Coletivo Boa Mistura volta ao Brasil e realiza intervenção paisagística com trabalho cromático em favela da Vila Brasilândia, na capital paulista

As criativas intervenções urbanas assinadas pelo coletivo de jovens artistas espanhóis Boa Mistura possuem duas principais marcas registradas: são extremamente coloridas e têm o objetivo de transformar as ruas e criar, ou fortalecer, vínculos entre as pessoas que nelas circulam. E foi pensando em levar essa dose de cor e positividade ao cotidiano da Vila Brasilândia, bairro de periferia localizado na Zona Norte de São Paulo, que o grupo criou o projeto Luz nas Vielas, uma inspiradora série de palavras inscritas nos muros da comunidade.

A intervenção teve início em 2012, quando foram feitos os grafites ‘amor’, ‘beleza’, ‘doçura’, ‘firmeza’ e ‘orgulho’. Cinco anos depois, no início de 2017, o coletivo desembarcou novamente na Brasilândia: dessa vez, para levar ‘mágica’ e ‘poesia’ ao local. A fim de realizar o trabalho, o grupo se valeu da técnica artística conhecida como anamorfismo, que oferece ao observador apenas uma opção de ponto de vista para a visualização da imagem com clareza: tal qual uma ilusão de ótica, de qualquer outra perspectiva o desenho se revela deformado e incompreensível. Não apenas as paredes, mas também as portas e janelas das vielas ganharam um banho de cores fortes para destacar as palavras tingidas de branco.

GRAFITE ANAMÓRFICO

A temporada que os artistas espanhóis passaram hospedados na casa de uma família do bairro foi o pontapé inicial para o projeto. A convivência permitiu, em um primeiro momento, o desenvolvimento da ideia: foi experimentando o dia a dia ali que eles abandonaram o plano de pintar murais convencionais e começaram a bolar o que chamaram de “uma série de intervenções mais desgarradas, pensadas para surpreender os passantes em trânsito pelas escadas das vielas”.

“Desses becos, vê-se uma paisagem que nós achamos lindíssima. E, quando você se coloca em um ponto específico da escada, de repente tudo fica direitinho e você consegue ler essa palavra: ‘beleza’. E a beleza está em volta, também, no morro cheio de casas”, diz Pablo Ferreiro Mederos, integrante do coletivo. As palavras inscritas foram escolhidas pela população, que também arregaçou as mangas e se juntou ao grupo, participando ativamente do processo de pintura: “Dividimos com os moradores a transformação de seu ambiente”.

ENCONTRO POÉTICO

Baseado em Madri, o Boa Mistura é formado por Juan Jaume Fernández, Javier Serrano Guerra, Pablo Ferreiro Mederos e Pablo García Mena.

“A verdade é que fomos a São Paulo com a mente aberta, mas já queríamos ir a uma favela. Em uma das reuniões de que participamos, já havia um artista [Dimas Griô, do projeto Transition Brasilândia, que promove o desenvolvimento sustentável na região da Vila Brasilândia]. Foi um pouco mágico, na verdade, porque foi assim que a Vila Brasilândia nos escolheu, e não o contrário”, conta Pablo Purón Carrillo.

O grupo acredita que essa ação pontual tenha funcionado como uma espécie de gatilho, estimulando a criação de outras intervenções locais com o mesmo objetivo: estimular os cidadãos a estreitar os laços com o espaço que habitam, o que resulta não só em um cuidado espontâneo com o espaço público, mas também em um poderoso sentimento de inserção social.

FICHA TÉCNICA

LOCAL São Paulo, Brasil
CONCLUSÃO 2017
IDEALIZAÇÃO E REALIZAÇÃO Coletivo Boa Mistura: Javier Serrano Guerra, Juan Jaume Fernández, Pablo Ferreiro Mederos, Pablo Purón Carrillo de Albornoz e Pablo García Mena
APOIO Embaixada da Espanha NO Brasil
COLABORAÇÃO Singapore Airlines, Virada Sustentável, Montana Colors e Centro Cultural da Espanha em São Paulo (CCE_SP)
AGRADECIMENTOS Paula Pascual, Mamen Macías, Clara Irigoy, Jaime Prades, André Palhano, Isabela Menezes, Monica Picavea, Rosângela Macedo, Tatiane Goia, Joks, Smoky y Shalak, Dimas, Evaneide, Eurípedes, Priscila, Bea, Pedro, Edgar e família Gonçalves