UNA Arquitetos projeta casa de frente à praia em Florianópolis, com estrutura de madeira e fachada com PVC perfurado

Uma estrutura leve de madeira, cujos pilares obstruem ao mínimo a vista do mar. Fechamentos translúcidos que transformam a casa em uma lanterna à noite. Estas duas frases descrevem a nova residência que o UNA Arquitetos projetou em Florianópolis. Demonstrando a maturidade de um estúdio que já possui um vocabulário próprio, somada às requisições de economia e despojamento dos clientes, resultou-se em um pequeno raciocínio sobre a casa de veraneio.

O lote está inserido em um condomínio fechado, no qual as dimensões padrão são retângulos cujo lado maior é paralelo à linha da costa. O terreno estava contido entre outros na retícula, até que uma revisão legislativa restringiu construções até certa distância do mar e tornou o lote desobstruído em relação ao oceano. A decisão legislativa ajudou a nortear as decisões de partido: uma casa retangular alinhada com a costa, com piscina e áreas comuns no terreno mesclando-se com as areias de praia.

A planta é resolvida em dois volumes: um estreito de apoio aos fundos do térreo e que contém uma pequena cozinha, escadas, fornos, churrasqueiras e sanitários e outro superior, vazado, transparente e leve com os usos de vivência.

Os clientes já tinham construído sua residência com o UNA na cidade de Joinville (AU 241). Na ocasião, os arquitetos optaram pela construção de um sistema de madeira desenhado pela Construtora ITA e montado pela mão de obra da região. A experiência funcionou, tanto que a equipe local produziu os vedos e caixilhos daquela casa.

Para a residência em Florianópolis, os construtores foram chamados novamente para participar. Como os custos tinham de ser reduzidos, foi descartado o uso de um sistema de montagem que viesse de fora do estado, e a equipe de Joinville fez a casa na íntegra.

“Pedimos apenas que o calculista fosse de nossa escolha”, diz Fernando Viégas, sócio do escritório. Esta escolha, uma decisão precisa dentro de um cenário de corte de custos, já entrevia a decisão central de realizar uma estrutura que resolvesse, com o mínimo de chegadas ao chão, o contato do térreo com o mar.

Três conjuntos de pilares em “V” instalados no perímetro da casa a sustentam no seu lado voltado ao mar. O piso superior e a cobertura são sustentados por barrotes de madeira que se conectam nos fundos com o sólido bloco de apoio.

A estrutura tem uma sofisticação que em nada fica a dever para os sistemas construtivos padronizados de montagens de madeira. As peças são parafusadas entre si de topo, numa operação que demanda precisão milimétrica. Os pilares em “V” possuem uma angulação própria, e tiveram de ser rigorosamente alinhados nos vãos entre as peças de suporte do assoalho.

Na chegada ao chão, três sapatas de concreto recebem os pilares, em uma elaborada conexão entre cimento, aço e madeira que reaviva a tradição específica do moderno brasileiro de sempre fazer da chegada dos esforços no chão um comentário estético.

Duas portas de madeira de 5 m x 2,20 m fazem o fechamento da churrasqueira e lavanderia – áreas que possuem eletrodomésticos – deixando o térreo totalmente permeável; abertas, são uma proteção a esse espaço. A escada de acesso aos dormitórios é fechada por uma porta com trinco. Com isso, a casa nunca fica completamente encerrada: a área livre do térreo, a piscina e o seu deque ficam abertos para as ruas do condomínio mesmo quando os moradores não estão presentes. “O cliente contou que uma vez chegou na casa e tinha pessoas nadando na piscina. Ele não se importa”, diz Fernando.

No piso superior, a casa resolve-se em uma planta elementar: escada no centro do bloco de apoio, três dormitórios com uma suíte no fim de linha e uma sala com cozinha na borda oposta. Um vazio entre os dormitórios e a área de estar cria um pé-direito duplo no piso inferior e dá mais privacidade aos programas privados.

Caixilhos de madeira internos fazem os fechamentos dos quartos, mas a planta da casa tem uma pequena sobra no assoalho que cria uma delgada varanda comum com uma leve inflexão. No perímetro do piso, vem o fechamento do pavimento – e o que configura a casa como uma caixa translúcida: um pano de elementos vazados de PVC, que ventilam a residência, mas a protegem das intempéries, e colaboram para filtrar a luz do sol.

Os montantes dos elementos ritmam a fachada com um espaçamento pequeno. Na altura do observador, os arquitetos interrompem a aplicação das peças, criando uma janela alongada praiana. Durante o dia, a casa paira como um volume branco de estrutura escura de madeira. À noite, brilha como uma lanterna em frente ao oceano, podendo até mesmo servir como referência fixa informal para navegantes que costeiem a ilha de Florianópolis.

A residência distoa das construções do restante do condomínio, geralmente pesadas e cujas exigências idiossincráticas de suítes, vagas de garagens e fechamentos hiperseguros as tornam caixas fortes litorâneas. A solução da equipe do UNA subverte essa pasteurização arquitetônica, mas não por simples redução das dimensões ou outros procedimentos relacionados à proporção entre as partes do edifício – embora no projeto exista também uma sofisticada operação deste calibre.

Trata-se de uma intrépida revisita às nuances do sempre dúbio enfrentamento da natureza pelo homem, persistente até mesmo nessa desinteressante urbanização condominial. No percurso sempre desobstruído entre área comum, pilares em “V”, piscina, areia e mar, restabelecem-se relações como contemplação, conciliação e, pela leveza da estrutura e de seus fechamentos, de contraste e assombro diante das dimensões das águas salgadas do Atlântico.

Os contrastes com as casas vizinhas, e mesmo o bloco de apoio pesado de alvenaria voltado para elas, não são fortuitos: a casa desfaz-se no seu trajeto ao oceano, estando de certo modo mais próxima dos barcos que navegam na orla do que das residências que lhe ladeiam. A casa não ter portas de fechamento é o mais claro sintoma desse processo: seus limites não se encerram senão na linha sempre mutável das águas.

“Sempre que vou ao mar, vou como marinheiro raso, logo à frente do mastro.” Essa passagem de Melville em Moby Dick resume a impressão direta que a construção suscita, ao tratar de uma casa de veraneio que não é retiro: é um convite direto para o encontro com as águas, uma afirmação de que é impossível fazê-lo sem que seja nos termos de uma inesperada aventura.

FACING THE OCEAN
The pillars of the light wooden structure minimally block the ocean view. Translucent wall finishing illuminates the house as if it were a lantern at night. These two phrases describe the new residence that the UNA Arquitetos office has projected on the Florianópolis Island. The floor plan is laid out in two volumes: a narrow support volume at the back of the grounds that holds the kitchen, stairwells, ovens, barbecue pits and bathrooms and another upper, empty, transparent volume with the living areas. Three sets of V-shaped pillars at the perimeter of the house sustain the side facing the ocean. The top floor and the roof are sustained by wooden two by fours connected on the backside with the solid support block. The sophistication of the structure owes nothing to standardized wooden assembly building systems. DETALHE – ENCONTRO DE VIGAS DETALHE – PILAR DETALHE – ENCONTRO PILAR E TIRANTE The pieces are bolted together at the top, in an operation that demands millimetric precision. The V-shaped pillars have the proper angulation and had to be rigorously aligned in the spans between the pieces supporting the floor. On reaching the ground, three concrete shoe foundations receive the pillars in an elaborate connection between cement, steel and wood, which revive the specific modern Brazilian tradition of always making an esthetic note of sheer strength reaching the ground. In the constantly unobstructed passage between the living area, V-shaped pillars, swimming pool, sand and ocean, relations like contemplation, conciliation and, by the lightness of the structure and wall finishing, contrast and wonder are reestablished on facing the dimensions of the salty Atlantic waters.

POR: RAFAEL URANO FRAJNDLICH FOTOS: BEBETE VIÉGAS