Arquitetura de Frank Lloyd Wright no sul do Chile

A entrada acanhada da construção encravada na encosta esconde o verdadeiro tesouro do Hotel Antumalal: a vista panorâmica para o Lago Villarica. De cara, as referências à arquitetura moderna de Frank Lloyd Wright se mostram evidentes, com as cores primárias pronunciadas, caixilharia generosa e mobiliário moderno 100% em harmonia com as linhas paralelas do edifício. Com capacidade de receber até 50 hóspedes, vanguardista no conceito de hotel boutique, Antumalal significa, em mapudungun (idioma da população local, os mapuches), “onde se aconchega o sol”.

A história do icônico edifício, que recentemente recebeu projeto de retrofit em uma de suas células – a antiga casa de chá deu lugar a um chalé com quatro quartos, sala de estar, cozinha americana e um belvedere a partir da generosa varanda -, começou em 1939, com a chegada do casal de imigrantes tchecos Guillermo e Catalina Pollak à cidade de Pucón. Responsáveis pelo Hotel Playa, pequeno bed and breakfast no centro da cidade, os Pollak logo assumiram maiores responsabilidades: partiram para a base do vulcão Villarica, que domina a paisagem local, sendo um dos mais ativos do Hemisfério Sul, e passaram a gerenciar a estação de esqui ali estabelecida por imigrantes alemães. “A paixão pela montanha e pelos esportes de inverno levaram meus pais até Pucón”, conta Rony Pollak, filha do casal que chegou à América do Sul pelo Paraguai e responsável pelo hotel hoje em dia. Em 1949, uma grande erupção do Villarica destruiu o refúgio do casal. Na mesma época, Guillermo comprou a propriedade onde foi construído o Antumalal. O terreno, então subvalorizado pela topografia acidentada, que impossibilitava a criação de animais e a agricultura, foi a base perfeita para a construção arrojada ainda na década de 1940.

O primeiro edifício construído foi uma casa de chá à beira do lago, tocada pela mãe de Catalina, Davita, com iguarias típicas de Praga. Muitos pescadores tinham ali um refúgio próximo à orla, e a fama do local chegou até as autoridades de Pucón e, em seguida, ao então presidente do Chile, Gabriel González Videla. “Meu pai, um visionário, aproveitou a visita do presidente e pediu a ele a viabilização de um empréstimo para a construção do Hotel Antumalal”, conta Rony. Na época, já existia na cidade o imponente Hotel Pucón, no centro. “Por esse motivo, houve certa resistência, mesmo diante da anuência de Videla, em conceder o financiamento por meio do banco estatal. Afinal, já existia na cidade um hotel de luxo”, completa.

Ao longo dos anos, o hotel recebeu hóspedes ilustres, como Neil Armstrong, James Stewart, Barry Goldwater, Emma Thompson e a rainha da Inglaterra, Elisabeth II.

ARQUITETURA VANGUARDISTA NO RINCÃO

Soa estranho uma construção purista como a de Jorge Elton, claramente inspirada na Escola Bauhaus e no mimetismo entre natureza e a arquitetura de Frank Lloyd Wright em pleno interior do Chile. “Guillermo buscou em Santiago o que havia de mais arrojado em termos arquitetônicos no país, e assim chegou até Elton”, conta Rony. Jorge Elton estudou na Universidade Católica do Chile, ainda hoje um dos principais centros de ensino de arquitetura em todo o mundo, e formou-se no mesmo ano de Jorge Aguirre, em 1939. Colaborou com Alberto Cruz Covarrubias, outro vanguardista chileno. Conhecido pelo trabalho com sistemas construtivos pré-fabricados em conjunto com o engenheiro Joaquin Gandarillas, era especialista no desenvolvimento de estrutura híbridas de madeira e concreto.

Um detalhado mapeamento das árvores e rochas da encosta foi feito pelo arquiteto e permanece até hoje na construção, impecavelmente preservada pelos proprietários. Fernando Perez, arquiteto e PhD formado pela Universidade Católica do Chile em 1977, discorre sobre o projeto: “O Antumalal foi colocado na encosta em perfeita harmonia com a paisagem local. O respeito à floresta nativa e à topografia foi determinante para a implantação do complexo. A entrada do hotel esta colocada sobre uma cascata, que corre pela parte inferior da construção e deságua no lago”. As referências à icônica residência projetada por Wright na Pensilvânia em 1935 são claras. Dentro do spa, uma rocha escarpada coberta de musgos recebe a água da cascata, que respinga sobre umas das jacuzzis.

Segundo Perez, o arquiteto aproveitou da topografia acidentada para encaixar plataformas na encosta e assim concebeu a plataforma do restaurante – que se abre para a paisagem por meio do generoso terraço. As paredes revestidas de lascas de araucárias fazem do espaço uma mistura da linha Bauhaus e elementos típicos locais. A estratégia de construir a infraestrutura junto aos taludes e lançar plataformas em balanço sobre o jardim rendeu a vista surpreendente para o Lago Villarica. O formato em “L” é resultado da articulação de dois pavilhões perpendiculares, sendo o primeiro formado pelas suítes com vista para o lago (fachada norte) e dois espaços de permanência com orientação oeste. O segundo piso do pavilhão de hóspedes tem mais suítes (originalmente foi a residência dos Pollak) e possui um terraço com vista para um conjunto de árvores lingue, espécie local explorada pela qualidade da madeira. Cada quarto tem seu próprio sistema de aquecimento por meio de chaminés e lareiras independentes – embora hoje em dia o hotel conte com moderno sistema de aquecimento e calefação por caldeiras. A onipresença de pedras e quedas d”água entranhadas na construção é referência marcante à estética wrightiana.

O sistema construtivo, baseado em estruturas de concreto armado, foi uma exigência de Guillermo Pollak. O trauma gerado pela perda do Hotel Playa – que sucumbiu a um incêndio – tornou o proprietário avesso às estruturas de madeira. O engenheiro Luis Matte, contratado à época para o projeto estrutural, não propôs mudanças significativas na arquitetura de Elton. Uma viga horizontal de 6 m é a base do volume principal. Os materiais empregados misturam texturas do concreto aparente – referência brutalista que dispensa a regularização das superfícies após a retirada das fôrmas – pedra e madeira. O mosaico alternado de paredes rubras lembra o raciocínio de Mies van der Rohe para o Pavilhão de Barcelona (1929), em outra referência ao moderno. A lógica de concepção dos espaços se reflete também no mobiliário, criado por Elton e conservado pelos proprietários até hoje. As formas orgânicas da estrutura são ergonomicamente adaptadas ao aconchego do bar – as poltronas fazem referência à clássica BKF Chair, ou Butteffly Chair, projetada em 1938 por Antonio Bonet, Juan Kurchan e Jorge Hardoy. Substratos de couro e cordas (típicas de embarcações) são substituídos de acordo com o desgaste natural gerado pelo uso constante. A estrutura dos assentos é feita de vergalhões de aço dobrado.

UM TESTEMUNHO DA CONCEPÇÃO

Integrante do grupo de arquitetos que acompanhou Alberto Cruz, Miguel Eyquem escreveu um testemunho do trabalho de Jorge Elton. “Em 1947, Elton construiu uma série de casas de madeira combinada a painéis cimentícios com a ajuda do engenheiro Jorge Gandarillas”, escreveu. Na época, Eyquem fazia parte do time de arquitetos e pode vivenciar os desafios da demanda imposta por Pollak. “Um plano de regularização topográfica do terreno em Pucón tornaria o projeto inviável pelo custo, além de destruir a floresta nativa da encosta do lago”, registrou. O projeto do hotel foi concebido entre 1947 e 1948. Simplicidade e racionalismo foram os motes principais para as tomadas de decisões e partido da construção. Segundo Eyquem, a referência à Falling Water está evidente em todo o complexo de dois volumes separados por uma plano vertical, incluindo o ruído da água que passa sob a construção, numa clara referência o projeto de Wright.

RETROFIT E CONSERVAÇÃO

O serviço impecável do hotel e a natureza exuberante do entorno – rafting, trekking, banhos termais estão entre os atrativos da região – não é o que torna Antumalal diferenciado se comparado aos vizinhos. Sem dúvida a arquitetura moderna conservada e constantemente revisitada é ímã para hóspedes que buscam espaços arquitetônicos arrojados. A Casa do Lago, que teve retrofit concluído em 2015, conservou a estrutura externa original da antiga casa de chá e recebeu projeto de remodelação para abrigar unidade de quatro dormitórios. A lareira emblemática da construção original foi mantida intacta.

PAISAGISMO ENVOLVENTE

O Parque Antumalal, como é chamado pelos administradores do hotel, é formado pelo jardim que ocupa os 7 hectares da propriedade. Apenas 1 hectar da gleba é ocupado pelas construções, que contam com horta (que alimenta o restaurante do hotel), uma estufa (construída com a caixilharia reaproveitada da substituição por vidros duplos, realizada no hotel há cinco anos) e um mirante. Quem cuida da manutenção das espécies (muitas delas locais, incluindo flores de cores variadas) é a proprietária Rony Pollak, que é também paisagista formada pela Universidade de Oregon, nos Estados Unidos. Um sistema de trilhas demarcadas se esconde entre a vegetação e leva a diferentes pontos da orla.