Conforto ambiental e espaço público são privilegiados em projeto de casa-ateliê erguida com alvenaria estrutural no interior de São Paulo

Erguida com alvenaria estrutural aparente, a Casa-Ateliê da Vila Charlote ocupa um terreno estreito e alongado (7 m x 21 m), em Presidente Prudente (SP). As características do lote impuseram desafios ao grupoDEArquitetura na criação do projeto, principalmente ao que se refere à organização espacial da construção de uso misto, que abriga a residência e o escritório de arquitetura da autora deste projeto.

A busca pelo conforto ambiental e a gentileza urbana proporcionada pelo recuo frontal (não obrigatório), que estimula o convívio, são outros aspectos marcantes da obra.

A construção ocupa o lote em toda sua largura, sem os recuos laterais. “Uma área de apenas 7 m de frente define como partido uma ocupação que, necessariamente, deve tocar suas divisas para possibilitar a organização dos usos dos espaços. A partir disso, foram dadas as soluções de iluminação zenital e ventilação cruzada”, explica a arquiteta Cristiana Pasquini, fundadora do escritório grupoDEArquitetura.

As telhas trapezoidais do tipo sanduíche ocupam a maior parte da cobertura, com exceção da porção longitudinal, onde a luz natural entra através das telhas brancas leitosas de acrílico. O recuo na laje maciça de concreto do 1o pavimento faz com que a iluminação zenital chegue ao térreo, clareando o escritório do grupoDEArquitetura, um vazio de 100 m² apelidado de galpão. “Aqui funciona nossa empresa. É onde nos agrupamos para trabalhar, conversar, atender clientes, fazer festas, discutir arquitetura, artes e todos assuntos de que gostamos. É um vazio que contém alma”, diz a arquiteta, que mora com o marido e a filha no pavimento superior.

A casa-ateliê foi concebida em alvenaria estrutural aparente, de acordo com os critérios de modulação (sempre com bloco inteiro ou meio bloco), minimizando as perdas e o desperdício de material. “A construção é um ato racional, métrico e lógico. Nós acreditamos que o projeto que se desenvolve embasado em um processo construtivo claro traz ganho de tempo e de recurso durante a obra”, afirma Cristiana.

Os blocos de concreto aparente reforçam o aspecto despojado da arquitetura, assim como o contrapiso de concreto polido do térreo e a laje de concreto polido do 1o pavimento. “A eliminação do acabamento mostra a beleza da cor do concreto. No caso da alvenaria, foi revelado o ofício do assentador de blocos, uma destreza rara hoje em dia”, acrescenta a arquiteta.

CROMATISMO EM EVIDÊNCIA

Nas fachadas frontal e posterior, cobogós apoiados sobre uma viga metálica (veja foto na página 20) que faz a amarração do edifício filtram a luz do dia, além de permitir ventilação cruzada. Em ambos os elementos vazados, portas de vidro de correr protegem a área social da residência e os fundos da suíte do casal das chuvas e dos ventos de outono. “O cobogó é um lugar de cores na vastidão de concreto”, diz Cristiana, referindose ao fato do interior de cada bloco ter sido pintado de cores distintas.

A experiência de cores acontece para os usuários da casa-ateliê e também para os transeuntes que se deslocam pelo passeio público. A arquiteta explica que, ao criar um recuo não obrigatório de 3 m em frente à edificação, o projeto proporciona “uma gentileza urbana e oferece uma zona de transição entre espaço público e privado, cedendo ao espaço público uma área de permanência”. “Uma casa sem portões é um convite ao encontro de calçada”, completa a autora do projeto arquitetônico.

Adjacente à área central da cidade, o bairro onde a construção está implantada tem se esvaziado com a troca do uso residencial pelo comercial, gerando insegurança dos moradores, a maioria idosos, que agora podem se beneficiar de iniciativas como essa, realizada pelo grupoDEArquitetura. “Escolher esse lugar para implantar da casa-ateliê nos possibilitou dialogar com a cidade em dois níveis: na troca com a pouca vizinhança que ainda reside aqui e na proximidade do centro comercial da cidade, importante fator para a inserção de um escritório de arquitetura”, conclui Cristiana.

ORGANIZAÇÃO DE ACESSOS E USOS

Situada no eixo dos acessos ao escritório e à residência, a porta pivotante, pintada de amarelo por dentro, organiza os fluxos: à direita, leva à recepção do galpão (escritório de arquitetura); à esquerda, dá para a escada que culmina na casa. Um pivotante duplo que permite uma relação direta com a rua – e permanece aberto em dias de festa – foi pintado de azul enegrecido por fora, assim como o grande portão do galpão.