Editorial: a arte de envelhecer bem

Sempre me pergunto se os grandes expoentes da arquitetura moderna – no Brasil e no mundo – pensaram sobre o envelhecimento dos edifícios saídos de suas pranchetas. Ao caminhar pelo célebre Salão Caramelo, área aberta do icônico edifício criado por Vilanova Artigas para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, é fácil perceber que um remendo de epóxi alemão nos 1.000 metros quadrados não pode ser feito sem deixar marcas. O mesmo vale para as imensas empenas cegas de concreto aparente, tão usadas no apogeu brutalista. As soluções de recuperação adotadas ao longo do tempo contrariam os princípios básicos da escola moderna. Basta observar as estruturas de concreto da capital Brasília cobertas de tinta branca para entender um pouco desse fenômeno.

O projeto que ilustra a seção História em Detalhe desta edição é exemplo de como a arquitetura moderna pode sobreviver por gerações. O Hotel Antumalal, implantado em uma encosta do Lago Villarica, em Pucón, no sul do Chile, permanece pujante e preservado ao longo de 65 anos de uso ininterrupto. Com arquitetura visivelmente inspirada nos princípios da Bauhaus com pitadas da Falling Water, de Frank Lloyd Wright, os volumes de caixilharia generosa parecem flutuar aos pés do vulcão mais ativo do continente. O mobiliário, concebido pelo mesmo arquiteto do hotel, Jorge Elton, remete à conhecida cadeira Butterfly e teve em sua concepção o espírito da reposição dos assentos diante do desgaste do uso: couro e cordas náuticas são trocados ao longo dos anos, preservando a estrutura metálica da base.

Entre alunos e funcionários da FAU-USP, a fachada recuperada do edifício de Artigas ganhou o apelido de “50 tons de cinza”, devido à irregularidade das cores do concreto original e aos fragmentos repostos durante o restauro (muito bem executado, diga-se de passagem). É fato que os domus nunca resplandeceram tanto desde a inauguração do prédio, na década de 1960. Estão limpos e têm coloração uniforme. Prato cheio para os amantes do patrimônio, os edifícios modernos carecem de cuidado e critério – além de tecnologia de ponta – para voltar a brilhar como no ápice do movimento que consagrou nossa arquitetura.

Boa leitura.

“As soluções de recuperação adotadas ao longo do tempo contrariam os princípios básicos da escola moderna. Basta observar as estruturas de concreto da capital Brasília cobertas de tinta branca para entender um pouco desse fenômeno.”