Em detalhes: Leblon Offices, de Richard Meier, no Rio de Janeiro

IMPLANTAÇÃO

A locação do empreendimento é privilegiada e de valor imobiliário elevado: é considerado o segundo metro quadrado mais caro do País, cerca de 30 mil reais/m². Está a cerca de duas quadras e meia da avenida beira-mar e, ao fundo, a encosta em alinhamento direto.

O terreno, praticamente plano e resultado de ocupações e construções que foram demolidas, está inserido em ZR-3, ou seja, área mista com vocação comercial e administrativa. O zoneamento dado pelo plano diretor da cidade apresentou restrições em área para construção, resultando em exercícios projetuais, como o atendimento à altura máxima das edificações em 25 m. Os arquitetos projetaram, ainda, um recuo frontal de 5,5 m da rua – gerando mais afastamento das faces dos escritórios em relação à via principal, o que significa mais conforto acústico, mais acesso à luz natural e amplitude no acesso à via, formando praça de acesso que se conecta a uma entrada ampla e a um lobby generoso. Esta solução se contrapôs à diretriz mais comum de ocupação desse tipo de terreno, que é a de adotar pavimentos escalonados. O resultado é que os edifícios existentes e vizinhos, de modo geral, têm maior gabarito de altura em relação ao edifício construído. Obteve-se nesta proposta sobre o terreno de 900 m² dez pavimentos com 6,5 mil m² de área locável para escritórios. Há também três subsolos para vagas de carro.

FACHADAS

As fachadas foram projetadas em camadas. Para a fachada principal, oeste, optou-se por camada em tela, fornecendo a privacidade desejável aos usuários, mas com conexão visual com a rua – que se obtém da sensação de transparência da tela. Como a fachada é de sol poente, o conforto lumínico dos usuários é fornecido pelo brise de alumínio branco. Este brise foi projetado para garantir a máxima proteção contra o calor, dar privacidade a quem está trabalhando no edifício, e permite que cada bandeja leve luz natural controlada ao interior.

Na fachada voltada a leste, o edifício é recuado do alinhamento de seus vizinhos, o que gera menor impacto a estes e cria dois pátios internos – o que, mais uma vez, leva iluminação natural aos interiores. Jardins verticais foram instalados nesses pátios, contrapondo- se tanto em materialidade (natural x construído) quanto para o descanso da visão operacional e para um pulmão verde interno que se integra e cria uma ligação mais orgânica com seu entorno material de concreto.

FIXAÇÃO DOS BRISES

A placa em alumínio anodizado do sistema de sombreamento tem sistema de conexão oculto ao perfil vertical, ou seja, a fixação fica escondida e interna à espessura da placa do brise, que tem largura de 298 mm.

O consolo (470 mm x 218 mm e espessura de 10 mm) ancora o sistema de fechamento da fachada – brise – em chapas soldadas, que por sua vez se ancoram à viga por parafusos.

Já as placas de vidro da fachada são fixadas à estrutura metálica com elementos flexíveis como gaxetas, calços e espumas, por fazerem a transição de sistema e materiais. Nota-se especial atenção ao sistema de drenagem deste fechamento vertical, onde se indica que o perfil terá uma usinagem em chanfro para facilitar o esgotamento das águas e disposição de saídas em furos de 6 mm.

ALETAS DOS BRISES

Para as aletas/placas dos brises foram determinadas tipologias opcionais que se apresentam em corte e para os quais se considera o sistema oculto de fixação ao perfil vertical de sustentação, barra de aço embutida para enrijecimento opcional e conexão em gancho.

CORTES HORIZONTAIS FACHADA OESTE

As configurações de corte, vista superior e plantas mostram as formas de fixações do sistema de fechamento vertical de vidro aos perfis metálicos, e estes ancorando-se por perfis “rabo de andorinha” (termo utilizado em obra) dentro da massa de concreto. Já a planta mostra a grade e o encontro com a coluna formada por perfis de aço “I” e recoberta com chapa de alumínio.

MARQUISE

A marquise é em balanço e se apoia entre pilares e ao longo da fachada em vidro. Seu contorno externo é de chapa de aço dobrada, que se parafusa na estrutura do edifício. Há uma telha sanduíche sobre a estrutura da marquise e fixação de manta de impermeabilização disposta sobre a telha e fixada ao fechamento vertical com parafuso.

VIGA

Nos detalhes de instalação da grelha do jardim, nota-se a viga com seção semi-invertida com apoio da laje em sua altura, tendo rebaixo a partir da faixa da borda perimetral, o que facilita as instalações em piso e a flexibilidade de usos. Abaixo, somente a infraestrutura com as lajes plana protendidas sem vigamentos, visando à maior flexibilidade.

A viga semi-invertida é um difusor de fumaça. Esta viga não se apoia diretamente na coluna, ou seja, chega a um consolo. Tal forma visa a proporcionar a locação do sistema de vedação vertical em vidros.

COLETA DE ÁGUA

O sistema do jardim é provido de calha receptora na forma de bandeja, que tem a função de coleta de água e destino por inclinação à tubulação de esgotamento. Estas calhas são fixadas ao pé do sistema com parafusos.

JARDIM VERTICAL

A constituição do jardim vertical se dá em um sistema de painéis sobrepostos, com: 1) grade autoportante formada por perfil de aço e que serve de ancoragem do emplacamento. A grelha metálica se ancora pelos nós (encontros entre os perfis da grelha) à parede posterior e ao alinhamento vertical de perfil metálico. Esse alinhamento vertical corresponde à junção entre a face do edifício e o jardim vertical, onde um perfil de aço separa os sistemas de vedação dos escritórios e os do jardim; 2) emplacamento vertical de 1 m x 1 m de placa jardim; e 3) canaletas de plantio em placas de 1 m x 1 m.

ESPÉCIES DE PLANTAS

Para a especificação das espécies, contou-se com o estudo da luz natural: nas partes mais baixas, contam-se com espécies que necessitam de pouca iluminação e, gradativamente, aumenta-se o grau de iluminação até a faixa superior.

ILUMINAÇÃO NATURAL

Por possuir certificação sustentável, as metas são de redução no consumo de energia, onde se destacam a fachada principal de vidro com brises, além de paredes verticais ajardinadas, de onde também chega a iluminação natural. Esta condição proporciona a redução de consumo de energia para iluminação artificial e melhora o conforto térmico e a umidade dos ambientes pela vegetação. O projeto contemplou um estudo da iluminância para a proposta de um jardim vertical saudável e com crescimento adequado. Para as paredes identificadas como A, B, C e D (onde foram projetados jardins verticais), foi verificada a quantidade de luz natural incidente, para avaliar as condições de crescimento da vegetação. A simulação foi realizada por faixas de alturas: partes baixas (0 m a 8,33 m), intermediárias (8,33 m a 16,66 m) e altas (16,66 m a 25 m).

EXEMPLO DE SIMULAÇÃO: PAREDE B

Segundo o gráfico de iluminância em lux para a superfície B, sabe-se que quando o céu está encoberto, há entre 100 lux e 200 lux na parte mais baixa da parede. Na parte intermediária varia entre 200 lux e 800 lux, e na superior há uma variação de 600 lux até 1.800 lux, aproximadamente.

No gráfico anual, percebe-se que com o céu claro, há mais iluminação natural incidente na superfície B, principalmente nas partes mais altas. No entanto, em todos os períodos estudados, a iluminância média não passa de 200 lux na parte baixa da parede (a não ser às 11 horas de dezembro). Uma forma de analisar as superfícies e realizar as especificações das espécies de vegetação são as linhas de isolux, ou seja, as curvas que demarcam a mesma iluminância. Assim como as curvas de nível em plantas de topografia, as linhas de isolux representam mesmo nível e valor de lux. Esta representação permite especificar as espécies para cada faixa de iluminação.

SASQUIA HIZURO OBATA é engenheira civil pela Faap, com mestrado em engenharia civil pela USP e doutorado em arquitetura e urbanismo pela Universidade Mackenzie. É professora do curso de arquitetura e urbanismo na Faap e na Fatec Tatuapé-Victor Civita. É coordenadora de Projeto de Gestão Aberta para Inovação do Inova Paula Souza; e coordena o curso lato sensu em construções sustentáveis na Faap