Vidro, pedra e madeira se mesclam em residência de Sidney Quintela localizada em vila litorânea próxima da Grande Lisboa, em Portugal

As generosas esquadrias desta residência em um condomínio fechado na Praia da Torre, em Oeiras, Portugal, simbolizam e concretizam o desejo da jovem proprietária de estabelecer uma relação de transparência com a poética paisagem do entorno. Autor do projeto, o arquiteto baiano Sidney Quintela, do SQ+ Arquitetos Associados, que há 12 anos possui uma filial de seu escritório em Lisboa, sublinha que, sobretudo em lugares próximos do mar, é cada vez maior o interesse do público português por uma arquitetura com sotaque brasileiro, que expressa mais abertura e liberdade se comparada ao jeito de viver tipicamente europeu.

Os grandes janelões só não estão presentes em uma das faces da casa, cuja volumetria se apresenta no formato de um L abraçando um deque, onde repousa uma piscina de borda infinita. Mas nem só de vidro é composta a fachada. Seus vários planos mesclam pintura comum sobre alvenaria na cor fendi, painéis formados por réguas de ipê de diferentes colorações e dois tipos de tradicionais pedras portuguesas: mármore estremoz, variedade rajada que recebeu tratamento com jatos de areia grossa para perder a padronagem e exibir a superfície inteiramente branca; e mármore ruivina preto com acabamento flameado, que garante ao material um aspecto bastante rugoso.

Para o revestimento da piscina foi escolhida a hijau, pedra de origem vulcânica proveniente de Bali, na Indonésia. Enquanto uma versão lisa recobre o interior do tanque, a hijau bruta comparece em seu contorno externo, formando um fundo rústico para a cascata que surge naturalmente quando a água é derramada para fora da piscina e escorre além da borda infinita.

EXIGÊNCIAS TÉCNICAS
O principal desafio do projeto foi respeitar os rígidos limites de cota de implantação e altura máxima da edificação impostos para esse lote. “A legislação de Portugal é muito mais rígida nesse sentido do que a nossa”, lembra Quintela. Nesse caso, havia ainda um agravante: o terreno vizinho ao condomínio pertence à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e é considerado uma zona de segurança máxima. Por essa razão, as restrições dimensionais eram mais rigorosas e a proposta arquitetônica teve de ser aprovada não só pela prefeitura, mas também pela própria Otan.

A residência da Praia da Torre aproveitou o espaço disponível realmente até o limite permitido: 17 m x 17 m, totalizando 200 m² de implantação, e 7,5 metros de altura. “Ter uma cota de soleira tão baixa para desenvolver uma casa de dois andares e inúmeras exigências de instalações e infraestrutura foi a questão mais delicada, impondo um cuidadoso planejamento estrutural”, ressalta o arquiteto.

Uma vez que o concreto armado foi eleito, precisou-se estudar uma solução para diminuir a espessura das lajes sem perder qualidade nem segurança. “Era necessário vencer grandes vãos para chegar à fluidez esperada pela cliente, mas não podíamos contar com uma viga convencional, que roubaria entre 60 cm e 70 cm de altura. Partimos, então, para o concreto protendido, que em geral é utilizado apenas em grandes estruturas”, completa o arquiteto. Usar uma caixa d”água padrão também implicaria desperdício de uma área preciosa, motivo pelo qual todo o sistema hidráulico é pressurizado. Com a soma desses esforços, foi possível manter um confortável pé-direito de 2,5 m, que no living atinge 5,8 m graças ao fato de o segundo piso ter sido concebido como um mezanino.

CONFORTO PLANEJADO
O programa se organiza em três pavimentos. O subsolo abriga garagem, lavanderia, dependência de empregados, depósito, adega e área de lazer com mesa de bilhar. No térreo, há a ala social com salas de estar e jantar, cozinha, suíte de hóspedes e lavabo, varanda, deque e piscina. No segundo piso, foram distribuídas três grandes suítes e um home office com biblioteca.

“Outra particularidade da construção civil portuguesa são as inúmeras normas com relação à eficiência energética”, aponta Quintela. Neste projeto, placas de aquecimento central foram instaladas na platibanda e estudou-se com especial atenção soluções de isolamento térmico, uma vez que as intempéries na região são extremas, assim como a variação climática – a temperatura por lá pode chegar a 42° C no verão e, no inverno, despencar para cerca de 2° C.

As paredes externas são formadas por uma dupla camada de alvenaria, totalizando 40 cm, e recheadas de 8 cm de lã de rocha. As esquadrias ganharam vidros duplos intercalados por uma camada de argônio, que garante um excelente desempenho não só térmico, como também acústico. Por isso, as lajes de concreto armado receberam uma manta isolante emborrachada antes do contrapiso.

Os revestimentos internos incluem pisos de mármore estremoz polido e assoalho de nogueira. Apenas o lavabo social exibe o mármore ruiva preto, também polido. Na cozinha, idealizada para ser o coração da casa e centro de recepção das visitas, é o silestone marrom que recobre bancadas e balcões.