Intervenções de Giancarlo De Carlo em Urbino, na Itália

GIANCARLO DE CARLO NA INAUGURAÇÃO DA FACULDADE DE ECONOMIA , URBINO (2000)

MÔNICA MASCARENHAS GRANER
Arquiteta, desenvolve projetos na área de arquitetura e urbanismo, com mestrado em Projeto de Arquitetura pela FAU-USP. Pesquisadora de espaços universitários contemporâneos e da obra de Giancarlo De Carlo, é membro da Fondazione Ca’Romanino

Este artigo apresenta o caráter multidisciplinar da obra de Giancarlo De Carlo, um dos arquitetos italianos mais importantes do século XX. Seu dinâmico percurso profissional, suas viagens, seus projetos e suas reflexões o colocam como figura particular do Movimento Moderno e da arquitetura contemporânea. O texto evidencia seu engajamento em defesa da cidade, considerada por ele o instrumento educativo mais importante no processo evolutivo da sociedade contemporânea. Tal perspectiva conduziu sua trajetória projetual, tornando a cidade histórica de Urbino, no centro-oeste da Itália, o seu mais importante e duradouro laboratório, no qual materializou hipóteses e as verificou por meio dos cenários de transformação da realidade. Um percurso por seus projetos mais significativos – Università degli Studi di Urbino, o Plano Regulador de Urbino e a residência Lívio Sichirollo (hoje, Fondazione Ca’Romanino) – comprova a essência e a atualidade de suas reflexões como contribuição para a arquitetura contemporânea.


INTRODUÇÃO

MAPA DA ITÁLIA E LOCALIZAÇÃO DE URBINO

A filosofia do arquiteto Giancarlo De Carlo (Gênova, 1919 – Milão, 2005) é expressa ao longo de uma trajetória de 50 anos de trabalho consistente como arquiteto, urbanista, engenheiro, pesquisador, professor, militante e escritor, extraindo o melhor de seus interlocutores, clientes, alunos e colaboradores. Seu legado – projetos, livros, publicações e, sobretudo, as intervenções construídas e habitadas – transformou a realidade dos locais onde interveio, da paisagem e do patrimônio sociocultural que herdou. Suas intervenções foram implantadas sobre estratos de uma preexistência meticulosamente analisada. Para ele, a história é o elemento fundamental do processo de concepção do projeto e, por consequência, todo projeto é uma renovação, mesmo quando não há modificação ou reconstrução. Nenhum lugar é vazio de significação, daí a importância de uma profunda “leitura do lugar”, inclusive de seu contexto social, que permitirá, a posteriori, a sedimentação de novas impressões. Nesse sentido, compreende-se seu engajamento na defesa da cidade, no resgate da vida urbana pela recuperação de edifícios e dos tecidos urbanos históricos.

BOCCA DI MAGRA E TEAM X
De Carlo projetou-se internacionalmente por sua atuação no Team X, grupo que refutou os dogmas modernistas ditados pela Carta de Atenas. Porém, pertencia antes a outro grupo, formado por amigos intelectuais e ativistas da resistência italiana – Elio Vittorini, Vittorio Sereni e Ítalo Calvino, entre outros -, que se encontravam, nas férias de verão, na costa da Ligúria, num povoado de pescadores chamado Bocca di Magra, que deu nome ao grupo. Aquela paisagem rústica, junto ao mar e ao rio, inspirava-os a um debate recorrente sobre a situação da Itália naquele período: o destino das cidades na reconstrução da Europa, as relações entre cidade e campo, entre as cidades antigas e os novos arranjos urbanos, as cidades europeias e as cidades americanas. Vittorini, jornalista e escritor, contava suas viagens pelas cidades do mundo, feitas no ano precedente, e o tema sobre as cidades nutria a todos. Como resultado, Vittorini escreveu um romance, publicado postumamente, chamado Le Cittá del Mondo, no qual todos os personagens são viajantes contínuos. Ítalo Calvino escreveu suas fábulas em Le Cittá Invisibili. Para De Carlo essas duas obras foram, na sua pesquisa sobre as cidades e o território, seus livros de referência¹.

As verdadeiras cidades que ele idealizava eram como aquelas descritas por seus amigos romancistas e estavam muito distantes do modelo proposto nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciams). Em meados de 1950, ao colaborar com a revista Casabella Continuità, o diretor Ernest Rogers, o indica para integrar o grupo italiano nos Ciams. Sua postura crítica diante do International Style o aproxima dos arquitetos Aldo van Eick, Alison e Peter Smithson, Ralph Erskine, Shadrach Woods, Georges Candilis, Jaap Bakema, que formariam o grupo Team X e colocariam fim aos Ciams, no último encontro ocorrido em Otterlo, na Holanda, em 1959. Na visão de De Carlo, os Ciams foram, em grande parte, responsáveis pela ideologia que permitiu que o núcleo tradicional da cidade fosse violentado, sob o disfarce do processo de renovação urbana como um eufemismo para o deslocamento dos pobres. Em 1963, o Team X já havia ultrapassado o estágio de fértil intercâmbio e colaboração e só continuaria a existir como movimento daquilo que pretendera alcançar por uma crítica construtiva aos Ciams. Restava pouco a realizar, excetuando os projetos de Woods, com sua cidade em miniatura, para o concurso de Frankfurt-Römenberg e o projeto de De Carlo para a universidade em Urbino².

URBINO E DE CARLO
Uma das mais importantes cidades do Renascimento italiano, Urbino desperta vários interesses: cidade natal de Rafaello e Bramante, situada entre as colinas na região de Marche, a cidade ainda conserva as pesadas muralhas que a defenderam de invasores por séculos, exibindo palácios, obras medievais e renascentistas. Sua tradição histórica como cidade universitária remete à fundação da Università di Urbino, em 1506, que se desvinculou da Igreja no século XVIII e ingressou na modernidade pelas mãos do erudito Carlo Bo, reitor da universidade a partir de 1947, período no qual a cidade e seus edifícios históricos encontravam-se em total estado de abandono. Giancarlo De Carlo visitou Urbino pela primeira vez em 1951, a convite de Carlo Bo, que confiou a ele a recuperação da Sede Centrale dell´Università, no cento histórico, dando início à sua maior e mais longa experiência projetual e construtiva: as intervenções em Urbino visando à sua requalificação.

Pode-se afirmar que o conceito de De Carlo sobre as cidades e o reúso do espaço arquitetônico aprimorou-se com a experiência urbinense. Sua pesquisa levou-o ao encontro das construções de Francesco di Giorgio Martini (1439-1501), arquiteto responsável pelas obras arquitetônicas e urbanísticas da cidade, civis e militares, pertencente à corte do Duque de Montefeltro, um mecenas do século XV que fez da Urbino medieval uma importante cidade renascentista.

Ao explorar a cidade histórica, Giancarlo De Carlo desenvolveu certa obstinação pelos percursos que a cidade oferecia com suas ruas, vielas, escadas, rampas que interligavam os palácios, monastérios, casas e praças, possibilitando sistematizar o estudo mais “humano” do espaço, mapeando os ângulos favoráveis, os tipos de piso, as declividades das vias, a dinâmica cotidiana da cidade, sua arquitetura espontânea, conversando com a população, e, sobretudo, expondo as propostas à crítica pública, praticando a arquitetura participativa. Seu modus operandi faz uma relação com a história dos grandes arquitetos, como Francesco di Giorgio Martini, e outra, menos culta, que se refere ao relacionamento entre o ser humano e o lugar onde ele vive³.

Em consequência de uma parceria bem-sucedida entre prefeito, reitor e arquiteto, a atuação de De Carlo foi além da universidade, abrangendo toda a cidade, ao propor o Plano Regulador Geral (PRG), editado em 1966 com muita repercussão na Itália, por definir uma metodologia precisa de recuperação de cidade histórica em face das mudanças sociais, físicas e econômicas da atualidade.

Na proposta de De Carlo, a universidade foi considerada como núcleo da vida social estreitamente ligado à vida da coletividade sem limitações de tempo e de espaço, estendida à inteira existência do cidadão e a todo ambiente da cidade, integrada ao tecido urbano, tornando-se um elemento essencial no processo evolutivo da sociedade.

O PRG partiu de um acordo entre a universidade e a prefeitura, permitindo que as faculdades ocupassem gradualmente os decadentes edifícios históricos, recuperando-os. Previa, ainda, uma nova área de expansão, fora do centro histórico, para implantar as residências estudantis. Porém o PRG só se converteu em instrumento regulador formal, com validade legislativa, aprovado pelo ministério italiano, em 1974. É por essa razão que Urbino, ainda hoje, é tida como um exemplo precursor do compromisso das entidades públicas na elaboração de um plano que viabilize um projeto urbanístico⁴.

Nos anos 1980 o arquiteto interrompeu sua relação profissional com a municipalidade, e a administração entregou a continuidade do projeto urbanístico a Carlo Aymonino e, em seguida, a Leonardo Benevolo. No entanto, em 1990, De Carlo foi homenageado como cidadão honorário de Urbino e, por tal razão, restabeleceu sua relação com o poder público e propôs, em 1994, o Segundo Plano

Regulador Geral, que, de acordo com ele, é a inversão do plano original, porque parte de uma leitura do território, abarcando o centro histórico, reconstruindo a paisagem circundante. O plano continua em vigor até hoje, confirmando a solidez da relação entre o arquiteto e a cidade e seus profícuos resultados. Ele manifestou seu amor pela cidade em seu discurso⁵ quando tornou-se cidadão urbinense, título dado pelo prefeito Egidio Mascioli:

VISTA DA CIDADE HISTÓRICA E DO PALÁCIO DUCAL

Posso dizer que amei esta cidade desde a primeira vez que a vi […]. Entendi finalmente que poderia desvendar os mistérios das minhas raízes e encontrar uma referência à minha memória de andarilho… Toda vez que retorno a Urbino meu amor se renova complacentemente porque a encontro deslumbrante […] quando retorno me sensibilizo com suas rugas, mas também com seu esplendor duradouro […].

Aborrece-me a falta de polidez daqueles que a visitam sem motivo, daqueles que falam sem conhecer sua história, daqueles que constroem em seu território sem saber por que o faz nem aonde chegarão. Sofro com os barulhos que a perturbam, sofro com os odores que não são os seus, sofro com os automóveis que a invadem, corrompendo o milagre de seu espaço.

Agora, como cidadão urbinense, prometo que usarei a simbólica chave que me é dada para contribuir com o fechar das portas quando tratar-se de defendê-la da vulgaridade que avança, e contribuir para abri-las quando for necessário colocá-la em contato com as mais férteis novidades que acontecem no mundo.

PLANO REGULADOR GERAL DE URBINO
VISTA AÉREA DA CIDADE COM INDICAÇÃO DAS FACULDADES NOS EDIFÍCIOS HISTÓRICOS

AS INTERVENÇÕES NO CENTRO HISTÓRICO – AS FACULDADES
Sede Centrale dell’Università (1952-1960) Para a nova sede, foi restaurado um palácio edificado no século XIV, primeira residência do Duque de Montefeltro. O critério adotado no projeto por De Carlo foi reorganizar o espaço preexistente, sem alteração volumétrica, introduzindo entre os dois pátios uma escada a tenaglia, para facilitar o acesso entre os pavimentos.
Faculdade de Direito (1966-1968) – Instalada em um convento do século XVIII, De Carlo restaurou o edifício e acrescentou um pavimento inferior – a biblioteca, escavando um pátio preexistente. Além disso, instalou, na laje de cobertura, um jardim com dez lucernas, permitindo a entrada de luz natural na biblioteca.
Faculdade de Pedagogia (1968-1976) – O Convento di Santa Maria della Bella, também do século XVIII, foi escolhido para abrigar a faculdade. Embora o complexo estivesse em péssimo estado, De Carlo decidiu conservar a muralha externa, por não querer desfigurar aquela particular conformação no centro histórico. Considerado o projeto mais representativo da obra de De Carlo, são dois os elementos principais organizadores desse espaço: o pátio cilíndrico e o auditório semicircular. A Aula Magna é o auge do projeto, na qual as diferenças de nível subvertem totalmente o senso de orientação.

COLINA DI ROMANINO

Faculdade de Economia (1989-2000) Mais contemporâneo, o projeto foi desenvolvido junto com a equipe de novos associados. O monastério beneditino do século XIV foi restaurado e recebeu novos elementos para percursos verticais e horizontais.

AS INTERVENÇÕES FORA DO CENTRO HISTÓRICO – AS RESIDÊNCIAS ESTUDANTIS
Construído na Colina dos Cappuccinos, a sudoeste do centro histórico, o projeto deu a De Carlo notoriedade internacional, particularmente porque é considerado uma solução à altura dos temas defendidos pelo Team X, em projetos para universidades, como fizeram Woods e Candillis, na Alemanha, e James Stirling, na Inglaterra.

Visto de certa distância, os volumes cúbicos e cilíndricos pertencentes ao conjunto, assentados suavemente na paisagem, tomam a forma de um palácio. Assim como o Palácio Ducal, de Urbino, alguns autores contemporâneos consideram essa intervenção como uma universidade em forma de cidade, comprovando a maestria de De Carlo em trazer os padrões organizacionais da cidade para a sua arquitetura, quando mescla arquitetura moderna à antiga, em harmonioso diálogo com a paisagem.

FACHADA LATERAL

AS INTERVENÇÕES NO TERRITÓRIO – CA’ROMANINO
Partindo do centro histórico de Urbino, sete quilômetros ao norte, subindo por uma estrada vicinal que corta um bosque, chega-se a Ca’Romanino, uma casa de campo projetada por De Carlo em 1965, para um casal de amigos – Livio Sichirollo, professor filósofo da Università degli Studi di Urbino, e sua esposa, Sonia Morra, professora. A razão que levou o casal Sichirollo a adquirir um terreno com uma vinha, uma adega e uma casa colonial, em 1959, foi o desejo de morar junto às colinas de Urbino, local de alta qualidade ambiental e paisagística, ideal para receber os amigos para debates e encontros que definiriam o futuro da pequena cidade, rica em arte e história.

ACESSO PRINCIPAL DA CASA – ENTRADA ESCONDIDA

Ca’Romanino é, antes de tudo, um projeto paisagístico, que valoriza a geografia e a paisagem, e ao final do percurso ganha-se um prêmio – a sua arquitetura. Cada volume é considerado como o centro de uma rede de relações e se desenvolve como uma narrativa revelando uma organização sofisticada de elementos circulares e cilíndricos, como os que se repetem no espaço do escritório, na lareira e no hall de distribuição das células dos hóspedes. Quanto à circulação, na sua obsessão pelos percursos, ele utiliza escadas de todo tipo, passagens secretas com portas em guilhotina, garantindo um fluxo complexo e dinâmico à casa, como se vê nos projetos do Centro Histórico e nas residências estudantis.

PROJETO DA CASA, QUE EVIDENCIA OS PADRÕES GEOMÉTRICOS USADOS POR DE CARLO

Seu projeto é uma metáfora da cidade. É a cidade-casa, que desperta no visitante um desejo imediato de apreendê-la, de explorá-la, de saber seus limites, onde começa, onde termina. É uma casa que homenageia a amizade, pois foi concebida para receber os amigos. Portanto, a qualidade dessa casa é, antes de tudo, a extraordinária experiência de vivenciá-la. As possibilidades de percurso, oferecidas por De Carlo, mostram sua intenção clara de manipular quem a visita, para mostrar como e por que a paisagem italiana é um ícone, um patrimônio que o mundo inteiro admira.

VISTA INTERNA DA CASA CA”ROMANINO. OS CAIXILHOS SE ABREM PARA A PAISAGEM NATURAL

A residência tornou-se a Fondazione Ca’Romanino, em 2002, um centro decarliano, que recebe turistas, pesquisadores e alunos de universidades do mundo. O programa de hospedagem Ventiquattrore a Ca’Romanino oferece ao visitante uma memorável oportunidade de vivenciá-la.

A CASA COLONIAL PREEXISTENTE

BIBLIOGRAFIA

BUNCUGA, F., & DE CARLO, G. (2000). Conversazioni su architettura e libertà. Milão: Elèuthera.

CA’ROMANINO Associazione Culturale. (2010). Ca’Romanino una casa di Giancarlo de Carlo a Urbino. Urbino: Argalìa Editore.

DE CARLO, G. (1966). La storia di una città e il piano della sua evoluzione urbanistica. Milão: Marsilio Editori.

DE CARLO, G. (1998). Nelle città del mondo. Veneza: Marsilio Editori.

FRAMPTON, K. (1997). História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Martins Fontes.

FULIGNA, T. (2001). Una Giornata a Urbino con Giancarlo De Carlo – Visitando le Sue Architetture. Urbino: Arti Grafiche Editoriali.

MCKEAN, J. (2004). Giancarlo De Carlo – Des Lieux, des hommes. Paris: Centre Pompidou.

PIZA, J. (08 de 2007). Entrevista – Giancarlo De Carlo. Fonte: Vitruvius: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/08.032/3292