Viviane Gobbato explora iluminação zenital e paredes verdes em projeto de restaurante na capital paulista

Quem passa na frente do restaurante contemporâneo Méz, na Rua Dr. Mário Ferraz, no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, jamais imagina que o lugar, onde funcionava outro estabelecimento, já foi escuro, sem nenhum charme nem impacto. Quando recebeu a encomenda de reformar radicalmente o espaço, mas preservar a estrutura principal, a arquiteta Viviane Gobbato tinha a tarefa de criar um visual com o mood do Meatpacking District. O famoso bairro de Nova York antigamente era conhecido por abrigar frigoríficos e empresas de embalagem, e hoje se tornou um dos destinos mais atraentes e de alma jovem da cidade americana. “O desejo principal dos proprietários era a criação de um local descontraído, que pudesse atender a diversos públicos em diferentes ocasiões”, comenta Viviane. Assim, o mix de bar e restaurante de 520 m² oferece petiscos e comidas para compartilhar com os amigos, além de uma rica carta com mais de 40 opções de drinques, o que o torna uma referência na área da coquetelaria paulistana.

A transformação do imóvel começou pela fachada, após a eliminação do muro que impedia a visualização da área interna do restaurante. “Num estabelecimento comercial com esse perfil, precisamos seduzir as pessoas já na calçada, convidando todos a entrar”, comenta Viviane. Mais adiante, uma parede saiu de cena e abriu lugar para duas portas de correr e duas portas fixas de vidro e ferro pintado de preto, que, em conjunto com as bandeiras do mesmo material, chegam a 4,6 m de altura, diluindo a barreira visual entre ambientes externos e internos. “Com esse recurso, as varandas da frente e dos fundos e o amplo salão, que juntos somam 350 m², viraram um espaço praticamente único”, continua. Quem chega passa pelo gostoso terraço com piso de ladrilho hidráulico, toldo retrátil, bancos fixos de madeira e paredes de tijolos aparentes – ingredientes que, acompanhados do jardim vertical com o logotipo em neon, anunciam a atmosfera industrial desde a entrada.

Referência na área de drinques, o Méz não poderia ter um bar convencional, pois há clientes que preferem ficar por lá a noite toda degustando a diversidade de bebidas preparadas pelos especialistas. Com muretas revestidas de cerâmicas brancas brilhantes com aparência retrô, a bancada de cumaru em U (6,2 m de extensão) não só acomoda com conforto as pessoas, como também ajuda a compor um bar escultural, formado pelo generoso nicho (2,96 m x 2,20 m) de prateleiras de madeira, iluminadas por LED, e ladeado pelas plantas preservadas. Essas espécies são resultado da transformação de folhagens naturais que, tratadas quimicamente, substituem as plantas vivas em ambientes internos de maneira permanente. “Isso proporciona uma aparência natural por muitos anos, sem a necessidade de água, ar e luz, uma excelente alternativa para espaços comerciais, pois não dá trabalho”, explica a arquiteta.

Antes cobertas de argamassa e tinta, as paredes foram descascadas cuidadosamente até revelarem os tijolos originais da edificação. Como não mexeu nas colunas que se estendem por todo o salão principal e ajudam na sustentação do pé-direito de 4,6 m, a arquiteta optou por assumi-las e revesti-las de tijolos, tornando-as mais robustas e atraentes. Para acompanhar as diferentes alturas, os forros são compostos de placas de gesso acartonado, pintadas de preto, o que cria um movimento interessante no teto. Mas numa das laterais, onde as mesas são acompanhadas de bancos de madeira encostados na parede, a cobertura convencional cedeu espaço para uma opção translúcida retrátil com vidro e estrutura de ferro pintada de preto. “Durante o dia, a iluminação natural abundante evita a necessidade de acender as luzes, contribuindo, até mesmo, com a economia de energia elétrica”, explica Viviane. Quando há sol demais, basta puxar os toldos, também retráteis e acionados por controle remoto. No alto, entre as vigas, houve a adição de painéis envidraçados – cada trecho tem 5 m de comprimento x 0,6 m de altura -, aumentando a entrada de luz e tornando os ambientes ainda mais claros e leves.

Para trazer mais elementos da arquitetura industrial, o piso de cimento queimado foi preservado e toda a instalação elétrica do restaurante passa pelas tubulações metálicas aparentes, que compõem o circuito na companhia dos pendentes aramados com acabamento cobreado e dos trilhos com luminárias articuláveis. Nas paredes, outros detalhes chamam a atenção dos visitantes, como o sticker personalizado, desenvolvido pelos artistas do SHN. Instalado no centro do salão como se fosse um lambe-lambe, a arte com a imagem de uma boca vermelha rouba a cena e dá um toque de urbanidade ao ambiente. Do outro lado, um conjunto de espelhos com formatos de hexágonos quebra a monotonia da parede de 14,90 m de extensão.

Com cerca de 100 lugares para as pessoas sentarem, o Méz tem duas simpáticas áreas de espera. Além do terraço na entrada, a parte dos fundos do terreno dispõe de uma varanda descontraída, que lembra o quintal de uma casa. O balcão revestido de ladrilhos hidráulicos, um paredão pintado de amarelo com minissamambaias em vasos e as diversas lâmpadas presas por fios no alto deixam o clima bem divertido. Há bancos soltos para acomodar os clientes e uma opção fixa que contorna a árvore original do imóvel. Nesse local descoberto, o piso recebeu placas drenantes de concreto, permitindo um melhor escoamento da água da chuva, reduzindo com isso 100% das enxurradas, e ajudando a combater as enchentes e inundações.

No térreo está o restaurante e no andar superior fica o banheiro – o acesso é feito pela escada, revestida de madeira. “Apenas o banheiro de deficiente ficar no térreo, cumprindo a lei e contribuindo para um lugar inclusivo”, comenta Viviane. Já a cozinha industrial não necessitou de reforma. Tudo ficou pronto em cerca de três meses e o estabelecimento está sempre pronto para receber os clientes com todo charme e personalidade.