Editorial: vivacidade pela diversidade

GUSTAVO CURCIO

Duas horas de bate-papo sobre intervenções conscientes nas cidades: esse foi o tempo que durou a visita de Jacques Allard (Archi-Europe, Bélgica), Angel Luis Tendero (ALT Arquitetura, México e Espanha) e Francesco Isidori (Labics, Itália) à redação da aU. O encontro registrado você poderá conferir na revista de agosto. Isidori é um dos autores do projeto que ilustra a capa desta edição. A Cidade do Sol é exemplo vivo do pensamento contemporâneo das intervenções em tecidos urbanos já consolidados.

No fim dos anos 1970, Renzo Piano chocou a comunidade parisiense ao quebrar a estética haussmanniana da capital francesa com o projeto do Centre Georges Pompidou, classificado à época pela crítica como um edifício de fachada inacabada. Naquele momento, a questão estética preponderava na repulsa dos franceses ao elemento estranho introduzido em meio à malha homogênea proposta pelo barão.

Corrigir as cicatrizes deixadas pelo crescimento desordenado das metrópoles é o desafio dos grandes planos de intervenção urbana. “Em vez de propor grandiosos equipamentos de lazer, por exemplo, o conceito urbanístico hipermoderno sugere espalhar pelos vazios remanescentes nas cidades pequenas praças e parques que possam servir às comunidades locais”, defendeu Tendero durante a conversa. Isidori completou: “São raros os casos de glebas extensas disponíveis em grandes cidades como Roma e São Paulo. Quando surgem oportunidades como a Cidade do Sol, o uso misto é o mais indicado”. De alguma forma, a tendência da vivacidade pela diversidade de atividades ou vocações consegue suprir demandas negligenciadas há tempos pelas prefeituras. A Cidade do Sol agrega ao conjunto habitacional Tiburtino II, de Giorgio Guidi e Innocenzo Sabbatini, de 1926, uma biblioteca pública, escritórios e estabelecimentos comerciais.

A metodologia empregada na concepção dos projetos tem se modificado sobremaneira ao longo dos anos. Há os mais ortodoxos, que continuam com o infalível grafite sobre papel, e aqueles que se renderam à parametrização obtida graças às ferramentas digitais. Felippe Crescenti, o entrevistado desta edição, atribui ao uso indevido desses recursos o que chama de barroco digital. Para ele, a reprodução indiscriminada de adereços está matando o design. “Ironicamente, a função não é mais o centro”, desabafa. Mas nem todos pensam assim. A seção design mostra o resultado do uso de impressora 3D para a execução da fachada do Europe Building, em Amsterdã. Segundo os arquitetos do DUS, escritório responsável pelo projeto, o uso da ferramenta digital diminui as chances de erros que seriam verificados apenas em estágio bem avançado da construção.

Que venha o futuro, com sua vivacidade pela diversidade dos usos, das ferramentas e, sobretudo, do conhecimento. Boa leitura.

“De alguma forma, a tendência da vivacidade pela diversidade de atividades ou vocações consegue suprir demandas negligenciadas há tempos pelas prefeituras”