Em condomínio horizontal de casas geminadas em São Paulo, a privacidade é garantida por muxarabiês de madeira, que se sobressaem na composição arquitetônica

Erguido no bairro do Brooklin, na Zona Sul de São Paulo, o Vila Sagres é um condomínio horizontal de casas geminadas que se distribuem ao longo de uma rua de pedestres sobreposta a um estacionamento subterrâneo. A decisão de construir casas ligadas entre si, sem recuos laterais, trouxe ganho de área útil para as unidades, além de um melhor aproveitamento do terreno, da mesma forma que a opção pela garagem no subsolo. Da busca pela privacidade dos moradores surgem elementos arquitetônicos como os muxarabiês de madeira nas fachadas frontais, um dos destaques do projeto de arquitetura criado pelo escritório Pessoa Arquitetos. As tramas de madeira comuns na arquitetura colonial portuguesa são herança das invasões mouras na Península Ibérica.

O estudo de viabilidade feito pelo arquiteto Jorge Pessoa para o cliente – incorporador e construtor – indicou a possibilidade de inserir até 12 unidades residenciais de 250 m2 cada no lote. No entanto, optou-se por fazer duas casas maiores como estratégia para acelerar as vendas, o que, segundo o arquiteto, mostrou-se eficiente.

“Para manter as árvores e suas configurações no terreno, adotamos duas tipologias de casa. Uma só tipologia traria vantagens relacionadas a repetição e padronização, barateando a construção, porém, comercialmente, contar com duas unidades maiores acabou sendo interessante para o cliente”, acrescenta Pessoa.

Ao discorrer sobre o projeto e seu desenvolvimento, o autor destaca a relação de confiança que estabeleceu com o cliente, que reviu alguns paradigmas típicos do mercado imobiliário. Um deles, por exemplo, é o de que condomínios horizontais com unidades isoladas são mais valorizados pelos compradores e dão melhor retorno comercial do que aqueles com casas geminadas. “Consegui convencê-lo de que geminar as unidades traria vantagens arquitetônicas, proporcionando melhor aproveitamento do terreno e mais área de quintal, do que deixá-las afastadas em 1,5 m, com um recuo lateral inexpressivo”, afirma o arquiteto. “No fim, o fato de as casas serem geminadas não atrapalhou a venda, que aconteceu bem rápido”, ressalta.

A individualidade das casas, apesar de serem geminadas, é reforçada pelo projeto de arquitetura por meio dos volumes centrais da fachada das residências, que avançam para frente das paredes e portas acinzentadas. Nesse volume que se projeta para fora, destacam-se superfícies texturizadas, como o muxarabiê de madeira e o porcelanato na lateral, que imita a madeira, emolduradas por uma aba de concreto moldada in loco que protege o caixilho da chuva, organiza e delimita a composição arquitetônica.

Pessoa conta que no projeto do Vila Sagres, a especificação de materiais de revestimento internos e externos não foi feita por seu escritório, mas por um departamento específico da construtora de seu cliente, que prefere trabalhar dessa forma. O projeto paisagístico das áreas comuns, feito pela empresa Catê Poli, é valorizado à noite, quando as espécies recebem um up-light de projetores embutidos no piso.

Para o arquiteto, um dos grandes desafios do projeto do condomínio foi garantir a privacidade das casas, já que elas ficam de frente, a uma distância de 9 m. O muxarabiê, projetado sob medida para “cobrir” a transparência do volume central das fachadas, impede a visualização do interior das casas sem, no entanto, afetar a vista do exterior para quem está dentro. No pavimento superior, onde ficam os quartos, o elemento se torna articulado para permitir a abertura total do vão, se assim for desejado.

O autor do projeto de arquitetura convenceu o cliente a colocar um gradil de 11,55 m de comprimento no final da rua de pedestres do condomínio, ao invés de um muro opaco, evitando a segregação visual entre o espaço privado e o público, uma vez que a separação espacial era inevitável. O arquiteto conta que a permeabilidade visual oferecida pelo elemento permite a quem passar pela rua ter a sensação de que o condomínio é uma vila ou uma rua sem saída, além de promover a segurança, já que aumenta o controle externo sobre o espaço. “Hoje, essa transparência é uma das características que o cliente mais gosta no projeto”, complementa Pessoa.

PRIVACIDADE E SOMBREAMENTO
Especialmente criado para garantir a privacidade das casas, o muxarabiê é formado por placas de madeira freijó composta de réguas na horizontal e vertical. As réguas da frente, na vertical, estão espaçadas a cada 1,2 cm, e as horizontais, na parte de trás, a cada 12 cm.

No trecho das fachadas que corresponde aos dormitórios, no pavimento superior, o elemento de madeira é móvel. Foram executadas esquadrias de alumínio do tipo camarão, cuja face externa recebe o muxarabiê. No pavimento inferior, onde o elemento é fixo, parede e esquadrias do hometheater recebem um quadro de madeira fixo, executado com caibro de 5 cm por 5 cm, para receber o muxarabiê (a parte fixa).

Por Valentina Figuerola