Ao criar a nova sede do Instituto Brincante em São Paulo, Bernardes Arquitetura opta por um edifício aberto à circulação e à rua

Não é de hoje que o Instituto Brincante promove o conhecimento e a assimilação da riqueza cultural brasileira: lá se vão quase 25 anos desde que o casal de artistas Antonio Nóbrega e Rosane Almeida ocupou, com seu teatro-escola, um antigo galpão industrial no coração da Vila Madalena. O risco de ter que deixar a região – tradicionalmente ligada a manifestações artísticas e culturais – veio em 2014, quando o proprietário do imóvel alugado solicitou sua desocupação: o terreno seria vendido a uma construtora. Depois de pleitear na justiça o direito pela permanência e, ainda, levantar um importante debate sobre os edifícios que pouco a pouco tomam nossas cidades, o instituto se viu obrigado a abandonar o endereço.

Começou, então, um novo capítulo nessa história: o da reinvenção. Com o objetivo de arrecadar recursos para a criação de um novo espaço a poucos metros do anterior, foi lançada a campanha #FicaBrincante. Parte da verba veio do Instituto Alana, grande apoiador da causa; outra, do público, captada por meio do site de financiamento coletivo Catarse. O projeto foi assinado e doado pelo escritório Bernardes Arquitetura, que também mobilizou novos parceiros: boa parte das empresas, profissionais e fornecedores envolvidos na obra também não cobrou nada ou apenas o preço de custo.

NASCE UM NOVO CENÁRIO
Inaugurada no início de outubro, a sede atual ocupa um terreno de 200 m² – onde antes havia duas casinhas geminadas compradas há alguns anos por Nóbrega e Rosane – e conta com auditório para cerca de 80 pessoas, sala de ensaios, local para armazenamento de instrumentos e figurinos, setor administrativo e, ainda, pequenas áreas externas de respiro e convivência.

Mobilizados pela ideia de criar um marco de resistência cultural no bairro, os arquitetos partiram da premissa de não confinar o novo prédio, descortinando vistas do interior para o exterior e vice-versa. No nível da rua, em vez de muro fechado, optou-se pela instalação de brises verticais de madeira (foto à direita), espaçados o suficiente para permitir o diálogo entre espaço público e privado.

Outra preocupação foi a de não transformar o auditório em uma “caixa-preta”: “Se fosse uma área destinada somente a exibições de espetáculos, tudo bem. Mas, na maior parte do tempo, ela funciona como sala de aula, motivo pelo qual deixar entrar a luz natural era fundamental”, explica o arquiteto Dante Furlan, justificando o fechamento com painéis de vidro na altura do mezanino.

Quem chega ao instituto inicia seu percurso pela praça de acesso, espécie de foyer onde está a bilheteria. Seguindo à direita, encontra-se o túnel que leva ao auditório. À esquerda, está a escada helicoidal que faz a conexão com os pisos superiores. O mezanino soma uma varanda com piso de gradil, que atua como continuação do foyer; uma passarela que serve de arquibancada, ampliando a capacidade do auditório; e um jardim na parte posterior do palco. Já o último pavimento acomoda áreas de serviço e uma sala de aula multiúso, iluminada também por um extenso pano de vidro acrescido de brises de madeira As escolhas construtivas foram determinadas, principalmente, pelas necessidades de uso. Uma vez que não se pode ter pilares no meio de um teatro, a opção recaiu sobre a construção de duas empenas de bloco de concreto aparente nas laterais do terreno. Entre elas, uma estrutura metálica se estende até a cobertura, contendo todos os elementos que se verticalizam.

ACÚSTICA: CUIDADO ESPECIAL
A delicada questão acústica que envolve uma casa de espetáculos foi abraçada por um dos maiores especialistas no assunto, José Augusto Nepomuceno, da Acústica e Sônica, autor de projetos de referência como a Sala São Paulo, o Teatro Bradesco, o Teatro São Pedro e o Credicard Hall.

Um desafio peculiar era que o isolamento sonoro fosse conquistado sem a descaracterização do projeto arquitetônico, que incluía o amplo uso de fechamento em vidro. A solução proposta por Nepomuceno envolveu a criação de esquadrias especiais: os caixilhos foram feitos de perfis tubulares de aço totalmente preenchidos com lã de vidro; enquanto os painéis de vidro insulado foram montados com dois sanduíches de vidro laminado (um totalizando 16 mm e o outro, 12 mm), separados por uma câmara de ar de 50 mm.

A perfeita acústica do auditório, por sua vez, pediu a criação de painéis acústicos rebatedores, que acabaram surtindo um interessante efeito estético. São requadros de madeira preenchidos com lã de vidro e revestidos de tecido antichama em vermelho e azul: “Onde há um painel de um lado, há um vazio do outro. Ou seja, se eles fossem sobrepostos, haveria uma única parede absorvedora”, explica a arquiteta Maria Vittoria Oliveira.

Tanto o piso do teatro como o da sala multiúso do andar superior foram montados como um tablado flexível capaz de amortecer impactos, proporcionando conforto e segurança aos artistas. Trata-se de um piso flutuante com camadas que incluem: laje em steel deck com sistema acústico, barrote, lã de rocha, placa de compensado naval de 22 mm e assoalho.

SHEDS: ILUMINAÇÃO E MEMÓRIA
A iluminação natural é intensificada pela cobertura do tipo shed. “Essa escolha veio com o desejo de dar ao desenho do prédio uma aparência que remetesse a um galpão industrial: é nossa singela homenagem à história do Brincante, que teve uma construção desse tipo como casa durante tantos anos”, aponta o arquiteto Rafael Oliveira.

RESISTÊNCIA E BELEZA NA FACHADA
Para o fechamento da fachada, a opção foi a madeira itaúba, espécie extremamente resistente a intempéries – eleita para evitar que, no futuro, o instituto tenha que gastar com sua manutenção. Um último detalhe de um projeto tão cheio de gentilezas: a calçada na frente do lote também foi recuperada e a árvore ali existente ganhou um banco, também de itaúba, que caiu como uma luva para os usuários do ponto de ônibus vizinho.

POR: CARINE SAVIETTO FOTOS: LEONARDO FINOTTI