Expert em projetos de salas de exposição, o arquiteto Pedro Mendes da Rocha fala sobre a reconstrução do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo

Acolhido discretamente entre o centro e a Zona Oeste de São Paulo, o pequeno bairro de Vila Buarque reúne características únicas de um lugar que está na fronteira entre o novo e o antigo na capital paulista. Ali, em uma rua arborizada e movimentada, fica o escritório do arquiteto Pedro Mendes da Rocha, onde ele recebeu a reportagem de aU para falar, principalmente, sobre os desafios de projetar museus e espaços culturais no Brasil. Durante a entrevista na sala de reuniões emoldurada por uma estante repleta de livros de arte, de arquitetura e de temas ligados à cultura, o arquiteto manteve à sua frente uma folha em branco, que foi sendo totalmente preenchida nas duas horas de conversa. Pedro ia esboçando os projetos sobre os quais falava, explicando e desenhando adendos e composições de uma mente pulsante e criativa. “Não consigo conversar sem ter uma folha de papel para rabiscar”, disse. Há mais de 20 anos, Pedro, em conjunto com seu pai, o condecorado arquiteto capixaba Paulo Mendes da Rocha, vem exercitando a arquitetura em um viés diferente ao transformar em museu edifícios preexistentes, locais de caráter histórico e protegidos por diversos órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Nessas construções o desafio é criar sem descaracterizar ou ferir os esboços originais protegidos por lei. Dois de seus projetos mais emblemáticos ganharam vida no início do século 21: o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em 2006, em São Paulo, e o MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, aberto em 2008 na capital mineira, que compõe o Circuito Liberdade, formado por 13 instituições, dentre museus e centros culturais, em área histórica de Belo Horizonte. Agora, Pedro Mendes da Rocha integra um grupo de profissionais de diversas áreas que tem o desafio de contribuir na restauração do Museu da Língua Portuguesa, fechado ao público depois de 21 de dezembro de 2015, quando um incêndio de grandes proporções atingiu o prédio da Estação da Luz. Em dez anos de funcionamento, o museu recebeu quase 4 milhões de visitantes, consolidando-se como o espaço cultural mais visitado do país. “É preciso devolver esse patrimônio imensurável ao Brasil”, afirma Pedro.

FOTOS: LUIS GOMES

Como é projetar um museu? Quais são as características únicas desse tipo de construção em relação a outros tipos de edificação?
Uma das principais peculiaridades é ter um grande afluxo de pessoas e pensar, antes de mais nada, em ambientes de recepção, de acolhimento e disperção do público visitante. Por exemplo, em meu projeto para o Museu de História do Estado de São Paulo, um complexo que une a Casa das Retortas e o antigo Gasômetro, no Brás, a questão do acolhimento é muito importante. Uma das minhas preocupações era garantir uma chegada coberta para os ônibus escolares. Em um museu o trabalho do arquiteto deve equacionar áreas de chegada, bilheteria, exposição, elevadores, escadas, reserva técnica, café, livraria, disperção. Tudo isso de maneira clara, na qual a circulação seja eficiente e atrativa do ponto de vista cultural. Há ainda as preocupações mais técnicas, como a logística de deslocamento interno e externo de obras de arte, a aclimatação desse espaço para manter a integridade física do acervo, áreas de quarentena para as obras de arte que chegam. Em um edifício histórico temos a preocupação extra de manter os elementos originais aliados e integrados a uma mostra completamente inédita.

Há mais de 20 anos, Pedro, em conjunto com seu pai, o condecorado arquiteto capixaba Paulo Mendes da Rocha, vem exercitando a arquitetura em um viés diferente ao transformar em museu edifícios preexistentes, locais de caráter histórico e protegidos por órgãos como o Iphan.

O que mais o instigou no projeto de 2006 do Museu da Língua Portuguesa?
Adaptamos uma parte do edifício da Estação da Luz para ser um museu. Até então funcionavam os escritórios administrativos da estação de trens da CPTM [Companhia Paulista de Trens Metropolitanos]. A Estação da Luz ocupa uma área de quase 7,5 mil m², dos quais 4.333 m² foram cedidos à Secretaria de Estado da Cultura para a instalação do espaço de cultura. O saguão central, os subsolos e a gare permanecem propriedade da companhia. Era preciso transformar um retângulo de 14 m x 120 m em um ambiente apropriado à visitação, levando em conta que a estação de trem continuaria ativa com essa função. Ao contrário do Museu d’Orsay, em Paris, instalado em uma antiga estação ferroviária desativada, a Estação da Luz é um organismo vivo. Na época das obras originais, circulavam por aí uma média de 150 mil pessoas por dia, mas já se sabia que esse número iria duplicar com a integração da Linha Amarela do metrô aos trens de subúrbio, algo que hoje pode ser observado diariamente. De qualquer forma, o projeto foi muito feliz porque tem dois sagões que se prolongam pela via férrea em toda a estação em direção às avenidas. Há um fluxo incessante de pessoas que atravessam a estação sem nunca ter utilizado os trens, ou mesmo entrado no museu durante seu funcionamento. São utilizações paralelas, mas que podem, e devem, ser integradas sem que uma atividade prejudique o exercício da outra.

E a questão da adaptação de um espaço preexistente?
O prédio administrativo era bastante estreito, linear, e um dos grandes desafios foi adaptar esse edifício de gabinetes com uma planta vulgar, um corredor central e escritórios dos dois lados, enfileirados. A circulação era dimensionada para atender às necessidades dos funcionários, não mais do que cem pessoas ao dia. Ao redimensionar esse espaço, observamos a circulação dos museus mais movimentados de São Paulo, como a Pinacoteca do Estado e o Masp, com arquiteturas completamente díspares, porém, com grande fluxo de visitantes, cerca de mil por dia. Esse foi nosso gabarito original. A partir daí, fomos fazendo balizas para imaginar lotações ideais para a circulação pública e desenhar os espaços com base nesses números.

REPRODUÇÃO MM GERDAU
O MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, aberto em 2008, na Capital Mineira, foi projetado em parceria com o Pai. assim como o Museu da Língua Portuguesa, segue as limitações da inserção dos espaços de exposições em um edifício histórico

“A língua é um organismo vivo, mutável, que se reinventa todos os dias.”

Foi um desafio que ultrapassou a arquitetura? 
Sem dúvida. Desde as primeiras reuniões com toda a equipe, no começo dos anos 2000, os desafios ultrapassavam as barreiras da arquitetura. A grande discussão com profissionais de áreas distintas, como linguistas, arquitetos, designers, historiadores, engenheiros e antropólogos era saber como transformar aquele espaço no museu de um idioma, que é um patrimônio imaterial. Era um trabalho que envolvia mais profissionais do que apenas os arquitetos para pensar o que seria um acervo imaterial. Ainda assim, do ponto de vista arquitetônico, ele é único. Nenhuma outra língua no mundo tem o seu museu até hoje. A língua é um organismo vivo, mutável, que se reinventa todos os dias. É um privilégio projetar um espaço, fazer uma transformação para atender à junção do acervo imaterial com o material nas exposições temporárias. O grande telão, por exemplo, foi uma contribuição da arquitetura, vinda do meu pai, Paulo Mendes da Rocha. Era a língua falando através das imagens, trazendo o aspecto vocalizado do idioma, os sotaques, as entonações, a poesia.

O prédio da Estação da Luz já havia passado por um outro grande incêndio, em 1946. Houve intervenções em relação ao restauro feito em 1948?
O prédio original, de 1901, tem uma planta concebida em três terços, seis torreões decorativos e é absulutamente simétrico, sendo que o terço central era todo dedicado ao saguão: quem estava no térreo enxergava o teto. O que quebrava essa simetria era a torre do lado oeste, projetada para ser a torre do relógio, a primeira torre “profana” da cidade, instalada fora de um edifício religioso. No primeiro incêndio, a torre do relógio barrou o fogo, transformando-se em uma chaminé, como também ocorreu em 2015. Naquela época, o terço oeste ficou intacto, com a mesma configuração de 1901, com quadros, pisos, esquadrias, lambris, forros de madeira. O lado leste, ao ser restaurado, já recebeu técnicas do concreto armado e a ele foi acrescentado outro andar. A Grande Galeria, na concepção original da planta, não existia. Ela foi uma aquisição da intervenção da década de 1940. Foi feita uma laje próxima da arcada das janelas e foram acrescentadas oito colunas sob os quatro cantos do vazio da escada. Em 2006, Paulo pensou em criar um grande salão de 6 metros. Não poderia ser na frente, senão haveria a barreira do relógio da torre. A solução foi deixar esse espaço no salão do fundo, que abrigava o telão, no segundo andar.

“A grande discussão com linguistas, arquitetos, designers, historiadores, engenheiros e antropólogos era saber como transformar aquele espaço no museu de um idioma, que é um patrimônio imaterial.”

Trabalhando atualmente no processo do restauro, se pudesse, você mudaria algo em relação ao projeto de 2006?
Pensando friamente, se pudesse fazer alguma intervenção voltaria ao projeto original de 1901, mas isso inviabilizaria o espaço para um museu. Originalmente, no saguão não havia as colunas e só se passava de uma ala para outra através de um grande balcão que circulava as mansardas. Depois, foi feita uma laje, e o único elemento que rompia a simetria era a torre do relógio. Mas isso seria inviável para a reabertura do grande salão.

FOTOS: LUIS GOMES

Quais foram as inspirações para conceber o projeto do Museu da Língua Portuguesa?
É muito difícil afirmar que nos inspiramos em elementos específicos para conceber o projeto arquitetônico de um espaço cultural único como o Museu da Língua Portuguesa. Entretanto, guardadas as devidas proporções, observamos algumas referências específicas, como o espaço de acolhimento do Museu do Louvre, em Paris; o Altes Museum, em Berlim, com projeto do arquiteto Karl Friedrich Schinkel; diversos aspectos das Bienais de Arquitetura de Veneza – em uma delas havia um telão gigante que exibia filmes sobre a cidade. Enfim, são referências e memórias que vão se unindo para dar origem a um projeto inédito. Paulo Mendes da Rocha acredita em convocar a memória para criar. Fazemos isso em todos os espaços culturais nos quais trabalhamos aliados a um edifício preexistente.

Do projeto de 2006, estão previstos um café e uma livraria, que nunca saíram do papel.

Atualmente, qual é o grau de destruição do Museu da Língua Portuguesa?
O estrago foi grande, mas não comprometeu a estrutura do prédio. As obras emergenciais para a estabilização do edifício começaram logo após o incêndio e em janeiro de 2016 o governo do estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, assinou convênio com a Fundação Roberto Marinho e a organização social ID Brasil visando à reconstrução do espaço. Apesar da tragédia, surge agora uma janela de oportunidade para, depois de dez anos de vivência, o museu repensar seu acervo, expor novas ideias, culturas e atrações.

O que haverá de inédito? O edifício terá novas intervenções arquitetônicas?
A ideia é fazer um espaço mais atraente, sedutor e com maior autonomia para as intervenções nas áreas restauradas na década de 40. Os órgãos de preservação nos orientaram que aqueles dois terços restaurados em 1948, sem muito brilhantismo, poderiam sofrer mais ações. A ideia é ampliar os salões, dando mais acesso ao público. No trecho original de 1901, na ala oeste, vamos manter a conformação original nos ambientes, com pinturas de paredes, lambris e forros. A orientação do Patrimônio Histórico é destinar um espaço inédito para as áreas administrativas e acrescentar ao projeto pequenos auditórios, sala de formação de professores, um centro de referência da língua. O objetivo é oferecer mais atividades para que as pessoas permaneçam mais tempo no museu e venham repetidas vezes, atraídas pelas propostas culturais temporárias e palestras. Esses são elementos que demandam da arquitetura um planejamento específico de espaços. Novos possíveis usos estão sendo pensados. Do projeto de 2006, estão previstos um café e uma livraria, que nunca saíram do papel, além de serem uma referência ligada ao museu.

“Apesar da tragédia, surge agora uma janela de oportunidade para, depois de dez anos de vivência, o museu repensar seu acervo, expor novas ideias, culturas e atrações.”

Como a tecnologia será utilizada nessa nova configuração do acervo?
Em 17 anos de trajetória a tecnologia evoluiu bastante e ficou mais barata. As exposições-base continuam existindo no âmbito em que foram pensadas, com atualização e modernização de recursos. O telão, por exemplo, um dos carros-chefe do acervo, deve ganhar novos filmes, documentários e entrevistas, sendo abastecido como um grande hardware.

E a concepção do projeto arquitetônico?
Muita coisa mudou também. Estamos utilizando os mais novos e modernos recursos da construção civil nessa obra, com certificações LEED em todas as instâncias do processo de restauro. Há a preocupação com o uso da água, de materiais incombustíveis, renovação do ar, resíduos. O que já começou é o restauro dos elementos construtivos originais do prédio, o refazimento de cobertura, fachadas, consolidação de trechos que estavam correndo o risco de desabar. A ideia é que tudo esteja pronto até 2019.

REPRODUÇÃO WIKIPEDIA/ACERVO PEDRO MENDES DA ROCHA
Museu da Língua Portuguesa, em funcionamento antes do incêndio de 21 de dezembro de 2015. abaixo, foto da estação da Luz, que abriga o Museu, no fim dos anos 1950, após receber acréscimo do último andar

Pouco depois da abertura do Museu da Língua Portuguesa, você foi um dos arquitetos responsáveis pelo Museu das Minas e do Metal, em Belo Horizonte, com patrocínio de uma empresa. Há diferenças em projetar espaços culturais mantidos pela iniciativa privada?
O Museu das Minas e do Metal foi implantado e mantido pelo Grupo EBX, do empresário Eike Batista, de 2008 a 2013. A partir de dezembro de 2013, a Gerdau, gigante no segmento de aço, assumiu a manutenção do espaço e o local passou a se chamar, desde maio de 2014, MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal. Do ponto de vista do projeto arquitetônico não há muitas diferenças, pois no final esses espaços têm caráter de visitação pública. O arquiteto pensa na dinânica de funcionamento. O que muda a viabilização é apenas a forma de gestão e custeio, porém, isso não afeta a questão arquitetônica. No Museu da Língua Portuguesa foi usado com eficiência o mecanismo de Lei Rouanet, e em Minas houve uma parceria do poder público com a iniciativa privada com aportes diretos.

Há semelhanças entre os projetos dos dois museus?
Assim como a Estação da Luz, em São Paulo, o Museu das Minas e do Metal também é um edifício histórico, que começou a ser construído em 1895 com o objetivo de abrigar a Secretaria do Interior, que posteriormente sediou a Secretaria da Educação. Ele tem estilo eclético, com predominância de elementos neoclássicos franceses, sendo bastante rebuscado. Entretanto, o corpo principal recebeu um anexo em U nos anos 1960, criando um pátio interno. Nesse local nossas intervenções puderam ser mais vigorosas do que na parte antiga. O know-how adquirido no Museu da Língua Portuguesa na adaptação de edifícios históricos foi muito bemvindo. Os desafios, assim como as soluções, eram muito semelhantes. Também em Minas, retiramos as paredes internas desse anexo para criar uma grande galeria expositiva.

Como observa sua expertise de projetar museus na concepção de novos projetos culturais?
Não segui a carreira acadêmica paralelamente à arquitetura, mas costumo ministrar muitos cursos e palestras sobre esse tema, focando na experiência de intervenções em edifícios preexistentes. Há um interesse muito grande do público sobre a criação, ou adaptação, de espaços culturais. Em vários países da Europa, nos Estados Unidos, nos Emirados Árabes, a renovação e a projeção de museus e os editais para escritórios de arquitetura fazerem essas intervenções são uma constante. É uma indústria significativa, que gera conhecimento, novas tecnologias e publicações, despertando interesse até mesmo em quem não é arquiteto. Quantas pessoas vão ao Museu Guggenheim, em Bilbao, na Espanha, ou ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no Rio de Janeiro, atraídas pela arquitetura desses locais, independentemente de seus acervos e exposições? É um campo repleto de potencial, sejam eles de conteúdos materiais ou imateriais. No Brasil, esse é um segmento vivo, pulsante, que desperta o interesse de arquitetos de todas as gerações e ultrapassa a arte. Há temas específicos, como o projeto do Centro de Memória do Hospital Sírio-Libanês, por exemplo.

E os projetos em andamento neste ano?
Estou envolvido em um projeto de adaptação de uma casa-museu para a Fundação Ema Klabin, no Jardim Europa, em São Paulo. É uma proposta interessante fazer intervenções nesse espaço, com anexos para eventos e visitação ao jardim, sem interferir no funcionamento do acervo de 1 545 obras da casa, construída na década de 50, entre pinturas de Marc Chagall, Frans Post, além de mobiliário original, peças arqueológicas e decorativas, reunidas ao longo de mais de 70 anos pela empresária, mecenas e colecionadora Ema Gordon Klabin. Nos Estados Unidos é muito comum a realização de casamentos e festas nesses anexos de espaços culturais, algo que está chegando com força ao Brasil. O próprio Museu do Metal, em Minas, garante uma parte da receita graças à locação desse espaço para eventos. Integrar, através da arquitetura, uma casa-museu com seus acervos fixos aos anexos de exposição e de eventos é um exercício bastante rico. Também estou envolvido com o término do Pavilhão das Culturas Brasileiras, um projeto de Oscar Niemeyer no Parque Ibirapuera, em São Paulo; e o Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba, que ocupará o edifício anexo à estação ferroviária.

POR: ALEXANDRA GONSALEZ FOTOS: LUIS GOMES