteto produz em escala industrial e expõe as peças de sua empresa, A Lot of Brasil, nos mais importantes salões de design de mobiliário do mundo. Franco já soma, só em Milão, 12 participações. Nesta entrevista, o homem capaz de fazer mobiliários com rebatedores de luz e câmeras pneumáticas fala de sua trajetória, conta como é ter o trabalho comparado ao dos irmãos Campana e revela seus planos para o futuro.

Como foi o início de sua formação?
Comecei a estudar arquitetura na Bela Artes, mas minha grande paixão sempre foi o móvel. Eu perdia um terço do meu tempo de projeto fazendo a edificação e dois terços pensando no mobiliário. No meio desse percurso, fiz um workshop no MuBE [Museu Brasileiro da Escultura, em São Paulo] com os irmãos Humberto e Fernando Campana. Foi um momento muito importante para mim, porque os Campana eram livres dos preconceitos do mundo do design. Eles procuravam novas formas criativas, buscavam novos processos e transformavam tudo aquilo em produtos de vanguarda. Assim, eles tiraram um pouco dessa síndrome de vira-lata do design brasileiro. Entendi ali como poderia encontrar meu espaço e criei uma poltrona chamada Orbital, feita com câmeras de ar entrelaçadas e desenvolvida durante um workshop com eles. Ali mudou tudo: eu venci um concurso nacional, fui para a Itália e conheci alguns curadores internacionais.

Ser comparado aos irmãos Campana é bom ou ruim?
Quando você é comparado com profissionais de nível tão elevado, como são os Campana, lógico que é sempre bom. Ruim é quando você é comparado com quem não tem todo esse valor. Os Campana são gênios, eu acho que eles transformaram a história do mobiliário, tanto do brasileiro quanto do mundial. Como fiz um workshop com eles, é natural que tenha seguido a mesma vertente. O que me incomoda é que eles têm um nível muitíssimo elevado, eles são vanguardistas. São trendsetter mesmo, porque lançaram movimentos. O mais difícil não é desenvolver um bom produto, é lançar um movimento, como a bossa nova e a pop art. E os Campana têm a responsabilidade de ter lançado um movimento dentro dessa estética mundial. Isso vai parar na arte, no design, no vestuário. Então fico muito envaidecido porque há uma comparação com artistas do mais alto nível, porém, tenho consciência de que estamos muito aquém do que são Fernando e Humberto Campana.

Em qual poltrona você sentaria agora: na Mole ou na Favela?
Eu, obviamente, sentaria na Favela. Considero o Sergio [Rodrigues, arquiteto e cenógrafo] um mestre, ele é igualmente sensacional para o mobiliário dos anos 50 etc. Mas para a minha verve, por tudo o que significa, eu tenho uma sintonia muito grande com a obra dos Campana. E, mais que isso, sou apaixonado pela estética deles. Agora, fazendo um parênteses: onde eu acho que a gente entra nesse sentido de muita relevância – e a gente que eu digo não é o Pedro, mas a A Lot of Brasil – é na questão de industrializar e democratizar o design brasileiro, trazer uma outra forma de visualização do nosso design.

O que significa para você democratizar o design brasileiro?
Necessariamente ele passa pela industrialização. E aí entra um momento antagônico para mim, que foi quando lancei A Lot of Brasil, em 2012. Nosso consultor e diretor de arte, o italiano Vanni Pasca, mostrou que teríamos que seguir a seara do industrial como nosso DNA. Tanto que ele criou uma denominação para a gente, que é a “brasilidade industrial”. No meu momento pós-Campana eram peças muito artesanais, e de repente, com A Lot of Brasil, chegamos a peças que custam uma fortuna em processo produtivo, uma indústria de produção em grande escala. Daí eu tive uma crise de identidade, porque uma coisa é você fazer um processo criativo com a sua própria mão ou uma pequena equipe. Outra é ter a responsabilidade do design estratégico, ter um molde de produto que, às vezes, custa 200 mil ou 300 mil reais ou euros, dependendo do nível do molde. Então, você tem que ser muito mais assertivo em uma pesquisa de mercado. Então qual é o grande desafio hoje? É conseguir ter esse design dentro de uma escala industrial, mas com alma. Porque a indústria pela indústria você tem a China invadindo o mundo inteiro com suas cópias. Por isso é preciso colocar também os valores do seu produto. Não basta ser industrial, ter novas tecnologias e materiais. Tem que ser sustentável, ter uma assinatura. No fim das contas, acho que a cadeira Esqueleto acabou virando um símbolo dessa transição.

“São essas questões que chamamos de glocalidade, e pode ser até uma espécie de reação a essa cultura massificada chinesa. Quando falamos num molde com valores altos, tem que pensar em vender em várias partes do mundo. É o que as marcas italianas fazem.”

Ela seria um resumo do seu processo de maturação?
Sim. A primeira Esqueleto foi feita no processo que aprendi com os Campana. Andando no centro de São Paulo, eu achei aqueles cabides usinados dos anos 1950 e fiz a recontextualização deles numa peça que remetia ao esqueleto humano. Mas dessa forma eu só conseguiria produzir umas dez cadeiras por dia. Cada peça dessas ia custar uns 8 mil reais, num processo totalmente artesanal. Daí decidimos fazer essa peça injetada. Da primeira peça feita para essa industrial, a cadeira ganhou muita ergonomia. Deixou de ser um cabide e virou uma peça feita para abraçar. Cada vez que a gente aperta um botão para o molde, aquilo injeta mais de mil unidades. Pesquisamos novos materiais, falamos com uma empresa encubada na Universidade de São Carlos [UFSCar], desenvolvemos acerola injetada, bambu injetado, madeira injetada. É uma peça feita nesse princípio de escala, mas com valores locais nossos, brasileiros e sustentáveis.

Como você equilibra essas duas forças: sua brasilidade, ao pesquisar materiais autênticos nacionais, e a onda da globalização?
O mundo não tem esquinas hoje. Mas ao mesmo tempo acaba sendo predatório com algumas questões culturais. E nunca esteve tão em voga o valor da “glocalidade”: a globalização com a localidade. São pequenos recortes de cada lugar em que você está inserido que acabam sendo úteis para o mundo global. E o consumidor entende isso. Quando ele vai comprar uma Esqueleto, não quer saber só da qualidade e que tenha um custo mais acessível. Ele quer saber a história, conhecer a alma do produto. São essas questões que a gente chama de glocalidade, e pode ser até uma espécie de reação a essa cultura massificada chinesa. Quando a gente fala aí num molde com valores altos, com grande número de peças vendidas, você tem que pensar em vender em várias partes do mundo e é preciso pensar em termos de globalização, que é o que as marcas italianas fazem. As indústrias italianas exportam 70% do que produzem para o mundo e só 30% para o mercado local.

E vocês, quanto exportam?
A gente hoje está exportando 40% da nossa produção.

Daqui a pouco vocês chegam aos 70% dos italianos.
Adoraríamos isso. Fomos buscar designers do mundo inteiro. Temos uma designer eslovena chamada Nika Zupanc, temos um designer recentemente falecido da República Tcheca, que é o Borek Sipek, temos um indiano, Satyendra Pakhale. Eles desenharam peças exclusivas para nós com o briefing da brasilidade. Temos o Alessandro Mendini, que tem 86 anos e esteve aqui conosco há três anos e não queria ir embora. A gente tem um potencial, um lifestyle altamente exportável. E eles querem esse nosso terroir, essa alegria do brasileiro, querem sentir um pouco da nossa atmosfera.

Para onde você está caminhando agora?
Este ano de 2017 teve algo a mais para nós. É quando você encontra um propósito no seu trabalho. A nossa alma, que era simplesmente buscar novos materiais, se materializou na região do Cariri, no Ceará. A gente escolheu uma arquiteta local, a Ana Virginia Furlani, para ser nossa curadora cultural. Aí fomos atrás de designers famosos, emergentes, brasileiros, italianos, e eles tiveram que pensar sob a ótica do Cariri. Ao mesmo tempo a gente conseguiu trazer ideias da xilogravura do Cariri, repentistas fizeram cordel sobre a nossa história, e pedimos para um grande DJ chamado Igor Cunha remixar canções que ela selecionou lá no Ceará. A gente ficou uma semana naquela região. E, lá no Cariri, as pessoas têm o costume de levar aquela cadeirinha espaguete para a frente da casa para sentar e ficar conversando. Ao trabalhar nesse processo, lançamos a cadeira Sertão.

Além dos irmãos Campana, quem são seus mestres?
Uma pessoa que eu amo de paixão é Alessandro Mendini. O design nos anos 1970 vinha seguindo um caminho mais sério, e de repente aparece ele junto do grupo Memphis e faz uma revolução. A gente não poderia falar do mundo da arte se não tivesse o Marcel Duchamp, e se não tivesse um Duchamp não teríamos um Basquiat, um Andy Warhol. Foram rupturas que aconteceram e o Mendini foi muito importante, porque o design estava ficando sisudo, e ele trouxe bom humor, a questão mais colorida e irreverente do design.

Você é criativo e empreendedor ao mesmo tempo. Existe conflito nisso?
O problema de ser criativo e seguir num mundo de business é que nunca sei se estou decidindo algo pelo business ou pelo emocional. Eu sei que a cadeirinha preta e muito mais funcional vai vender mais que um sofá laqueado ultracolorido do Alessandro Mendini. Mas a cadeirinha preta não teria a alma que a gente está falando. Acho que a A Lot of Brasil seguiu um caminho quase 100% emocional.

Chegou a perder dinheiro por causa disso?
Cheguei. Não é fácil lançar uma indústria de design. Criar uma marca de design significa comprar o projeto, investir em processos produtivos, em pesquisas, e tudo isso é difícil. Quando começamos não havia um termômetro avisando que a economia sofreria uma queda. A gente lançou a marca em 2012 pensando em ser efetivamente democrático, e de repente, em 2014, veio aquela supercrise. Só que cada produto leva anos para ser desenvolvido. A gente teve que refazer a estratégia da marca porque não dava para ser tão democrática. O Brasil naquele primeiro momento era uma potência gigantesca porque tinha uma classe média baixa consumindo, consumindo. No primeiro ano, participei de feira em vários países – Estados Unidos, México, Chile, Itália, França, Emirados Árabes. Tínhamos aquele desejo de sair vendendo para o mundo inteiro, mas não é assim. Para ter credibilidade, a pessoa tem que te ver um ano na feira e, de novo, no ano seguinte. Essa frequência faz as pessoas levarem você a sério. Não basta ter um bom produto, tem que ter comunicação, fazer o storytelling do produto. A ideia é que me vejam ano após ano de uma forma bem apresentada. Isso é fundamental. Tem que ter identidade de marca. É a “company reputation”. Este ano com nossa linha Cariri tinha muita gente dizendo, “nossa, que maravilha, isso é Brasil”. Eu não estou só vendendo móvel. Estou vendendo a história que está por trás do móvel, e estou levando a minha história, do meu país, da minha região.

Dos novos designers, de quem você gosta? 
Tem o Thiago Lutz. Ele viu uma entrevista minha, gostou do meu trabalho e me escreveu dizendo: “Olha, Pedro, estou fazendo essa cadeira, e tal”. Vi o produto e pensei: vamos focar a tropicalidade. E mandei para ele umas fotos do Cariri. Ele refez a cadeira pensando nisso. Foi tão proativo que encomendei todo um set com ele. Chamei o Thiago e disse “Quero que você trabalhe do meu lado. Você continua com suas peças autorais e vai trabalhar com a gente porque gostei da sua linguagem”. Gosto também do trabalho do Paulo Alves, que está cheio de brasilidade, com peças mais focadas em madeira. Tem outro rapaz que eu adoro, Sérgio Matos, da Paraíba. Ele também tem um trabalho superautoral, com cordas náuticas, e eu acabei de convidá-lo para uma coleção.

Com qual design você sonha para o Brasil e o mundo?
Eu gosto muito do Victor Papanek. Foi um pensador, morreu quase no ostracismo, mas no fim das contas se mostrou uma pessoa de muito valor. Foi o primeiro a falar em sustentabilidade, da questão da glocalidade, com outros termos. Ele dizia uma coisa que me parecia fundamental: o design pode ser a melhor ferramenta ou a pior. A melhor ferramenta é quando tem uma responsabilidade de certa forma social. Que pode ser desde a inserção de uma mão de obra específica até a sustentabilidade do produto, a sua democratização. Existem várias instâncias de responsabilidade social. Tem um produto que eu amo e odeio que é meu iPhone. Ele revolucionou na função, mas tem questões de sustentabilidade que não são atendidas ainda. Este é o meu quarto iPhone. O que fiz com os outros três? Estão por aí, ultrapassados. Eles não fazem um trabalho de reciclagem disso. Victor Papanek dizia isso nos anos 1960, que o pior design está em função do marketing. O design vira uma ferramenta de consumo puro e simples.

Aonde você quer chegar?
Eu quero chegar efetivamente a ser uma marca global com valores brasileiros. Sou apaixonado pelo nosso país e pelo nosso povo. Outro dia fui a Palmas [no Tocantins]. Nunca tinha ido. Lá, encontrei pessoas ávidas de saber, de cultura, abertas ao novo. Ao mesmo tempo encontrei um trabalho de iconografias como nunca vi em nenhum lugar do mundo. Quanto mais você conhece, mais você gosta.

Você foi para o Cariri em 2017. Para onde vai em 2018?
Estamos em dúvida, mas agora estou muito apaixonado pelo Tocantins, e aí entra a Chapada dos Veadeiros.

Falta muito para chegar aonde quer?
Se eu fosse fazer uma tatuagem, seria “Keep working”. Mantenha-se trabalhando. Eu cheguei muito além do que pude imaginar no meu melhor cenário. O que vier agora é lucro. Para virar uma marca global, ainda falta muito a camelar, aprender a fazer.