Encravado no topo de um mirante entre verdes montanhas da capital mineira, complexo cervejeiro se destaca pelo traçado arquitetônico inventivo e envolvente de Gustavo Penna

No princípio, eram dois elementos primordiais: um cenário de tirar o fôlego e um briefing que apontava para a criação de um ambiente propício tanto à produção quanto ao consumo de cervejas artesanais de alta qualidade. Entrelaçar essas duas pontas e amarrá-las com o desejo de surpreender os visitantes com uma miríade de experiências sensoriais foi o trabalho empreendido pelo arquiteto Gustavo Penna (GPA&A) ao projetar o Ateliê Wäls, novo complexo da cervejaria mineira que firmou parceria com a Ambev em 2015.

O local escolhido para a implantação do espaço foi um antigo galpão fabril, acomodado no topo de um dos idílicos morros do bairro Olhos D’Água, em Belo Horizonte, razão pela qual privilegiar a paisagem foi o ponto de partida. “A cidade, vista assim do alto, mais parece um céu no chão”, pontua o arquiteto, citando a canção de Paulinho da Viola para justificar o fechamento envidraçado que envolve a construção de 1.900 m² distribuídos em três pavimentos.

O primeiro impacto oferecido ao público está no visual da fachada, marcada por uma sinuosa cobertura de madeira que remete à imagem de uma barrica desdobrada. Em seguida, outros símbolos e materiais ligados ao universo da cerveja – como rolhas, garrafas, bolhas, metal, madeira e concreto – dão corpo à proposta de forma lúdica. Tudo planejado para que, além de ser um point de degustação, o empreendimento alcance o status de um verdadeiro museu contemporâneo dedicado à bebida.

BOAS-VINDAS EM GRANDE ESTILO

A casa oferece restaurante, loja, adega, fábrica e escritório. No piso de entrada, há o lounge da recepção; um andar abaixo, espaço para convidados vip. O patamar inferior, por sua vez, concentra as principais atrações da cervejaria.

Ao adentrar nesse nível, o visitante tem o olhar imediatamente capturado por uma cortina de impressionante efeito cênico, formada por 135 mil rolhas, que evidencia uma estante suspensa repletas de garrafas produzidas ali. Logo abaixo, vem a vedete do bar: uma sequência de torneiras de chope para degustação instalada em um curvilíneo balcão de fibra de vidro de tonalidade avermelhada – referência direta à coloração da cerveja IPA (India Pale Ale).

A área destinada às mesas é iluminada por um conjunto de lâmpadas do tipo globo de três tamanhos diferentes, que resulta em uma grande luminária que cria um efeito de “bolhas de cerveja”, além, é claro, de ter ares de obra de arte. Emoldurando esse espaço estão barricas que comportam mais de 100 mil litros de bebida, a fim de envelhecer e fermentar cada rótulo em seu devido tempo. Segundo a Wäls, é o maior barrel room da América Latina dedicado apenas à produção cervejeira.

Na loja, a opção pelo forro de madeira e pelo uso de páletes na parede dos fundos – atuando como revestimento acústico – contrasta com o balcão de vidro, que ostenta taças translúcidas enfileiradas. “O visual ficou ao mesmo tempo bruto e leve, uma metáfora perfeita para a cerveja”, afirma Penna.

Logo acima, a adega acomoda 20 mil garrafas de cerveja do tipo champenoise, espumante produzido para a guarda. Os tanques de fabricação – cujo setor é separado dos escritórios por divisórias de vidro vermelho – completam o espaço, aberto à visitação.

PASSADO INCORPORADO

Estruturalmente, a proposta aproveitou o esqueleto de concreto armado do antigo galpão, construído com o sistema chamado de laje zero, que não exige contrapiso nem forro. Foi necessário ainda lançar mão de um reforço estrutural metálico, realizado com o intuito de suportar a carga acrescentada ao conjunto por causa da cobertura em forma de barrica, que define sua volumetria.

Como finalização, o fechamento externo que existia antes foi substituído por painéis envidraçados, instalados em caixilhos metálicos. O vidro, por sinal, também tem uma presença importante internamente, pois permite uma organização espacial que não oferece sensação de confinamento aos ambientes.

Na área externa, que conta com mirante e área de estacionamento para food trucks, outro elemento preexistente foi mantido e, dado o seu visual rústico, incorporado ao projeto com perfeita harmonia: trata-se do muro de arrimo de gabiões, estrutura de contenção formada por pedras empilhadas e presas em gaiolas de arame.